Duarte conquistou Évora “Só a Cantar”

mde

 

 

 

 

Numa noite fria no Alentejo, o Teatro Garcia de Rezende, uma das salas mais bonitas deste país, acolheu, esta sexta-feira, um espectáculo do fadista Duarte que aproveitou a ocasião para apresentar o novo disco, “Só a cantar”.

 

Duarte é um singular caso no fado. Controverso na sua interpretação deste património, marca pela qualidade da sua escrita, por uma voz que nos deixa no limbo entre o passado e o futuro e uma linguagem corporal em palco que dá força às palavras. Não se excede no uso das palavras na comunicação com o público mas sabe como entregar a mensagem, fazendo-o em forma de desembrulho de presente, um presente que dura todo o espectáculo.

 

“Sem dor nem piedade”, foi uma obra prima em termos de discografia. A fasquia ficou muito elevada e este disco traz-nos um outro Duarte. Menos denso, mais leve. Mas com o mesmo bom gosto de repertório e uma sensibilidade na escrita.

 

Em termos de espectáculo, o Garcia de Rezende assistiu a temas dos dois discos. Duarte soube ir intercalando os temas mais conhecidos com os mais recentes. Numa primeira fase o espectáculo foi morno, quiçá fruto do frio que se fazia sentir, mas a temperatura foi subindo, culminando já num ambiente afectivamente quente e de partilha.

 

Após temas como “Vai de Roda” ou “Fado Escorpião”, temas com assinatura na letra de Duarte, seguiu-se “Dizem”, um tema do novo disco e que conta igualmente com assinatura de Duarte, que aborda a temática das pessoas que falam dos outros…sem os conhecer. Algo verdadeiramente português. Ou não?!

 

Continuando a desembrulhar o novo disco, Duarte prestou homenagem ao poeta francês Rimbaud, Arthur Rimbaud, cujo apelido dá nome ao tema. E se a voz de Duarte nos deixa num limbo entre o passado e o futuro, os seus espectáculos promovem várias viagens entre Lisboa e o Alentejo, os amores e desamores, a paixão e a perda. E por entre todas estas paragens, sobra-nos sempre a certeza que o destino é a verdade. A verdade do Fado de Duarte, que é dele, e de todos os que se predispõem a ouvir e a apreciar o seu talento. “Boa sorte ou despedida” é exemplo disso.

 

Mas Duarte tinha uma convidada especial para este espectáculo: Mara. Que é também sua irmã. Mara e Duarte conseguem uma conexão em palco absolutamente extraordinária. O complemento perfeito potenciado na música…e na vida.

 

Mara que teve um momento sublime em “Medo”, brilhantemente acompanhada por Carlos Menezes no baixo eléctrico.

 

A acompanhar Duarte, estiveram Pedro Amendoeira na guitarra portuguesa, João Filipe na viola de fado e Carlos Menezes no baixo, um trio de luxo e que teve também oportunidade de mostrar o talento num instrumental bem executado, além claro de terem demonstrado uma ligação firme com Duarte ao longo de todo o espectáculo.

 

Depois da tradicional “Maria da Rocha”, Duarte apresentou-nos a “Rapariga da Estação”, os “Mistérios de Lisboa”, numa viagem que nos levou novamente ao novo disco com temas que mereceram aprovação do público, aqui já mais entusiasta e entregue, como foi exemplo em “Que fado é esse afinal?” ou “Covers”.

 

Por entre outras virtudes, Duarte não faz a encenação do encore. E se o público quer ouvir mais temas, o artista prolonga o espectáculo, não saindo, e bem, de palco. Extraordinária a recriação do ambiente de casa de fado em “Estranha Forma de Vida”, culminando o espectáculo com Mara em palco num dueto, mais uma vez, bem conseguido.

 

Este foi apenas o segundo espectáculo de apresentação do novo disco e obviamente que há ajustes a fazer e situações a melhorar, mas Duarte continua a demonstrar ser dos mais interessantes fadistas da actualidade. No conteúdo e na forma!

 

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Notícia publicada a 17/03/2018


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