Cati Freitas: “Estrangeira é sobretudo um chamado de alerta para um País livre de rótulos chamado Coração”

 

 

 

Estrangeira” é o nome do mais recente trabalho discográfico de Cati Freitas. Composto por 11 faixas, Cati Freitas propões uma viagem pelas flores musicais do seu jardim, na qual conta com a participação de Jaques Morelenbaum. Em entrevista ao Infocul, conduzida por Rui Lavrador, Cati Freitas explica a ideia do disco, a escolha de repertório, o seu percurso, os próximos espectáculos e ainda a importância das redes sociais.

 

 

 

 

Porquê “Estrangeira” como nome para este disco?

Estrangeira é um nome irónico. Quando lancei o primeiro disco senti que a importância dada ao ter gravado no Brasil e as influências pressentidas se tornaram maiores do que eu mesma. Ouvi muitas vezes dizer que eu não podia ir para a “prateleira” da música Portuguesa. Apesar de compreender, na verdade não queria compreender. Através dessa sensação que me falava baixinho, tive vontade de me fazer emergir de forma mais intensa, daí a necessidade de ter um disco maioritariamente autoral desta vez, de querer dar principal enfoque a isso mesmo, bem como às mensagens e ao cariz sonoro que busco. Achei um bom nome para estabelecer uma ironia com a sensação pretérita e a nova que estabeleço neste disco quanto à Portugalidade que se escuta nas letras e nos ritmos que busquei para contar sonoramente alguns temas. Estrangeira é sobretudo um chamado de alerta para um País livre de rótulos chamado Coração.

 

 

 

Quando surge a possibilidade de ter Jaques Morelenbaum e qual a importância para este disco?

Conheci o Jaques nos bastidores de um concerto dele em Lisboa faz mais ou menos cinco anos. Desde então que estabelecemos um contacto. O tempo passou e Jaques ia acompanhando o que eu escrevia nas redes sociais, identificava-se, e falávamos a respeito. Combinamos de nos ver de novo numa tour que ele fez em Portugal no ano passado, e a cumplicidade aumentou de forma natural à medida que íamos partilhando a nossa afinidade de pensamentos. Estava prestes a terminar o disco e decidi perguntar-lhe se ele gostaria de participar numa das faixas, ao qual ele me respondeu prontamente: – Sim, como não? A principal importância foi ter a sua sensibilidade executada numa canção que necessitava de subtileza poética. O Jaques é um poeta a escrever no violoncelo. Eu sirvo as canções. Elas pedem-me, eu obedeço.

 

 

 

Qual a mensagem que pretende transmitir?

A importância de sermos nós mesmos, de nos fazermos transmitir sem receios. A importância de percebermos qual a nossa voz no meio do ruído imenso em que vivemos. A autora e a intérprete que na sua sonoridade não procura servir ou defender um estilo. A Liberdade de poder explorar a expressão, que sendo autêntica, por si só se individualiza e me caracteriza.

Quais foram os maiores desafios?

Compor. Encaixar um sentimento numa melodia é um desafio imenso que tanto tem de libertador como de limitativo. Tentar não ficar preso a ideias pré-estabelecidas do que à partida é mais ou menos intelectual e, por isso mesmo, mais ou menos bom para apresentar. Foi difícil ser fiel a uma simplicidade com desejo de fluir. Foi desafiador escutar-me.

 

 

 

Como foi a procura e escolha e repertório?

Experimentei a escrita e composição muito recentemente, não sei se sempre será assim. Mas diria que, no meu processo, os sentimentos surgem, de preferência intensos – não consigo criar em banho maria – e depois cada um deles dá origem a uma canção. Não tive uma lista de temas que ficaram de lado. Apenas um ou outro. À medida que as ideias vão surgindo eu intuo se cabe ou não. Quanto aos temas revisitados “Barco Negro” e “Perdidamente”, o primeiro acordou na minha mente e fez-me entoar a voz num sussurro, a pele arrepiou e eu decidi aceitar o desafio colocado pelo mistério da inspiração. O segundo remeteu-me para o universo da poesia e para saudade que sentia do palco.

 

 

 

Além de cantar, também escreve e compõe. O que a inspira a compor e escrever?

A vida.

O processo criativo começa pela melodia ou pela letra?

Normalmente pela melodia, mas também já experimentei a letra em primeiro lugar. É normalmente uma espécie de impulso pouco racional que ora vem pela escrita ou pelo canto.

É mais fácil cantar as suas palavras ou as palavras de outros?

Sou intérprete e autora. Preciso apenas de me encaixar de uma forma profunda com o que canto.

Quais os músicos com quem partilhou a gravação deste disco?

Tiago Costa, Conrado Goys, Frederico Heliodoro, Felipe Roseno, Cuca Teixeira e Luís Guerreiro.

 

 

 

É importante os músicos que gravam um disco serem os que depois a acompanham nos espectáculos ao vivo?

Seria o ideal, mas nem sempre é possível. Tenho gravado fora e dentro do País. O Estágio de gravação pode ser mais livre. Posso gravar em casa como em qualquer ponto do mundo. O “ao vivo” requer outras questões logísticas que nem sempre nos permitem essa liberdade. Convém que todos os músicos sejam próximos de mim, que tenhamos um local de partida comum.

Como descreve este disco?

Um disco sereno, sentimental e com força de expressão.

 

 

 

Para o público que não a conheça, este disco retrata o seu percurso ou a sua actualidade?

Ambos. Tem uma linha condutora que o liga ao já feito e ao já conhecido. E representa, em maioria, a fase em que me encontro agora.

 

 

 

Em termos de redes sociais, qual a importância delas e quanto tempo lhes dedica diariamente?

Nunca contabilizei o tempo que lhes dedico. Não me sinto refém delas. Tenho momentos em que é necessário estar mais em cima da comunicação para com o público, e outros em que simplesmente procuro postar algo quando tenho real vontade de o fazer. As redes são importantíssimas e instrumentos de grande valor que, bem usados, podem ajudar a estabelecer pontes ágeis entre mim e os outros.

 

 

 

Se este disco fosse um ramo de flores, quais seriam? Isto tendo por base a imagem do disco…

(sorriso) Seriam flores de superação, trabalho e amor.

 

 

 

Quais os maiores desafios que o mercado musical coloca?

Não sei se é uma impressão que me é passada por quem trabalha comigo ou se é de facto o que acontece, mas sinto o mercado afunilado e ainda bastante padronizado apesar de todas a supostas evoluções sociais e tecnológicas. Há uma resistência para o novo. E as oportunidades parecem continuar a não ser iguais para todos. A meu ver, enquanto as mentalidades não mudarem, o mercado não muda. O mercado são pessoas. Mas, existe ainda uma coisa que não tem que ver com Arte: o dinheiro e o poder.

 

 

 

Em termos de espectáculos, como correu a apresentação em Lisboa?

Foi uma noite de ligação comovente entre mim e o público.

Quais as próximas datas?

25 de Janeiro: Centro Cultural Olga Cadaval

16 de Fevereiro: TAGV em Coimbra

 

 

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Sejam vocês mesmos. Um largo abraço.

 

 

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Notícia publicada a 29/11/2018

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