“Compus o tema numa fase conturbada da minha vida” diz mema. sobre ‘Perdi o Norte’

mema. é o projecto de Sofia Marques. Sofia Marques é cantora compositora e também produtora, tendo inclusive já trabalhado com Branko. No passado dia 13 de Março lançou o single “Perdi o Norte”, que serviu de base e fio condutor à entrevista que nos concedeu.

A voz letra e produção do single é de mema.

Este ‘Perdi o Norte’ presumo que tivesse sido feito antes deste tsunami social que estamos a viver. Podemos dizer que foi premonição ou a inspiração foi outra?

Sim, foi escrito no final de 2018. A inspiração foi outra, mais pessoal, mas o sentimento é muito semelhante. Transporta-se em parte para este paradigma colectivo em que vivemos. Compus o tema numa fase conturbada da minha vida, vivia em Dublin e sentia-me perdida, sem propósito. Foi um desabafo em tom de esperança. Há coisas que precisamos de dizer alto, antes de conseguirmos avançar. O Perdi o Norte é isso. 


Acredita que a música pode ser uma salvação num momento em que muitos ficaram sem saber qual o caminho a seguir?
Curiosamente, a cultura que é o sector mais afectado pode ao mesmo tempo ser aquilo que ajudará pessoas de outros sectores a ultrapassar esta fase. Será que chamará a atenção dos outros para a precariedade dos trabalhadores culturais, na sua maioria?

A música, na minha perspectiva, é sempre salvação. Sente-se esse efeito de forma mais marcada, porque por força do vírus nos foram tiradas todas as outras ocupações e como tal, tornou-se o foco. Tem sido muito bonito ver o papel importante que a música e os artistas têm, principalmente em situações como esta. A forma como se têm mobilizado para fazer as pessoas sorrir num tempo em que as notícias são apenas tensas e negativas, é louvável e o público tem respondido à altura. Penso que se sente essa gratidão e que há um reconhecimento da importância e poder que a arte tem para nos restaurar. A música é um bálsamo, já se dizia em tempos antigos. 

Em relação ao estado do sector, não estou certa de que os outros entendam ainda a precariedade do mesmo. Estamos imersos em diferentes bolhas digitais e o que nos chega é filtrado. Eu consigo ver essa precariedade, porque também sou artista, passo por isso, e a minha rede inclui muitos colegas da indústria também. Não sei se essa percepção chegará a todos, porque o que o público vê é o produto final. Por trás de 3min de música há horas e horas de trabalho de muita gente. Produtores, engenheiros de mistura e master, agentes, distribuidoras, assessoras, até designers. O mesmo se passa para um concerto ou festival. Acredito que algumas pessoas mais sensíveis ao que se passa nos bastidores se vão apercebendo da realidade do sector cultural, mas não tenho a certeza se esta situação terá despertado muito mais olhares. Quero ser positiva e acreditar que sim. 

Além de intérprete, é produtora. Qual a área musical em que se sente melhor ou que mais a desafia?

A produção é muito desafiante para mim e é o que mais me dá prazer fazer neste momento. Tenho-me desafiado a melhorar constantemente na produção, não apenas dos meus temas, mas também para outros. A produção é um sem fim de opções estéticas, que com o tempo se vai definindo e ganhando um cunho pessoal. Vejo-a como a decoração de uma casa – múltiplas opções, mas no final, vai representar o teu gosto, o que tu és, mas respeitando os alicerces, espaço e outros elementos pré-existentes (a composição). Por essa razão, e pela vontade de descobrir novos caminhos, a produção é a minha maior paixão. Quero inovar, não repetir o que já foi feito. A produção leva-me a esses caminhos por desbravar. 

Nesta fase, quais são as ideias e os projectos que tem em mente, após o lançamento deste single?

Vou lançar o meu EP em Outubro, “Cidade de Sal”. Até lá ainda tenho alguns singles e colaborações na manga. Quanto ao resto, terão de esperar por novidades!   

O que é que esta pandemia mudou em termos profissionais?

Cancelou uns e coloca em causa outros compromissos agendados, nomeadamente concertos. Além disso, tornou a promoção do single um pouco mais difícil. Lancei o Perdi o Norte no dia 13 de Março, coincidiu exactamente com o agravamento da situação do vírus no país. Como obrigou meios de comunicação e todos os envolvidos a adaptarem-se, naturalmente afectou a rapidez com que as notícias saíram e o destaque que tiveram ou poderiam ter tido. No entanto, o quebrar de um paradigma traz sempre novas formas de fazer. Isso é muito positivo. Virei-me, todos se viraram, para as redes sociais e videochamadas.  

Qual a mensagem que pretende transmitir com este single?

De certa forma, quero mostrar que ninguém está imune a perder-se. Mas da mesma forma que nos perdemos, também nos encontramos. E se há circunstâncias que nos levam à confusão interior até nos tornarem apáticos, há também outras que nos tiram do buraco e nos voltam a fazer sentir. Eu passei por uma depressão há uns anos atrás e em 2018 tive uma fase que quase me levou de volta a essa escuridão. Quero acabar com tabus que nos fazem ter medo e vergonha em admitir que não somos assim tão fortes e que, por vezes, sim, precisamos de ajuda. Quero que o meu perder o norte remova essa barreira. Há muita gente a passar por isso e acredito que, talvez, seja essa uma das razões para a forma tão aberta como o single foi recebido. Acabou por se tornar ainda mais relevante com a situação do COVID-19. Demos até agora a nossa liberdade, rotina e saúde por garantidas. Quando na realidade, do nada, tudo pode ser colocado em causa. Perdemos o controlo e não sabemos como agir. Perdemos o norte. 

Qual tem sido o feedback e qual a mensagem que mais a emocionou?

O feedback tem sido avassalador. Não há como não me sentir grata e humilde pela reação e amor que teve e está a ter. Recebi muitas mensagens, mas a que me ficou mais presente foi “Identifico-me muito na tua música neste momento”. Para mim não há melhor reação que esta. Diz-me muito: eu ouvi, eu compreendo o que dizes, eu sinto o que transmites. Além disso, senti muito carinho por parte de outros artistas com quem me tenho cruzado, Alex D’Alva Teixeira (D’Alva), que me tem apoiado de forma incansável, Branko, Surma, entre outros, alguns deles a quem tenho o privilégio de chamar amigos. Não só a música, como também o vídeo, pela equipa incrível da Illicit Epiphany Films (de Gonçalo Loureiro, Ramon Freitas, Braga Ferreira), tem sido alvo de críticas muito positivas. Eu queria que a música e o vídeo estivessem 100% em sintonia e eles tornaram-no em algo cinematográfico, intenso, lindíssimo. Algo de que todos nos podemos orgulhar. 

Onde poderá o público interagir consigo?

No Instagram @sofmema, Twitter @sofmema e no Facebook /memamusicpt . Vejo todas as mensagens e respondo a tudo! [sorri]

Por curiosidade, o que significa ‘mema’?

mema. é uma junção das primeiras sílabas dos meus apelidos. É uma afirmação da minha identidade, sou eu mesma. Foi um nome que comecei a usar quando vivia em Berlim, quando fiz parte do colectivo de produtores Strength in Numbers. Queria cortar com os meus projectos anteriores e redefinir-me. O nome mema. (com o ponto final) fez sentido e ficou.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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