Catarina Rocha: “Cantar as minhas letras, é como se me sentisse despida mas ao mesmo tempo sinto-me mais humana”

 

 

‘Vida’ é o novo disco da cantora Catarina Rocha, ‘cantora fadista’ como se define, e que sucede a ‘Luz’. Neste disco contou com produção de Valter Rolo e apresenta 10 faixas, algumas das quais em que assina letra e música.

Em entrevista ao Infocul, a artista fala deste disco, dos desafios da escrita e do canto, das influências e da importância do Fado na sua vida.

 

Quando é que começou a pensar neste disco, ‘Vida’?

Há cerca de um ano atrás, creio que em Outubro de 2018. Já tinha vários poemas e músicas minhas, e achei que estaria na altura de fazer algo novo. Já tinha falado com o meu produtor – Valter Rolo (com quem já tinha trabalhado no álbum Luz) que estaria pronta para ir para estúdio, e no início do ano (2019) começámos as gravações.

 

Fado Abananado’ é o tema que serve de apresentação a este disco. Porquê a escolha e qual a importância de ter uma letra do Pedro da Silva Martins?

Escolhemos este tema para single por várias razões. Assim que li a letra adorei o título (fora do comum) e a história que conta. Quando estávamos em estúdio a gravar, sentíamos que o tema transmitia muita energia e toda a gente começava a “bater o pé” ao som do ritmo. É aquilo que se costuma chamar de um tema “orelhudo” e o refrão é muito fácil de decorar. Conhecia o trabalho do Pedro da Silva Martins e sempre admirei a sua maneira de escrever e de brincar com as palavras. Tem um enorme talento na sua escrita e sendo dos maiores autores da actualidade, é sempre uma honra poder contar com a sua arte neste meu Vida.

 

Neste disco assina também a letra e música em ‘Expresso da Saudade’, ‘Não sabe Amar’, ‘Meu Amor’ e a letra em ‘Agora é que vai ser’. Quando surgiu o gosto pela escrita?

Já tinha tido uma primeira abordagem na escrita do álbum Luz, mas tinha escrito para um fado tradicional (Fado dois tons), em que tinha que respeitar a métrica e a melodia. Desta vez foi de uma maneira mais solta e mais livre pois já tinha alguns poemas escritos, mas nunca os tinha musicado. Desta vez por incentivo do Valter Rolo que me deu todo o apoio para mostrar o meu trabalho enquanto autora, decidi abrir a “caixinha de pandora” e quatro dos meus poemas entraram no álbum. Fico radiante por saber que o feedback das pessoas, que já ouviram o álbum, é tão positivo. Quero sem dúvida continuar a escrever e a fazer melodias para os meus poemas.

 

O primeiro disco foi ‘Luz’ e este é ‘Vida’. Pergunto se é a vida que nos traz a luz ou se é através da luz que aproveitamos a vida?

Creio que a Vida nos traz Luz, se a procurarmos e lutarmos por ela. Se tivermos essa luz, conseguimos muito mais facilmente aproveitar a vida. É a isso que se chama a busca da felicidade. Eu precisei primeiro da Luz para depois surgir a Vida, está tudo encadeado. Acabo com uma frase de Tiago Torres da Silva, no poema que me ofereceu “O que o tempo nos dá”, que a meu ver, reflecte que é preciso haver luz na vida. «Com a alma infeliz não se pode sonhar»

 

Conta também com letras de Tiago Torres da Silva, Fernando Farinha, Álvaro Duarte Simões, entre outros. O que mais aprecia nos letristas?

A força que dão às palavras, sem dúvida! Gosto sobretudo de aprender com os letristas, dão-nos lições de vida e fazem-nos crescer enquanto pessoas. Acho que passamos a ver o mundo de outra forma, no sentido em que passamos a dar importância aos detalhes que por vezes nos passam despercebidos. Aprendi sobretudo a “ler nas entrelinhas” e a ter pensamento mais crítico.

 

Qual o tema mais pessoal deste disco?

O tema “Meu Amor” e o tema “Agora é que vai ser”. “Meu amor” fala de alguém de quem gostamos muito, mas que nunca mais vai voltar, acho que foi das coisas mais bonitas que já fiz na música. “Agora é que vai ser”, tem tudo a ver comigo! Não devemos ficar presos e dependentes do que os outros pensam…os outros vão pensar de qualquer forma. Às vezes é preciso renovar a nossa forma de pensar e focar no que realmente queremos, ter confiança e principalmente ter orgulho e certeza que nosso trabalho é bom! Espero influenciar as pessoas a acreditarem nelas próprias.

 

É mais desafiante cantar as suas letras ou a de outros?

É desafiante de ambas as maneiras! Cantar as minhas letras, é como se me sentisse despida mas ao mesmo tempo sinto-me mais humana. Eu tinha alguma relutância ou até vergonha em cantar os meus poemas. Hoje em dia tenho orgulho em fazê-lo. Liberta-me a mente e tenho esperança que quem me ouve sinta o mesmo que eu quando canto as palavras. Cantar as letras de outros autores é igualmente difícil porque tenho que interpretar o que outra pessoa escreveu, o que viveu, o que sentiu. Estou a colocar na minha voz os pensamentos e emoções de outras pessoas, e isso é uma grande responsabilidade. Neste caso tenho o cuidado de falar com o autor e tentar perceber se a maneira como entendi o poema é a mais correta para o interpretar.

 

 

Quais os espectáculos que pode já anunciar para apresentar este disco?

O disco ainda é tão recente que estamos focados em promovê-lo. Mas em 2020 começaremos a anunciar as datas que vão dar VIDA aos palcos. No entanto, em Agosto fiz uma pré apresentação do álbum na Feira de São Mateus, em Viseu. A partir de dia 18 de Outubro sairá o videoclip oficial do “Fado Abananado”.

 

Quem são as suas grandes referências no Fado?

Cresci a ouvir Amália Rodrigues e sempre gostei da sua voz e dos seus temas. É sublime a sua arte de transmitir a alma através da voz, para além de ter sido uma excelente letrista. António Mourão (ao qual fiz homenagem no Luz), sempre fazia parte da minha “playlist”. Sua voz trinada e a forma de cantar encantaram-me desde a primeira vez que ouvi. Fernanda Maria e Maria Teresa de Noronha são mais dois nomes que sempre admirei no fado.

 

Quem foram os músicos que a acompanharam neste disco?

Sou uma afortunada por ter tão excelente equipa a trabalhar comigo. Todos eles iluminaram o meu Vida! Contei com Valter Rolo na produção e teclados, Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Bernardo Viana na viola de fado, Vicky Marques na bateria, Marino de Freitas no baixo e finalmente Sandra Martins no violoncelo.

 

Dedica muito tempo às redes sociais?

O suficiente. Tenho noção que as redes sociais dão grande ajuda e impulso na carreira dos artistas. Gosto de receber o feedback dos meus seguidores e por norma são super simpáticos e amáveis para comigo. Ouvem os meus temas e ficam entusiasmados sempre que há novidades. O mais importante e o que me reconforta enquanto artista é saber que a minha música faz sentido e ajuda os outros.

 

Onde pode o público interagir consigo?

Facebook e Instagram, por acaso não uso muito o Twitter.

 

Como se define enquanto fadista? Ou prefere ser considerada cantora?

Sou uma cantora fadista. Quem me ouve diz sempre que a minha voz é muito eclética e isso para mim é um enorme elogio. Gosto muito de música, e para além do fado, gosto de Jazz, blues, canto lírico, entre outros estilos. No entanto, é no fado que sinto a força das palavras e as emoções “à flor da pele”. Tento sempre que os meus álbuns mostrem a minha versatilidade enquanto cantora/fadista, e mostrem que o fado fala da vida, e na vida há alegrias e tristezas, dançamos, choramos, cantamos, rimos e amamos.

 

Qual a mensagem que deixa aos nossos leitores?

Espero que viagem pelas emoções e sintam o pulsar do meu Vida.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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