Cláudia Picado: “Este disco tem muitos reflexos de amor”

 

 

‘Reflexo’ é o primeiro disco da fadista Cláudia Picado, com produção de Guilherme Banza. A fadista concedeu entrevista ao Infocul, na qual desvenda todo este trabalho, tema a tema, músicos, compositores, letristas e até a mensagem que pretende transmitir.

‘Reflexo’ é o nome do teu disco. Reflexo da fadista, reflexo da mulher ou de ambas?

É o meu “Reflexo “enquanto fadista e é também o reflexo de todas as minhas escolhas. Autores, compositores, produtores, músicos, editora, técnicos, de todos aqueles que me acompanham e que através da sua arte entregam a sua alma no meu disco! É o “Reflexo” de todo o percurso percorrido, desde a concepção, à idealização, ao conceito, à escolha dos temas, a melhor forma de transmitir o que é o Fado de Cláudia Picado. 

 

‘Fragilidade’ abre o disco. Neste disco em que expões a tua fragilidade?

Sim também. Ao longo da vida fui me deparando com algumas fragilidades e encontrei no Fado e fuga perfeita para as ultrapassar. Continuo a fazê-lo revelando o lado mais feliz e alegre da Cláudia mas também o mais infeliz. Por conseguinte, lancei alguns desafios a autores e compositores assim como na escolha das letras e composições para este disco. O amor e todos os sentimentos envoltos são o mote! Tentem fechar os olhos e desfrutar de cada poema e sentir todos estes sentimentos a que escolhi emprestar a minha alma. 

 

“Se pensas que em algum momento me tiveste/Criaste certamente uma ilusão” cantas em ‘Não penses’. Numa relação actual sentes que existe sensação de posse?

A relação que tenho é com as palavras do poeta, emprestando-lhe a alma, transmitindo o seu sentir. António Laranjeira escreveu este poema de forma estupenda, um grande fadista, amigo e poeta. A meu pedido lanço-lhe o desafio de escrever sobre os sentimentos mais infelizes no amor. Raiva, traição, ódio, mentira e até mesmo violência que infelizmente nos dias de hoje tanto acontece. A linha entre amor- ódio é muito ténue. O António transmitiu- de forma sublime juntamente com Rogério Ferreira de quem é a música. Esta última, tem o andamento próprio de quem ferve com vários destes sentimentos negativos no amor. Tentei juntar tudo isto e dar-lhe uma visão com alguma doçura também. Porquê? Porque o amor verdadeiro teve de acontecer. 

 

 

O teu coração anda a ritmo acelerado ou segues o tema deste disco e anda ‘Devagar Coração’?

Mais um desafio que lancei ao meu querido Mário Rainho, um fado triplicado de raiz, como só a sua forma de escrita consegue defender. Empresto-lhe a minha alma de uma forma tão dedicada que o sinto como meu, dando um intenso sentido as palavras. Hoje em dia a vida corre e o amor também. Não conseguimos desfrutar o amor como deveríamos, a correria do dia a dia, o trabalho, os afazeres não nos permitem parar!!!! Este fado é um apelo ao coração para pararmos de correr e desfrutar-mos os momentos que a vida nos dá!!

 

Quais os letristas que escolheste para este disco e porquê?

Escolhi vários poetas, a razão é mesmo pelo gosto da sua escrita e por cruzarem o meu caminho ao longo dos anos. Não consegui que todos os que gostaria ficassem no meu disco, Linda Leonardo, José Luís Gordo entre outros. São poemas que canto sempre, não sendo desta vez o seu registo será uma certeza num próximo. Ainda assim são 13 temas e foi muito difícil a escolha entre todos os temas gravados. Conto com poetas: António Rocha, Rui Rocha, António Laranjeira, Jorge Fernando, Tiago Torres da Silva e João Vinhas.

 

 

Em termos de compositores quem tens aqui?

Guilherme Banza, Rogério Ferreira, Fernando Silva e Tozé Brito. E tal como os poetas alguns temas de outros compositores, não entraram no disco. Foram temas escolhidos por mim principalmente e pela produção claro e que me identifico a  100% com a sua essência musical. 

 

Qual o critério para a escolha de repertório?

Como mencionei foram muitos os temas gravados até chegarmos aos 13 finais. O meu disco reflecte uma versatilidade do meu gosto musical tanto em fados tradicionais como em criações novas. Esse sim foi o meu objectivo principal, um disco com criações próprias que mostrasse as minhas escolhas tanto na escrita como musicais, com um cunho pessoal tanto na interpretação como nas composições escolhidas criando um repertório próprio.

 

 

‘Fui Ao Baile’ integra também este disco. Gostas de Bailar ou ficas apenas pelo Cantar?

Gosto de tudo que me faça feliz! E gosto das duas coisas sim. 

 

‘Amor, tem Calma’ e ‘Trazes mais amor à minha via’ são dois dos temas que abordam o amor. O que é o amor para a Cláudia e de que modo influencia o seu canto?

Tudo na vida gira à volta do amor. Até a amizade quando é verdadeira é completamente um gesto de amor. Este disco tem muitos reflexos de amor de todos os que nele se envolveram, destes os letristas, aos compositores, aos técnicos de som, estúdio audiovisuais. Todos foram escolhidos por mim e têm para mim um carinho especial pois tenho a certeza que deram o seu melhor revelando a sua arte da melhor forma. Estes dois temas têm mais uma vez na sua letra os reflexos se sentimentos intensos em torno do amor. “Amor tem calma”, um diálogo com a guitarra que o meu querido António Rocha escreveu de forma brilhante aligeirando as palavras dando lhe uma frescura imensa tornando as um pouco brejeiras remontando a tempos antigos. “Trazes mais amor à minha vida”, um poema brilhante de António Laranjeira. O tema mais intenso que eu tenho no disco, em que o amor está despido de quaisquer preconceitos e se confessa verdadeiro, com uma música intimista do Rogério que atinge o coração de qualquer um. 

 

Costumas ‘Remar contra a maré’ muitas vezes?

Algumas sim… no amor e em tudo na vida. Como touro que sou, sou muito teimosa confesso mas a persistência às vezes é uma virtude e quando me dizem que tenho todos os motivos para desistir de alguma coisa. Como de cantar por exemplo. E é o que nos define e nos faz mais feliz na vida!? Aí, só se a saúde falhar, pois há mais marés que marinheiros… e quando a Maré vaza pouco tarda para encher. Só é preciso saber esperar… Quanto a esta letra magnífica do António Rocha no fado tradicional Marana, decidi dar-lhe uma interpretação muito própria num fado lindíssimo, com algum andamento, o que por vezes também se coaduna com letras melancólicas e sentidas. Foi esse o meu objectivo.

 

 

Qual o tema que mais te define, neste disco?

Depende do meu estado de espírito… o “quando me chamas mulher” é a minha primeira paixão mas o “fragilidade” já é aquele amor à primeira vista. Talvez porque além de já gostar, fui eu que juntei a música à letra. Já escutava a música quando encontrei as palavras perfeitas do Jorge Fernando para lhe dar sentido.O arranjo musical final que o Guilherme Banza fez ao convidar o João Frade no acordeão para esta musica, foi mesmo a estrelinha a brilhar lá no céu. Uma ideia iluminada que me faz, sempre que fecho os olhos, lembrar me do meu pai e dessa forma sentir me muito feliz! A versatilidade e diversidade musical que procurei para este disco identificando a Cláudia Picado enquanto fadista foi concretizada. Além disso tenho um tema dedicado ao meu filho, “Menino” com o José Manuel Duarte na guitarra portuguesa como convidado. Quando o meu filho o ouviu, com a interpretação dos pais, começou com a lágrima no olho e disse-me que adorou. Sendo a minha família uma prioridade e o meu filho o meu amor maior não poderia ficar mais feliz.

 

 

Quais os músicos que integram este disco?

Guilherme banza, na guitarra portuguesa, Rogério Ferreira na viola de fado, Francisco Gaspar na viola baixo. Ainda os convidados: João Frade, no acordeão, José Manuel Duarte, na guitarra portuguesa no tema “Menino”, e António Quintino no contrabaixo. Além disso existe o meu convidado surpresa que é o Tozé Brito que me deu o privilégio de cantar comigo, um dueto inédito, “O café dos teus olhos”. 

 

 

A produção ficou a cargo de Guilherme Banza. Porquê esta escolha e quais as maiores marcas dele neste disco?

O produtor musical para mim é dos papéis mais importantes num disco. Alguém que temos de conhecer bem e principalmente nos conhecer a nós também. A cumplicidade musical é tamanha e quando se sente e se criam novas músicas e conseguimos dar liberdade à nossa arte, não podia ser mais feliz! É o seu primeiro trabalho de produção e direcção e além de meu amigo, foi alguém que fiz questão de esperar assim como toda a equipa por nós escolhida (músicos, técnicos, estúdio…) Só assim iria percorrer este caminho, com  todos aqueles que escolhi e exactamente com todos os autores e temas que queria. Este disco em tudo tem o cunho do Guilherme, desde a concepção, a idealização, aos arranjos musicais, temas etc. todas as decisões passaram por ele. As marcas são no seu todo, pois até mesmo as horas de dedicação em estúdio foram muito superiores às minhas. 

 

Qual a participação de Tozé Brito neste disco e qual a importância dele no teu percurso?

Para mim o Tozé Brito é como se fosse o meu mentor, alguém que esteve sempre comigo desde o início da concepção do disco assim como o Guilherme Banza. Alguém que me deu muita força para percorrer o meu caminho, para arriscar por exemplo em vários vários desafios que lancei a autores compositores etc. Toda a idealização desde o conceito, a procura constante dos vários sentimentos ligados ao amor, os melhores e os piores que actualmente se vêem cada vez mais infelizmente. Em tudo o Tozé foi um dos meus grandes pilares. Alguém com valores extremos, de uma educação ímpar e arte inexplicável. Além de tudo que sempre fez a sua última atitude para comigo foi realmente um grande reflexo de amor. Além de compor o “café dos teus olhos” para mim ainda me deu o privilégio de o cantar comigo. Foi um reconhecimento que todo a dedicação, empenho e arte neste meu reflexo originou mais um reflexo de amor, o da nossa amizade! 

 

 

Se este disco não fosse teu, como o definirias?

Felicidade e amor! E não iria descansar enquanto não conseguisse chegar até ele numa procura constante. O amor move montanhas sempre se disse! Neste caso o amor ao Fado e ao reflexo de todos que me acompanharam e que dessa mesma forma me transmitiram os seus reflexos de amor através da sua arte! 

 

‘Quando me chamas mulher’ tem assinatura de Banza. É uma homenagem à figura da mulher?

Penso que terá sido o objectivo do querido Tiago Torres da Silva que fez esta letra arrojada e magnífica a responder. Juntamente com o Guilherme Banza fizeram sem dúvida um tema que me apaixonei desde o primeiro dia que o cantei. Sinto que esta mulher sou eu sem dúvida. É um tema criado para mim, cuja minha pretensão é sem dúvida transmitir a mesma paixão e alegria que sinto a todos que me escutam.

 

Quem são as tuas grandes referências no Fado?

São muitas.. Não te posso eleger uma voz, porque são vozes femininas e masculinas que sempre escutei e procurei em cada uma, uma aprendizagem e apreensão do seu fado através da sua voz. 

 

 

O que tem este disco de tradição e de contemporâneo?

Tem exactamente um pouco de tudo o que disseste. O disco é composto maioritariamente por letras originais, algumas escritas propositadamente para os fados tradicionais que pedi. Existem dois temas que sempre cantei, no qual foram elaborados novos arranjos musicais para este disco, e que decidimos que tinham de pertencer ao mesmo como fio condutor de todo o meu percurso. Como se de uma ligação às origens se tratasse. Finalmente as novas composições do disco que reflectem quem é a Cláudia Picado. Desde os sentimentos mais felizes e alegres aos mais íntimos e melancólicos, são composições que tendo como base o fado e os instrumentos musicais dão liberdade aos autores tanto da letra como da música de mostrarem a sua arte. Eu limito-me a emprestar a minha alma, dando sentido as palavras transmitindo o melhor de mim. Esse foi um dos objectivos iniciais do disco, mostrar as minhas escolhas alem dos fados tradicionais criar novos temas, um novo repertório! O que nos leva novamente ao início da questão, pois a criação de novos repertórios remonta-nos à tradição. Não há muitos anos todos os fadistas cantavam os suas próprias criações ,dando lhe assim o seu cunho pessoal diferenciando se dos demais. 

 

Em que se distingue este disco?

Em tudo, sendo que é o meu reflexo e de todas as minhas escolhas. 

 

Qual a mensagem que deixas aos leitores do Infocul?

Que continuem a ler muito, ouvir muita música e principalmente e que se interessem pela cultura do nosso país. 

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