El Sur: “O mundo é um bom lugar para viver quando há ar para respirar e amor”

‘Todas as Sombra’ é o primeiro disco de ‘El Sur’ e traz-nos um “álbum raro no panorama da actual música portuguesa”, segundo o jornalista António Pires.

O Infocul entrevistou o grupo constituído por Joana Manuel, João Cardoso, Rui Alves, Rui Galveias e Tiago Néo, para saber um pouco mais de um disco que segundo a banda junta intervenção e amor. Tudo isto, partindo do sul.

 

Este é um disco de intervenção?

Este é um disco nosso, que diz que estamos vivos hoje, com toda a bagagem para trás e todas as lutas e expectativas do hoje e do amanhã. É um disco de 2020. Não podia deixar de ser de intervenção, mesmo que se tentasse afirmar como o contrário. As opções humanas, tanto individuais como colectivas, intervêm, num sentido ou noutro. E opções todos fazemos, seja qual for a prateleira em que se ponha o nosso disco à venda.

 

Serem encarados como um projecto musical de intervenção é correcto?

No fundo a resposta à primeira pergunta inclui a resposta a esta segunda. Não somos um projecto de intervenção nem deixamos de ser, e encaixar-nos na música de intervenção acaba por ser tão redutor como colar-nos outra etiqueta qualquer. Cantamos lutas, mas também cantamos amores, superstições regionais e dores de corno. Acima de tudo fazemos a nossa música, como a queremos fazer e como a sabemos fazer. E aquilo que somos, em todas as vertentes humanas, é a matéria de que essa música se constrói.

 

Para quem não conheça os El Sur, como se definem?

Partimos do Sul, dos lugares e dos autores que lá fomos encontrando. 
Juntámos à música e à poesia deles as nossas origens e construímos canções perdidas entre a chula, o tango, o rock progressivo e o punk rock.

 

Em termos de processo criativo, como funcionam os El Sur?

Cada canção tem uma história diferente
. No caso das versões as canções de Violeta Parra são parte do caminho exploratório à volta dos autores da América Latina. A Vingança é quase acidental, descobrimo-la cantada pela Amália. O Recorto a Minha Sombra de José Saramago é uma apropriação mais violenta, vimos no poema um Fado Alberto que se transformou depois num Tango Alberto. 
A História Para Ninar Gente Grande é uma coisa quase ao contrário e liga-se à Valsita Cruel, um tema original nosso. Parecem escritas para funcionar em conjunto e tendo em conta que foram feitas em 2018 a partir da mesma realidade, isso faz todo o sentido.
 As canções originais, às vezes, começaram por ser melodia+harmonia que apontam para um assunto como no caso da Valsita Cruel, sobre a qual o Tiago Lemos Peixoto escreveu o texto. 
Depois há o Último Poema, o Lume ambos de Eugénio de Andrade, a Cantiga de Sapo de Saramago, em que a música procurou servir os textos, e a Alta Traición de José Emilio Pacheco – em que esse serviço ao texto se traduziu na descoberta de um puzzle bilingue de imagens, paisagens e conceitos que resultou num objecto totalmente distinto e simultaneamente fiel ao original.


Alta Traición é um bom exemplo de como funciona a segunda fase do desenvolvimento das nossas canções que, neste caso, se expressa até na parte do texto traduzida livremente para português. O nome do disco, Todas as Sombras, é quase uma terceira leitura que encontrámos no poema original de Pacheco, uma tradução idiomática do verso “varias figuras de su historia”.

Vamos transformando sem rede nem limites sonoros. E assim vivemos as nossas canções. 


 

A escolha de repertório para este disco foi difícil? Algum tema que lamentem que não possa estar aqui?

Sim… vários mas talvez o Tierra Húmeda feito pelo Julio Solórzano que foi feito para um disco da Amparo Ochoa seja o que lamentamos mais que não esteja no álbum.

 

Contam com autores como José Emilio Pacheco, Eugénio de Andrade, José
Saramago, Pablo Neruda, Tiago de Lemos Peixoto, Violeta Parra entre
outros. Qual o fio condutor que os liga e coloca neste disco?


O percorrer do Sul, vindo de lá para cá, o Mediterrâneo e o Atlântico, a vida das pessoas, o cheiro da terra e do sangue. E muito suor. E muito amor.

 

O mundo actual é um bom lugar para se viver?

Essa pergunta é quase irrespondível. O mundo é um péssimo lugar para se viver, quando não se tem poder sobre si mesmo. Mas não é o de hoje, sempre assim foi. Por outro lado, o mundo é o melhor lugar para se viver (brincadeira, é mesmo o único), mas dá muito trabalho. O mundo é um bom lugar para viver quando a ligação a ele não é cortada, vigiada, explorada, cerceada, desinformada. Ou, em tempos escuros, quando se luta pela libertação de todas essas prisões. O mundo é um bom lugar para viver quando há ar para respirar e amor. E uma barriga que não está vazia.

 

No texto de apresentação do disco, da autoria do jornalista António
Pires, aborda-se a luta antifascista. O fascismo existe, actualmente?

Alguém disse há uns meses que “o fascismo é o capitalismo em esteróides”. E é uma grande definição. A serpente é eterna, como diz a letra da nossa Valsita Cruel, e achar que os piores crimes da humanidade foram excepções e loucuras é não perceber nem a História nem a humanidade. Resulta no que se passa agora debaixo dos nossos narizes. O fascismo existe, sim. Está bem à vista. Nem vemos onde pode estar a dúvida.

 

De que forma se manifesta?

Na desinformação com vista ao acumular de poder. No ódio ao outro. Na exclusão social. No infantilismo político e no medo que continuamos a ter de desafiar poderes instituídos. No abismo entre ricos e pobres. Nos anúncios do Metro em que dois olhos atentos exortavam há poucos anos a que vigiássemos o passageiro do lado. Na fronteira da Grécia neste momento e no discurso da Europa-fortaleza a que assistimos por parte dos poderes da UE. Nas águas do Mediterrâneo. No “vai para a tua terra” que aparentemente é menos grave do que repetir demasiado a palavra “vergonha”. Na salvação de grandes bancos à custa das vidas das pessoas. Na mentalidade colonial sempre presente. Na ciganofobia. Nas praças de jorna generalizadas, rebaptizadas e transformadas em plataformas electrónicas de transporte ou de entrega de comida. Na fragilização da independência da Comunicação Social, precária e posta frente ao dilema servilismo VS desemprego. Continuamos? Quantas páginas pode ter esta entrevista?

 

Em termos de espectáculos para apresentação deste disco, o que pode já
 ser revelado?


Para já estamos a divulgar o Todas as sombras nos média, e a fazer alguns show case de divulgação. A meio de Maio está previsto um concerto de apresentação do disco no MusicBox além de outras datas que irão sendo divulgadas à medida que forem sendo confirmadas.

 

Contendo uma mensagem de intervenção no disco e sendo as câmaras
 municipais algumas das promotoras de espectáculos, isto pode influenciar
a vossa contratação ou acham que não?

Pergunta pertinente. Mas não somos nós que lhe podemos responder. Confiamos que não. Que este sistema em que vivemos ainda não tomou os esteróides todos. E que quem pode, defende e cultiva as suas bolsas de liberdade.

 

Quais têm sido os maiores desafios no vosso percurso?

Primeiro, como ler autores maiores como a Violeta, o Jara, o Chico Buarque, à nossa maneira, com a nossa liberdade, ou seja, fazendo-lhes jus ao mesmo tempo que os tornamos intrinsecamente nossos? Depois, o que é que queremos dizer e ouvir quando fazemos as nossas próprias canções? Ao longo de todo esse processo (e continuaremos em processo), qual é o nosso terreno sonoro, que fronteiras aceitamos, se é que aceitamos algumas, que fronteiras desbravamos, que fronteiras inventamos ou misturamos, qual é a nossa carne enquanto unidade de cinco pessoas com percursos e ouvidos muito próprios? Os desafios não estão no percurso, os desafios são o percurso.

 

Qual a mensagem que gostariam de deixar aos nossos leitores?

Venham connosco penetrar nas sombras do sul e descobrir montanhas de onde se vê – ou pelo menos se procura – o mundo inteiro.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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