Cláudia Picado: “Canta-se muito fado, mas nem sempre o fado acontece”

 

 

Cláudia Picado conta com 18 anos de percurso artístico e de amor ao fado. Recentemente esteve em Israel e nas Filipinas. Para 2019 anuncia a saída de um disco que dará a conhecer o melhor de si. Tudo isto foi abordado na entrevista que concedeu ao Infocul, conduzida por Rui Lavrador.

 

 

Cláudia Picado aceitou um convite através do qual cruzou a cultura portuguesa com a de outros povos do Médio Oriente: Amer Nakhleh, diretor/manager da Beit Almusica (único conservatório de música árabe-palestiniana reconhecido em Israel) convidou a fadista portuguesa a gravar um disco, durante o mês de Agosto, em que o intercâmbio musical e cultural foi predominante. Será editado em Israel e distribuído por diversos países. Em Portugal, ainda não há confirmação da edição desse trabalho. O projecto “Artist Cooperation – Portuguese Fado & ArabicMusic” teve como objectivo registar em atmosfera real a fusão do talento da fadista e de todos os músicos envolvidos neste projecto, onde a cooperação e intercâmbio musical dos dois países foram desenvolvidos, indo além dos limites da língua e das diferenças culturais. De Portugal levou José Duarte (guitarra portuguesa), a quem se juntou seis músicos plestinianos, e ainda uma surpresa que foi um desafio que lançou ao poeta Mário Rainho, que aceitou o convite da fadista para escrever um poema que foi inserido numa música árabe, resultando numa fusão.

 

 

Mais recentemente esteve nas Filipinas, participando no Rondalla Festival ( Cuerdas Sang Paghiliusa- Strings of Unity) na cidade de Sillay. Foi a primeira vez que Portugal esteve representado num certame que, este ano, juntou 250 músicos de 21 países.

 

 

Cláudia Picado começa por destacar o “intercâmbio musical e cultural que eu consegui estabelecer com todos, portanto, éramos 250, eram 21 grupos, vários foram os países convidados”, sendo que num dos espectáculos que deu no Festival teve uma surpresa de ouvir o hino nacional antes de subir a palco. Na plateia, centenas de pessoas, ouviram em silêncio proporcionando um “dos momentos mais incríveis e indescritíveis, e por mais que eu fale sobre esse momento, é muito emotivo antes de eu subir a palco ver a minha bandeira e centenas de pessoas em silêncio, que muitas delas além de nem conhecerem a nossa língua, nem muitas com certeza sabem onde é que Portugal fica, mas o respeito entre os povos, a recepção que nos fizeram, o facto de se lembrarem de colocar o hino como forma de receber a nossa pátria, a nossa língua é algo de uma dimensão incrível, só nós mesmo, três pessoas, eu e os músicos a cantar o hino e centenas de pessoas, como tu viste, em completo silêncio a respeitarem realmente Portugal e logo de seguida chamarem-me a palco para eu lhes mostrar, falar um pouco, e transmitir o que é o nosso fado, a nossa cultura, a nossa música, a guitarra portuguesa, o som peculiar que nós temos (único no mundo) e também receber logo de seguida uma outra recepção das crianças, que muitas delas queriam mostrar a diversidade cultural, tanto nos instrumentos diferentes e únicos do mundo, como nas próprias danças, é um povo que respira a música, eu faço quase como uma ponte com outra cultura que também conheço bem, que é a cultura árabe, em Israel”.

 

 

 

Nestes dois países, “qualquer criança já nasce tendo como berço um instrumento musical, portanto acaba por ser uma forma cultural e a tradição desses povos em manterem e quererem saber mais e procurarem estes intercâmbios com vários países do mundo, que era a filosofia deste festival, para conhecer e beber da música com os instrumentos de corda e a música e o canto que eles representam e isso para mim foi muito enriquecedor”, acrescentou.

 

 

Neste festival foi acompanhada “na guitarra portuguesa pelo José Manuel Duarte, na viola de fado pelo Hugo Silva, que para além de me acompanharem também demonstraram através de uma guitarrada, que eu fiz sempre questão de mostrar a nossa diversidade musical, tanto no fado como também na nossa música, aquilo que nos temos de melhor nesta área”.

 

 

 

Antes das Filipinas, esteve em Israel, um convite que surgiu por parte da Beit Almusica, do director, “que é o único conservatório reconhecido pelo estado de Israel, já tem esta ideia há alguns anos, desde que me conheceu num outro espectáculo, no âmbito de fado que eu já tinha tido há uns anos, mais propriamente há 9 anos. Conheceu- me, e foi acompanhando a minha carreira, também muito através das redes sociais, e tudo o que eu ia fazendo e conseguiu reunir neste projecto, que eu sei que ele já tinha em mente durante estes anos todos, uma grande editora e promotora que acreditou e juntamente com o conservatório convidaram-me para integrar este projecto de fusão musical, entre a música árabe e o fado

”.

 

 

Um dos objectivos deste projecto é “fundir estas duas vozes, a minha e a da Sanaa Moussa, que é uma cantora palestiniana que é muito conhecida no estado de Israel e pelo mundo fora e com todos os instrumentos que compõem este projecto, ou seja, o objectivo é criar arranjos diferentes com os instrumentos árabes com a guitarra portuguesa. O projecto será editado e a estreia será em Israel”, conta-nos, revelando ainda que “tive o gosto de convidar um grande poeta do nosso pais, o Mário Rainho, para juntamente comigo fazer uma surpresa que irá integrar este projecto, que foi um tema que já sabíamos de antemão que iria ser gravado e que eu fiz a surpresa de levar a letra em português e integrar a música já com o arranjo feito por eles

 

 

 

Para 2019 há novo disco. É um dado já garantido. “Desde algum tempo que preparo esta minha apresentação do que é a Cláudia Picado neste momento, eu posso integrar e ser convidada para projectos internacionais e acabo por ter tido ao longo destes anos o meu percurso internacional mais vincado do que propriamente cá em Portugal, mas chegou a altura em que eu reuni todos aqueles que eu quis que pertencessem e acompanhassem este meu caminho, este meu percurso. Aqueles que ao longo destes anos todos da minha carreira, foram de alguma forma cruzando este meu caminho quer através da escrita quer através da música, posso dizer-te que reuni algumas das pessoas que mais gosto e que compuseram para mim. Tanto as letras que irão fazer parte dos fados tradicionais como novas composições musicais, portanto o meu disco vai conter também fados tradicionais, composto com letras originais feitas e escolhidas para mim”.

 

 

Mas ainda não apresentará nenhuma letra da sua autoria, até porque “já tentei fazer esse meu registo, mas tentei escolher as pessoas certas que transmitiram os mais variados sentimentos tanto os mais alegres e felizes como os mais tristes e infelizes, como eu costumo dizer nem só de alegrias nós vivemos mas também temos o outro lado mais infeliz e triste e que por vezes esse lado não é revelado, eu já revelei um pouco de mim no primeiro single de Tiago Torres da Silva e Guilherme Banza, é um registo em que as pessoas estão mais habituadas em ver uma Cláudia alegre e feliz, mas posso revelar que este novo single vai transmitir um sentimento completamente oposto”.

 

 

Sobre o novo disco revela ainda que o “produtor musical do meu disco é o Guilherme Banza, depois posso também chamar mentor ou produção executiva, alguém que acompanhou este meu percurso, que é o Toze Brito, portanto em todo este meu percurso eu tive sempre este meu amigo que me conseguiu dar força e também ajudar-me em qualquer situação” e na componente instrumental contou com “Guilherme Banza, pelo Rogério Ferreira e pelo Francisco Gaspar”. Como letristas revelou ainda que contará com “Tiago Torres da Silva, o Mário Rainho, o António Laranjeira, ou seja, vou deixar alguns nomes no ar…” desvendando ainda e apenas “Guilherme Banza…” compositor mas sem adiantar mais nomes.

 

 

Actualmente a fadista assume que “canta-se muito fado, mas nem sempre o fado acontece”, até porque “o fado acontece com uma junção perfeita que raramente acontece entre o fadista que está a interpretar um poema que por si só já tem incutida uma mensagem que o poeta pretendeu colocar na letra, a própria música tem de ser perfeita, num ambiente perfeito em que temos de estar em sintonia com os músicos que estão a tocar e com o público que está a ouvir, ás vezes basta uma simples colher ou garfo a bater no prato para estragar o ambiente e todo o processo do que é o fado, aquele preciso momento de atingir o coração de quem está a ouvir”. Podem o Fado e o Amor ser inexplicáveis e apenas vividos? “Posso dizer que as duas coisas são bastantes difíceis, porque também é muito difícil encontrar o amor. Há sempre pontos que se tocam. Podem-se viver e caracterizar, nem sempre são possíveis de sentir”, remata.

 

Entrevista realizada em: A Muralha- Tapas e Vinhos

Fotografia: D.R

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Notícia publicada a 27/11/2018

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