‘Damas da Noite’ chega ao Teatro Nacional D. Maria II como “ veículo para partilhar inquietações e confrontar o ser humano com ele próprio”

D.R.

 

De 20 de Março a 5 de Abril, o Teatro Nacional D. Maria II receberá ‘Damas da Noite, uma farsa de Elmano Sancho.

Com texto e encenação de Elmano Sancho, este espectáculo passou já por localidades como Famalicão, Faro, Mindelo (Cabo Verde) e Guarda. Chega agora a vez de Lisboa usufruir de um espectáculo que tem recolhido vários elogios, do público e da crítica.

A sinopse revela que, neste espectáculo, “Elmano Sancho evoca a conflituosa reviravolta de expectativas em torno do seu nascimento para levantar o véu de Damas da Noite: os pais esperavam uma menina, de nome já destinado, Cléopâtre, mas nasceu um menino”.

Partindo deste cenário, “o encenador pretende assim dar vida a esse outro desejado de si mesmo, como se este fosse uma espécie de duplo e existisse numa realidade paralela que Damas da Noite encena. Para erguer essa figura ficcionada chamada Cléopâtre, Elmano Sancho imergiu no mundo fascinante e provocador do transformismo. Os artistas transformistas “vestem a pele de um outro, tentam ser um outro”. São “flores que abrem de noite”, intérpretes de uma transformação “pautada pela transgressão, o desconforto, a ambiguidade, a brutalidade dos corpos e a violência das emoções”.

Elmano Sancho, bem como Dennis Correia e Pedro Simões, falou com o Infocul.pt, explicando o processo criativo e também o objectivo deste espectáculo.

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Depois de várias salas e locais, é agora a vez do Teatro Nacional D. Maria II e de Lisboa receberam este espectáculo. A responsabilidade é grande, mas para Elmano Sancho “apresentar o espectáculo em qualquer sala, cidade ou país traz um sentido de responsabilidade grande para com os intervenientes e para com o público”, destacando que “ter a possibilidade de o apresentar no D.Maria II em 2020 é um orgulho e uma honra”.

Questionado se neste espectáculo partia de um lado mais pessoal, explicou-nos que “alguns aspectos pessoais têm servido como ponto de partida para permitir uma reflexão sobre algumas temáticas actuais. Tal é o caso com as Damas da Noite. De resto, prefiro a ideia de ser necessário resgatar a ficção que parece ter perdido terreno face à exposição do material puramente biográfico. Por outro lado, qualquer obra de um encenador acaba por ter aspectos pessoais/biográficos”.

Pretende que este espectáculo seja um “veículo para partilhar inquietações e confrontar o ser humano com ele próprio”.

Em ‘Damas da Noite’, Elmano Sancho traz a palco a arte do transformismo e nesse sentido questionámos-lo se essa arte era discriminada pela sociedade. Para o encenador e actor, “o drag assumiu nos últimos anos o centro das atenções. O programa de entretenimento Rupaul Drag´s race contribuiu em muito para a diminuição da discriminação face ao Drag. No entanto, a luta continua a ser diária, aqui, e no resto do mundo”.

Elmano assume uma tripla função neste espectáculo: escreveu, encenou e interpreta. Sobre a vertente mais desafiante revelou-nos que “a escrita é, talvez, o mais desafiante, porque mais complexo. Partir de uma ideia e dar-lhe corpo e voz não é uma tarefa fácil”.

Além de Elmano Sancho, o elenco conta com Dennis Correia e Pedro Simões. Sobre a escolha do elenco, Elmano Sancho recordou que “Dennis Correia além de Drag (aka Lexa BlacK) é actor e licenciado em Teatro pela Escoa Superior de Teatro e Cinema e o Pedro Simões ( aka Filha da Mãe) é bailarino e licenciado em dança pela Escola Superior de Dança. Isto acabou por pesar na decisão final”.

Revela que o processo desde a escrita até à interpretação lhe trouxe muitas dúvidas, quecontinuarão a inquietar, mesmo quando o espectáculo acabar”, acrescentando que as de mais complexa resolução são “as que ainda não se conseguiram resolver mesmo depois de ter tentado (quase) tudo”.

Deste espectáculo, “interessa-me mais o lugar entre a realidade e a ficção, que apelidamos de lugar fronteira, de não lugar, onde tudo ainda é possível. Este lugar abstracto apresenta mais potencial por ser mais difícil de percepcionar, mais misterioso. Por fim, é o lugar que parece conferir maior liberdade”, disse-nos, acrescentando que “quando idealizo um espectáculo, penso nele com um potencializador de desconforto, para os intérpretes e para o público. Se a aclamação vier, melhor, mas não é o mais importante”.

A reacção a este espectáculo “é diferente em função de cada localidade, o que permite que revisitemos o espectáculo sob um prisma sempre diferente. Parece-me, assim, numa primeira análise, que a reacção do público coincide com o universo drag, ou seja, uma postura alegre e jocosa face a assuntos delicados”.

Elmano Sancho citou Madonna, com um excerto de ‘Vogue’, para convidar o público a ir ao TNDMII ver este espectáculo:

All you need is your own imagination

So use it that’s what it’s for (that’s what it’s for)

Go inside, for your finest inspiration

Your dreams will open the door (open up the door)

It makes no difference if you’re black or white

If you’re a boy or a girl

If the music’s pumping it will give you new life

You’re a superstar, yes, that’s what you are, you know it

 

Mas será Portugal discriminador para com algumas minorias?

Para Dennis Correia, “acho que em comparação com outros países da Europa, Portugal é extremamente inclusivo para com as minorias, no entanto, essa inclusão é muito centrada nas grandes capitais e de alguma forma passa pelo politicamente correto. Há sim uma grande discriminação interna e reservada nos portugueses, que em algumas situações se manifesta de forma mais clara. Mas o país está a avançar lentamente para uma igualdade legal e jurídica para todos e cada vez mais podemos observar um maior interesse no bem estar e inclusão, não só dos que me são iguais mas também dos que me são diferentes”.

Pedro Simões revelou que “Portugal é um país multi-cultural mas com uma herança discriminatória com raízes muito profundas. D Afonso Henriques já criou este país há mais de 8 séculos e os Reis Filipes já não nos comandam há mais de 4 e mesmo assim continuamos a torcer o nariz aos nossos vizinhos espanhóis. O país ainda olha muitas vezes para a côr da pele e continua a sentir que o Português “de linhagem europeia” é superior às raças “conquistadas e educadas” por estes cristãos lusitanos”.

Acrescentou que “o mesmo acontece em relação à população LGBTIQ+; é difícil para pessoas Trans arranjarem trabalho muitas vezes, muitas empresas continuam a obrigar os empregados a usar a farda referente ao género (dentro de uma escolha meramente binária; masculino ou feminino), género que essas empresas acham que os seus empregados devem abraçar; a comunidade queer continua a ser julgada pela forma como se veste e pelos comportamentos públicos; os jovens continuam a aguardar muitas vezes pela sua liberdade financeira para “sair do armário” para a sua família com receio de ser colocado na rua e abandonado pelos seus familiares; os casos de suicídio e depressão por parte dos jovens desta comunidade continua a existir o que demonstra como o bullying escolar continua presente, não só por parte dos colegas mas também por parte do corpo docente e não docente das escolas e colégios”.

Portanto, “não podemos analisar um país somente pela sua capital, que tem visto grandes melhorias em relação à forma como trata as minorias; mas mesmo na capital vimos diariamente actos de racismo, xenofobia, homofobia, etc”.

Explicou ainda que “sinto-me um privilegiado, pois na minha fase adulta, não fui vítima de homofobia, talvez por ser branco, por ser um tipo encorpado, talvez por não obedecer aos clichés que a população geral tem como certos para um homem gay; mas muitas vezes quando estou com roupa mais descontraída ou roupa de treino sinto-me observado em demasia, tanto na rua como em espaços comerciais as pessoas olham-me com receio estampado no rosto; nos supermercados muitas vezes sou seguido pelos seguranças; quando confrontei as pessoas para o motivo ou quando as pessoas se apercebem de que não há perigo surge aquela frase que oiço muitas vezes “ai desculpe, pensei que fosse cigano…“.

O país não é discriminatório, temos tido muitas melhorias que têm de ser louvadas e aplaudidas; mas vivemos num país em que existe muita discriminação para com as minorias, muita mais do que fingimos que é a realidade”, rematou.

Este espectáculo é uma co-produção Casa das Artes de Famalicão, Culturproject, Loup Solitaire, Teatro Nacional D. Maria II, TNSJ.

Os bilhetes podem ser adquiridos AQUI.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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