Eduardo Luciano: “Ausência de público aberto a novas experiências leva infelizmente a situações que põem em causa a democracia em muitos sítios”

 

 

 

A Câmara Municipal de Évora apresentou, ontem, a sua programação anual. A cerimónia decorreu no Teatro Garcia de Resende e no final do evento, o vereador com o pelouro da Cultura, Eduardo Luciano, falou ao Infocul.

A programação preparada para este ano assenta num ‘pontapé de saída’ da candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura em 2027. O vereador assume isso e revela que “este é o ano que nós decidimos, é o ano de afirmação dessa candidatura. A candidatura tem estado a ser construída tranquilamente, calmamente, poderia ser mais mediatizada, reconhecemos isso, mas a nossa aposta é naquilo que viram aqui, uma programação cultural coerente, diversificada, sem política de gosto e apostada essencialmente nas questões da cultura”, explicando que “tentamos equilibrar entre a cultura e o entretenimento, mas apostamos claramente nas questões da cultura, é intensa, pergunto-me quantas cidades da dimensão de Évora têm esta programação cultural neste momento e é uma programação que nós queremos aberta, o Artes à Rua não está nesta programação, é o grande festival de verão, e será anunciado mais tarde. De qualquer das formas queremos aqui garantir que este ano o Artes à Rua será ainda melhor do que foi nos dois últimos anos”.

A programação, que daremos conta detalhadamente em breve, apresenta-se ecléctica, em vários espaços da cidade e para todas as idades. Eduardo Luciano revela que “quando pensamos na programação (e o decisor político não se mete na programação dá orientações gerais naquilo que eu disse, ser ecléctico) o que nós pedimos foi uma coisa muito simples aos programadores, tragam-nos propostas desafiantes, traga-nos propostas que obriguem o publico a pensar, tragam-nos propostas que nos divirtam. Vivemos uma época em que a discussão se reduz ao pensamento básico, e a ausência de pensamento critico, a ausência de público aberto a novas experiências leva infelizmente a situações que põem em causa a democracia em muitos sítios, quando se anula o pensamento crítico criam-se carneiros que vão atrás do primeiro líder populista que apareça e a cultura tem esse papel de fronteira e é isto que é pedido, a partir dai o programador construiu uma programação ecléctica, uma programação que toca todos os públicos, com uma preocupação muito grande, a preocupação da qualidade, não abdicamos da qualidade, alguém disse, julgo ter sido o Maestro António Vitorino de Almeida que só há dois tipos de musica, a boa e a má, e nós não abdicamos da qualidade a partir dai a liberdade é total”.

Contudo, Évora também terá, será anunciado a seu tempo, espectáculos mediáticos e para massas. Eduardo Luciano, explica que “nós podemos escolher como comissário da candidatura um qualquer artista que enche pavilhões e isto em termos da densidade da candidatura traz o quê? Traz muito pouco… E é nesse sentido que eu estava a falar, obviamente que temos de mediatizar isto e obviamente que consideramos que é uma falha nossa não termos já começado a mediatizar, mas não queremos substituir a candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura por circo mediático para ganhar notoriedade, porque não é com essa notoriedade que se decidem as questões da candidatura, são por outros parâmetros e nós conhecemos-los bem e portanto é essa a nossa preocupação, não iremos pagar artigos para denegrir outras cidades, não iremos fazer nada disso, esses truques são-nos alheios por completo… temos um caminho, um caminho de seriedade, um caminho que queremos que chegue a bom porto e queremos que Évora seja capital europeia da cultura em 2027, mas mais importante que ser capital europeia da cultura em 2027 é ser uma cidade de cultura já em 2019 e por isso a aposta é outra, na honestidade, na seriedade, na urgência de trazer as questões da cultura para a primeira linha”.

Quando questionado se os espectáculos que agora levam pouco público, servem para criar público para aqui a dez anos, diz-nos que “não sei se é daqui a dez anos, mas que é absolutamente decisivo fazer este trabalho, é seguramente e repare, há espectáculos que têm dez pessoas e muitas vezes somos criticamos exactamente por isso, os outros fazem espectáculos com menos dinheiro e fazem espectáculos para 100 pessoas e vocês fazem vários espectáculos para 10/15 pessoas, mas o público educa-se dessa forma, o pensamento crítico e o hábito de pensar de forma crítica constrói-se assim. Se nós com meia dúzia de tostões, nós contratamos um qualquer artista de musica pop, rock, seja lá o que for, que enche a praça do Giraldo, acabou o espectáculo, fechamos a porta, fomos à vida e o que ficou no dia seguinte? Não ficou nada… E o que nós queremos não é isso, e daí que as apostas e os desafios aos criadores sejam para construírem criações especificas para locais improváveis, como as termas romanas, como o largo Chão das Covas, como a criação de percurso junto à Sé.. e é isso, é colocar a cidade não como palco, mas como sitio de vida onde a arte acontece”.

Questionámos ainda o que está preparado para a Arena D’Évora, tendo o vereador explicado que “no final do ano, mudamos o paradigma da programação da arena D’Évora. Tinha uma programação que era diferente, ou seja, acolhíamos propostas de forma mais ou menos acrítica. Este ano com a equipa de produção que criamos, a Arena D’Évora, irá ser um outro local que irá ser programado em função do teatro e da rua, para que não aconteça o mesmo dos outros anos e isto é uma autocrítica, que ao mesmo tempo que acontecia um espectáculo que enche o Teatro Garcia de Resende, está a acontecer outro do mesmo género que enche a Arena e Évora não tem massa crítica e espectadores para isto e nós temos de acautelar estas questões e dai que a programação da arena vá ser englobada nestes aspectos, não tenho ainda programação definida, há um conjunto de propostas, confesso que as propostas de programação da Arena são mais no sentido do entretenimento do que no sentido da cultura até porque a arena é um espaço que leva até duas mil pessoas e portanto tem essa apetência mas iremos ter o mesmo cuidado de programação, serão naturalmente coisas de massas, aquele espaço não é para ter espectáculos de 100 ou 200 pessoas. Estamos a pensar, mas pela primeira vez numa lógica integrada com a programação”.

 

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografia: Hugo Calado

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