Eduardo Madeira lançou dicionário cheio de humor e revelou-nos que “o amor pelo outro” é o que mais o emociona

Foto: Rafael Aragão

Eduardo Madeira lançou recente “O Infame Dicionário Cómico de Língua Portuguesa”, com o selo da Contraponto, no qual define novos significados para 1500 palavras.

O humorista concedeu uma entrevista ao Infocul para abordar o processo criativo do livro, falar um pouco sobre o seu percurso (as memórias da Guiné também são abordadas) e ainda sobre o seu lado mais emocional, embora assuma que não é um lamechas.

Este dicionário resulta de “um processo criativo onde houve displicência, preguiça e até descaramento. Por isso, não há nenhum rigor que se lhe possa apontar, nem mesmo em tribunal, e não se vislumbra qualquer aproximação voluntária à realidade”.

No fundo, este livro é uma obra de ficção, que parte da lógica dos dicionários ditos sérios e a subverte totalmente.

Foto: Rafael Aragão

Num período particularmente complicado, a nível mundial, acredita que este dicionário pode ajudar a deixar as pessoas mais animadas?

Creio que é uma primeira vacina. Um placebo, se quiserem, eficaz na condição anémica do país. Fiz o que podia. Em todo o caso, numa altura destas lançar um livro é um risco. Mas eu sou de riscos. Já saiu.

 

Quando surgiu a ideia deste dicionário?

Há muitos anos vi numa biblioteca de família o “Dicionário Cómico”, do José Vilhena. Fiquei fascinado. Depois vi outras coisas idênticas. O do Ambrose Bierce e o do Gustave Flaubert. Há coisa de 2 anos fiz um espectáculo na Suíça e no aeroporto encontro uma reedição da obra do Vilhena que devorei durante a viagem. Quando regressei já tinha percebido que este interesse todo neste tipo de coisas tinha a ver com a vontade de fazer o meu próprio dicionário.

 

Qual a palavra mais complicada de definir?

Não sei. Há algumas muito complexas que deixei cair. Este livro era o dobro. Depois cortei, cortei e ficou com 1500 entradas. Creio que escolhi as melhores. Mas há dias dei uma espreitadela ao que ficou de fora e concluí que deixei ficar coisas menos boas e deitei fora coisas muito boas. Enfim, nunca se fica inteiramente contente com um livro. Há sempre coisas que mais tarde parecem não fazer sentido.

 

Qual a que lhe soltou mais gargalhadas?

Eu gosto de algumas que ninguém liga. Por exemplo, defino a palavra “Alpendre” como o sítio da casa sem paredes nem janelas, destinado ao convívio entre melgas e humanos. Gosto muito deste tipo de coisas. Mas as pessoas com quem falei gostam mais de outras.

 

Neste dicionário conta com vários testemunhos de alguns dos maiores humoristas nacionais. É uma responsabilidade acrescida ou faz bem ao ego?

São pessoas que admiro, são amigos, alguns casos até são as duas coisas. Qualquer um deles faz-me rir bastante. É bom vê-los por perto de uma obra destas, a comentar. É bom. Mas o que me fazia bem ao ego era ter oitenta e duas edições e vender 8 milhões de livros só no Brasil. Ao ego e à conta bancária.

 

O Eduardo é uma das mais mediáticas figuras em Portugal. O que guarda do menino que nasceu em Bissau?

Eu sei que é um cliché, mas todos nós temos os nossos clichés a que nos agarramos nem que seja por conforto. Há obviamente elementos culturais, gastronómicos, sociais que ficam para sempre. Interessa-me muito a música, a literatura e as notícias vindas da Guiné. Acontecia o mesmo se tivesse nascido na Gronelândia ou no Burkina Faso. Nasci na Guiné. Foi assim que aconteceu. Sinto Portugal, mas também sinto aquele país. Ponto.

 

Ao longo de todo o percurso, para chegar a este patamar, quais foram os desafios mais complicados?

Na vida de um artista, e talvez na de todas as pessoas, nunca deixamos de provar o nosso valor. A frase, “já não tenho mais nada a provar” é um disparate. Já cá ando há alguns anos e sei que a carreira, o percurso de alguém, é uma corrida de fundo, uma maratona. Não te serve de nada ir à frente ao fim de 10 ou mesmo 20 km se vais cair, desistir, ou ter uma lesão. Tens de chegar ao fim da corrida e de preferência bem classificado. Logo, desafios complicados para mim são todos. É enfrentar e dar o meu melhor. Sempre.    

 

O que mudaria na sua carreira?

Sei que fiz coisas que não eram nada boas. Sei que a certa altura posso ter magoado algumas pessoas. Mas foi o meu percurso. Creio ter evoluído como pessoa e como artista. Hoje não optaria por certas coisas. Mas se não tivesse passado por elas seria o que sou hoje? Não posso mudar nada do que aconteceu, mas posso a partir de agora saber que há coisas às quais não voltarei e há outras que quero e vou experimentar.

 

Já algum professor de português o criticou, devido a este dicionário?

Não. Sempre tive boas relações com os professores de português.

 

Temos sempre a ideia de que não é muito ‘lamechas’. O que mais o emociona?

O amor pelo outro. O amor que temos pela nossa companheira, pelos nossos filhos, pelos amigos, pelos animais, pela natureza. Só isso nos pode salvar. E só isso me emociona de verdade. Não sou de facto um lamechas mas percebi que só no amor pode haver salvação. O humor, a política, a ciência, a religião, etc. são, perto do amor, coisas menores. É o que eu penso hoje. 

Foto: Hugo Macedo

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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