Cordel: “ Que olhemos mais para os mais desfavorecidos e que cuidemos mais do nosso planeta”

Fotografia: Tomás Monteiro

 

Edu Mundo e João Pires compõem o projecto Cordel e num desafio lançado pelo Infocul, falaram sobre as tradições natalícias brasileiras e portuguesas e de que modo vivem esta quadra com a família.

Por entre as tradições musicais que nos fazem balançar entre os dois lados do Atlântico, num Cordel que os juntou, a dupla concedeu uma divertida, mas também séria, entrevista ao Infocul sobre a temática do Natal e projectando já o ano de 2020 no que ao projecto diz respeito.

 

Amanhã celebrar-se-á a véspera de natal, também conhecida como a noite de consoada. Como costuma ser a vossa consoada e o que não falta na mesa?

EM A minha consoada é normal, consiste num jantar em família regado com muito azeite enquanto se discute qual o melhor número de circo, dos 40 apresentados a concurso na TV. O natal não é a minha quadra favorita, admito. Acima de tudo porque esta celebração serve para garantir que a nossa existência deveria ser o verdadeiro presente a dar aos outros, e não o que agora acontece: garantes o meu gostar pelo preço do que te comprar. 

JP Passei a maioria das consoadas na Parada do Côa ( Beira Alta) na aldeia dos meus avós. Este ano será igual, um pouco mais pobre pois eles já nos deixaram. De qualquer forma lá estaremos sentados à mesa da cozinha com uma lareira a carburar, acompanhados de um bom bacalhau, enchidos, filhós e um bom vinho tinto. A guitarra e as cantigas também não faltam. Depois da meia noite faz se a “ronda pelas adegas” dos habitantes da aldeia. Hora de rever os amigos e familiares, de beber mais uns canecos.

Brasil e Portugal tem muito a uni-los mas têm também grande diversidade gastronómica. Nesta quadra o que mais se destaca em Belo Horizonte e no Porto?

EM Pronto, já vi que o vós quereis é saber de morfes! Em minha casa tem exatamente as mesmas coisas que em todas as casas portuguesas. Queijos, enchidos, vinhos, frutos secos, compotas, ovos caseiros. Regalias de quem vive ou tem familiares longe das grandes cidades.

JP Em Belo Horizonte é típico o peru assado recheado com farofa de banana, salpicão, queijo de minas, panetone. É indispensável também a boa cachaça mineira, a arca com muita cerveja gelada e uns calções de banho pois nesta altura do verão um chuveiro ou uma piscina são bons amigos.

São homens de fé? Se sim de que modo a vivem?

EM Tenho fé nas pessoas. No que as pessoas podem fazer de bom ou justo, e/ou criativo. Se bem que fé, bondade, e criatividade são conceitos que variam de pessoa para pessoa.

JP Tenho a minha fé mas não segue propriamente nenhuma corrente “instituída”.

O que devemos reter desta época festiva?

EM – Devemos reter parte do salário de Dezembro. Até aos reis é sempre a de-reter!  Nem conto com a investida compulsiva dos saldos, no início do ano. 

JP Agradecer a existência, estar perto de quem gostamos, solidariedade, época de balanços e reflexões, época de pensar em novas metas

 

Por norma é uma época de grande consumismo. São muito consumistas?

EMAinda luto contra a ideia de que somos o que temos. Só o que está da minha pele para dentro é que é meu de direito, é que é consumido com justa causa.

JP Não. Sobretudo nesta época, o meu pouco consumismo vai todo direccionado para o meu filhote.

 

Algum de vocês tem por exemplo o hábito de ir à missa do galo?

EM- À meia noite, a sueca ou o loto vai a meio. Assim como o pão de ló e o queijo da serra.

JP Na minha infância quando a Parada ainda tinha missa do galo ia sempre. Mas isso há 25 anos atrás, nunca mais fui a nenhuma. 

Nesta quadra, Natal e Réveillon, o que irão fazer? Viajar, estar com família…?

EM – O Natal é para a família, enquanto que a passagem do ano de 2019-20 vou ter o prazer de tocar na Praça da minha cidade.

JP Sim, viajar e estar com a família é o  programa que irei fazer. 2019 foi um ano de trabalho intenso com Cordel e com outros projectos que realizo no Brasil. Um ano de ir e vir muitas vezes. Foram 8 países em 2019, e 2020 se desenha também com muito trabalho. Portanto agora precisamos mesmo parar um pouco, estar em família, descansar, viajar pelo interior, estar com os pais que são também avós e recarregar a bateria. 

O que mais vos marcou desta quadra quando eram crianças?

EM – Aquando crianças o que marca são os presentes e a euforia até poder abri-los. O Natal é sobretudo uma festa para apreciar o regozijo das crianças.

JP A meia noite, enquanto meus pais iam para as rondas nas adegas nós juntávamos-nos em volta da fogueira, as vezes jogávamos a bola, sentia sempre uma alegria de todos que infelizmente não é uma constante ao longo do ano. 

Havia algumas tradições ou hábitos que vos tenham marcado?

JP As cantorias nas rondas pelas adegas. 

Numa quadra fortemente marcada pela gastronomia, preferem doces ou salgados?

EM – Ainda não tenho uma opinião bem definida sobre esse assunto. Vou deixar passar este Natal, e debruçando-me como se o assunto fosse a mesa cheia, talvez no próximo ano já esteja mais esclarecido. 

JP Salgados sempre!!! 

Qual a iguaria a que não resistem?

EM – Era uma vez um pão-de-ló e um queijo. E sou feliz para sempre!

JP Enchidos. O Chouriço, a morcela, a farinheira que são feitas na aldeia, não lhes consigo resistir.

Há alguém nas vossas famílias que costume vestir-se de pai natal?

EM – Era eu até ser desmascarado. Espirrei e cuspi a barba sem saber.

JP Passei por essa experiência recentemente, vesti-me de Pai Natal para ver a reação do meu filho. Foi hilariante. Ele não me reconheceu e ficou contente com as prendas que lhe deixei. Meu pai também anda a fazer de pai natal para meu filho. Ele espera muito por este momento. 

Em termos de novidades sobre Cordel, o que podemos esperar para 2020?

JP – Estaremos na estrada no primeiro semestre para mais concertos, passaremos por Espanha também e em Maio estaremos no CCB e na Casa da Música, salas que nos dão muita ilusão. Paralelamente estamos a trabalhar no segundo volume da trilogia que deverá também ser lançado em 2020. 

Qual a mensagem que deixam aos nossos leitores?

EM – Tenham todos um óptimo Natal, exatamente da forma como o desejaram! 

JP Desejo a todos boas festas, um bom natal. Muita saúde, luz e prosperidade. Que olhemos mais para os mais desfavorecidos e que cuidemos mais do nosso planeta. 

Votos de um Feliz Natal e Prósperto Ano Novo para o Infocul!

Destacar que Cordel subirá a palco no CCB (14 de Maio) e na Casa da Música (21 de Maio).

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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