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O Fado foi ontem Rei e Senhor no Centro Cultural de Belém pela voz de Carlos Leitão, fadista lisboeta mas com forte ‘costela’ e inteira alma alentejana.

 

 

Há artistas com enorme talento vocal e interpretativo mas que depois ao vivo pecam em termos de espectáculo. Outros que não sendo tão talentosos conseguem, ainda assim, bons espectáculos. E depois…há artistas como Carlos Leitão que são excelentes intérpretes e conseguem um espectáculo muitíssimo bem conseguido desde alinhamento, desenho de luz, som, tudo bem pensado (presumo) mas executado com uma naturalidade impressionante.

 

 

“Sala de Estar” é o mais recente disco do fadista, sucedendo a “Do Quarto”, e com uma imagem alentejana o espectáculo iniciou com Carlos Leitão a cantar “Oh Meu Alentejo” sem suporte instrumental. O Alentejo é, neste caso através da música, uma óptima sala de estar e uma forma bonita de abrir um espectáculo. “Talvez porque Lisboa me esqueceu”  trouxe o fadista ao palco e acompanhado instrumentalmente pelos seus músicos começou a viagem nocturna pelo Fado.

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A voz de Carlos Leitão é impulsionadora de alterações cardíacas a quem o ouve, tal a imensidão de sensações e sentimentos que desperta. Alegra-nos quando interage com o público entre temas, normalmente fá-lo com inteligência e pinceladas de humor, levando-nos depois pelo amor, tristeza, paixão, amargura, dor, perda, entre outros sentimentos consoante a mensagem de cada tema.

 

 

O homem que em tempos foi jornalista optou pelo melhor fado que a vida tinha a sai destinado: emocionar quem o ouve através do seu canto, que nos faz viajar sentados entre o novo e o antigo, entre Lisboa e o Alentejo, mas sempre numa entrega por inteiro, a mesma forma como o público ontem se entregou durante todo o espectáculo.

 

“Fado de Arraiolos” trouxe depois de si “O Telefonema” que antecedeu a chamada ao alinhamento do Fado Alberto.

 

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Momento para ficar sozinho em palco e num espaço em que é recriado um ambiente caseiro e intimista leva-nos de novo ao seu primeiro disco com o tema “Até ao fim” acompanhado de viola, tal qual como escreveu e compôs o tema. A interpretação foi simples e arrebatadora. Mas Carlos Leitão superar-se-ia logo no tema seguinte “À Distância” onde esteve sublime (mesmo que se tenha enganado na letra, como humildemente assumiu, muito embora poucos tivessem notado caso ele não tivesse assumido o ‘erro’)

 

Carlos Leitão, que tive oportunidade de ver e ouvir um par de vezes, conseguiu neste espectáculo algo que é até difícil explicar por palavras, porque muitas vezes as emoções não se explicam, sentem-se e ficam para sempre na nossa memória.

 

 

“Nós somos a noite” foi composto por um genial guitarrista, Guilherme Banza, e escrito por Carlos Leitão (como aliás todos os temas à excepção de um, neste último disco, que foi escrito por Tiago Torres da Silva).

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No “Fado Fadista” colocou o público a trautear o refrão, recebendo no final uma das maiores ovações da noite. O fadista tem uma voz grave que sabe modelar consoante a mensagem que pretende transmitir. Não vai pelo caminho mais fácil, como tantos fazem, ao fazer malabarismos com a voz (melismas). Em Carlos Leitão é tudo servido naturalmente, e isso faz dele um do melhores na sua arte.

 

 

“O Dia do Casamento” foi dedicado à sua noiva, com mais uma interpretação inteligente, seguindo depois para o single deste disco, “Sexta-feira”, antes de ficar novamente sozinho em palco para “Que Fazes aí Lisboa”.

 

Mas um dos maiores desafios para este disco, compor uma moda alentejana, foi também um dos momentos mais bonitos deste espectáculo. Chamou ao palco Hugo Baletas, Pedro Calado, David Pereira e Buba Espinho para cantarem “A noite fica-me bem”. Incrivelmente belo. Que bom é quando o Alentejo nos invade a alma sem pedir licença e de forma mágica!

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O espectáculo estava num ponto em que dificilmente podia ser superável em termo de qualidade. Puro engano. Leitão puxa dos galões (que os tem) e interpreta Fado Cravo, Fado das Horas e Fado Noquinhas. Foi ‘apenas’ Fado e isso é o suficiente!

 

 

Mas o público queria mais e ‘obrigou’ o artista a um encore para sozinho cantar “Premonição”, acompanhado do seu trio habitual de músicos presentear-nos com “Loucura” e terminando com chave de ouro cantando à capela com os músicos e os seus convidados alentejanos uma moda típica deste região “Vamos Lá saindo por esses campos fora”.

 

 

Perante um auditório com forte afluência de público, Carlos Leitão esteve soberbo, fadista e por inteiro. Mas há ainda alguns destaques a fazer sobre este espectáculo:

-Excelente trio de músicos que o acompanhou (Henrique Leitão na guitarra portuguesa, Luís Pontes na viola de fado e Carlos Menezes no contrabaixo);

– Excelente qualidade de som (Miguel Ponte), incrível e bem conseguido desenho de luz (Vítor Azevedo) e uma escolha muito bonita das imagens que foram passando em “slideshow” durante o espectáculo (Carolina Monteverde).

 

Carlos Leitão conseguiu assim criar um espectáculo de diferentes tonalidades emotivas num trabalho de equipa que resultou em pleno!

 

Fotografias: Jorge Reis/LusoCultura

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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