Joaquim Ribeiro ‘Cuqui’ é matador de touros, português, natural da Moita e após ter tomado alternativa a 19 de Agosto de 2018 em Tijuana, no México, ainda não se apresentou enquanto matador de touros numa praça de touros lusitana.

Foi seu padrinho de alternativa Uriel Moreno ‘El Zapata’, com testemunho de António Garcia ‘El Chihuahua’. Lidaram-se touros da ganadaria Golondrinas. Actualmente desempenha funções de professor na Escola de Toureio da Moita.

Cuqui recebeu o Infocul.pt na sua terra e na praça que tanto gosta, a Praça de Touros Daniel do Nascimento para uma entrevista sobre o percurso, o esforço que a profissão exige e a actualidade da tauromaquia em Portugal.

Sobre a Escola de Toureio da Moita, disse-nos que “desde que comecei que tenho tido alguma preocupação com a escola, sempre que vou a algum ‘tentadero’, ou sempre que posso, levo alguns miúdos da escola. Nos últimos tempos, desde que me pediram para integrar a Escola de Toureio da Moita, tem sido um trabalho interessante embora eu já soubesse o que era porque conhecia os miúdos todos, por serem da minha terra e por maioria deles já ter ido ao campo comigo”.

Actualmente, a Escola de Toureio da Moita, conta com “13 a 14 miúdos, com idades dos 6 aos 20”.

Sobre o seu aluno mais novo e a reacção do mesmo quando integrou a escola, explicou que “um miúdo com 6 anos tem essa ilusão e esse sonho de ser toureiro, mas não é bem ciente da realidade e do difícil que é a profissão. Não a encara sequer como profissão mas sim como um sonho de qualquer miúdo, como fosse ser jogador de futebol ou cantor. Neste caso, o sonho e ilusão dele é ser matador de touros”, referindo-se a “Simão, com 6 anos.

Quando questionado se ao olhar para os seus alunos revê-se quando tinha a idade deles, explicou que “sou um matador jovem mas penso que isto nos últimos anos tem mudado bastante e as dificuldades são quase sempre as mesmas, as condicionantes é que variam. As minhas dificuldades não vão ser as deles, também porque são trajectórias diferentes”.

Sobre a sua trajectória, definiu-a como “dura, no sentido externo e não pelo touro. Não fui sacrificado pelo touro mas sim pela gestão e pela própria festa, tive uma trajectória pouco ajudada mas estou feliz com a trajectória que tenho”.

Sobre a sua vontade em tourear em Portugal, foi claro ao afirmar que “podia ser já amanhã! Não passa por mim. Eu treino todos os dias e o que mais me preocupa é treinar e estar preparado. O matador de touros Eduardo Oliveira dá-me uma ajuda nesse sentido, é muito meu amigo e tem as mesmas ideologias e forma de interpretar o toureio que eu. Portanto, dedico-me todos os dias a treinar e a pensar no touro. Vivo feliz com isso. No dia em que quiserem contratar-me, aqui estou! E estou preparado para isso”.

Sobre os motivos para não tourear em Portugal, revelou que “é aquilo que existe em todos os mundos. Como dizer sem que pareça mal a ninguém…Não são cunhas, são outros interesses que existem dentro da festa, que leva a que uns actuem mais do que outros. Acontece em todos os mundos. E eu como talvez não tenha mais nenhum interesse, para além de ser matador de touros, tenho esse ponto negativo para a minha evolução ou para integrar mais cartéis. Mas vivo bem com isso e de ser o rebelde, nesse sentido, de não me contratarem”.

Em tempos surgiu um movimento, despoletado por aficionados, que pedia a sua presença na Praça de Touros Daniel do Nascimento, para actuar como matador de touros.

Cuqui, sobre esse movimento, revelou-nos que “fiquei contente. Eu estava no México e tinha-se falado de eu actuar e apresentar-me como matador de touros na Feira da Moita, em Setembro. Sei que não foi muito do agrado de algumas pessoas responsáveis pela festa, aqui na Moita. Dizem até que isso foi, de alguma maneira preparado por mim, mas não é verdade. Tenho muitas pessoas amigas, que são daqui e gostam de mim, como é óbvio, como podem gostar de outro toureiro de outra terra. Mas acho que tinha toda a lógica tourear na minha terra, mas não foi assim. Não foi bem visto esse apoio, nem levado a cabo pela empresa, e tem todo o respeito. A praça é gerida pelo empresário e ele contrata quem acha que deve contratar”.

Enquanto matador de touros, dedica muitas horas do seu dia ao treino. E em entrevista ao Infocul explicou em como baseia os seus treinos e na importância dos mesmos.

Os meus treinos são também, muito baseados na preparação física. Até por ser um toureiro que actua pouco. Toureando pouco, a preparação física acaba por ser muito importante, para te sentires forte no dia em que actuares, até pelo esforço físico que o animal te obriga e à pressão do público. Eu, geralmente, treino 5 a 6 horas por dia, entre treino de salão e depois a componente física”, explicou.

Sobre a importância do treino de salão explicou que “é importante para criares hábitos ao corpo, treinares os gestos e os movimentos. É um treino mais técnico. Ou melhor, técnico não mas de interpretação e de ensaio ao toureio. Técnica é uma palavra um pouco feia por ser fria e que vem ligada à perfeição. E tudo o que é perfeito não tem muita beleza”.

Em Portugal não há touros de morte, excepção a Barrancos. Significa isto que um matador de touros não pode exercer a sua profissão na plenitude. Apenas toureia a rés, não podendo executar a sorte suprema. Noutros países, pode.

Questionado se o sonho de todos os toureiros era indultar (devolver o touro ao campo, com vida) os touros que toureia, disse que “sim, era sinal de que o touro era muito bom e que o toureiro o poderia tourear com uma melhor faena e em que todas as pessoas na praça estivessem vibrando. Indultar todos os touros era do nosso gosto”.

E sobre o possível sofrimento do touro na arena, algo repetido muitas vezes pelos animalistas, disse que “para haver vida, terá sempre de existir morte. Criamos o touro com este fim, todos os animais têm um fim. Nós também temos o nosso fim. Este animal, o touro bravo criado pelo homem, tem este fim que é este espectáculo e esta cultura”.

Acrescentou ainda que “damos oportunidade ao touro de nos matar, muitos toureiros foram mortos por um touro. Relativamente à estocada, cá em Portugal damos a possibilidade que ele nos mate, mas não o podemos matar. Cá em Portugal, o touro é morto num matadouro e depois é comercializado num talho qualquer. Ocultamos a morte perante o público, mas depois provavelmente esse animal é morto de forma menos digna”.

Exercendo uma profissão onde constantemente desafia a morte, questionámos Cuqui sobre como vive os dias em que tem corridas de touros.

Eu encaro os dias em que vou tourear, como algo normal. Não crio essa pressão a mim nem aos que estão comigo. Para mim, o dia em que toureio é o dia mais feliz, porque sonho todos os dias em tourear. Portanto, tourear é como viver um sonho. É um dia feliz para mim. Portanto adoro partilhar esse dia com a minha família e com as pessoas que me são queridas”.

Sobre a possibilidade de um dia uma tragédia impedir o seu regresso ao lar e aos que lhe são mais queridos, disse que “isso é algo inerente e que tens como assumido. Não é o pensamento principal, embora por vezes tenhamos medo. Mas medo no sentido de uma cornada, porque há touros que fazem mal. Há dias em que o medo pode levar-te a pensar nessas coisas, mas num dia positivo e normal, encaro as coisas como um dia feliz”.

Não se recorda da idade em que decidiu ser matador de touros, “comecei aos 12 anos e só posteriormente fui começando a ter essa ideia. Com 12 anos não tinha bem essa ideia de ser novilheiro nem nada. Não tinha uma ideia definida sobre isso”.

Mas, “na altura, as minhas referências portuguesas eram o Vítor Mendes e o Pedrito de Portugal. Posteriormente vais abrindo horizontes e conhecendo outros toureiros, Morante de La Puebla é dos toureiros que mais admiro”, acrescentou quando questionado sobre as suas referências.

Abordando as suas referências, desafiámos-lo a dizer o cartel de sonho e Cuqui aceitou o desafio. “O meu cartel de sonho? Bom, primeiro na minha terra, na minha praça, antes de tudo. Tourear com o Morante e um outro matador português. Tourear na minha terra, com o Morante e mais um português, penso que era uma mais-valia para a festa, para mim, para a minha terra e para a tauromaquia portuguesa”.

Sobre o maior problema actual na tauromaquia, foi conciso ao afirmar que “talvez a união entre todos os agentes, profissionais e aficionados. Esse é o principal problema da festa, até mais do que os anti-taurinos, as relações internas que temos entre nós. Talvez estejamos a falhar muito e somos prejudicados nos ataques externos que fazem à festa”.

Assume que “já pensei em desistir muitas vezes, são coisas que te passam pela cabeça e que depois se insistes em continuar a lutar, são coisas que te fortalecem, como pessoa e toureiro”, acrescentando que “uma as últimas vezes foi agora em Setembro, quando não estive presente na Feira da Moita. Foram vários dias em que andei triste e com muitas dúvidas sobre se vale a pena o esforço e dedicação que tenho diariamente para a profissão, porque posteriormente não há retorno”.

Mas conseguirá um toureiro viver da tauromaquia? “Eu penso que há muitos toureiros que vivem da tauromaquia, mas no meu caso seria impossível neste momento”, disse Cuqui.

Destacou ainda um país especial para si, “O México. Tenho muito boas recordações, bons amigos. Falo diariamente com eles, não vou mencionar nomes porque esquecer-me-ia de metade. São um povo que me acarinhou e me tratou como sendo um deles. Talvez se não fosse o povo mexicano e a tauromaquia mexicana, eu hoje não seria matador de touros”.

Contou ainda ao Infocul uma peculiar história, aquando da sua alternativa.

A minha alternativa foi tomada em Tijuana. A pessoas que me levou a tomar alternativa chama-se Alejandro Amaya e o seu pai é uma pessoa com uma personalidade diferente daquilo a que estamos habituados. E foi um choque estar a almoçar ao pé de leões, terminar o paseíllo e ele querer que tu tomasse um shot de tequilla. Foi uma semana, que estive em Tijuana, com histórias diferentes e situações caricatas”, acrescentando que “pensei que fosse mais difícil almoçar mas depois habituas-te e até te esqueces que eles estão ali. Mas ficas sempre nervoso”.

Como curiosidade, o touro da sua alternativa tinha o número 89, pesava 456 quilos e chamava-se ‘Remolino’.

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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