João C.Sousa

 

Do Porto chega-nos João C. Sousa, compositor não instrumentista com percurso traçado no mundo audiovisual e que se prepara agora para lançar o seu primeiro registo a solo com o selo da Music For All. 

 

 

Em entrevista ao Infocul o musico falou sobre o processo de construção deste trabalho e também um pouco do seu percurso profissional. Deixa ainda alguns desejos para o futuro.

 

João C. Sousa é um compositor não-instrumentista do Porto com um grande fascínio pelo mundo audiovisual.  

 

 

Desde a adolescência que compõe e grava a música que faz, tendo inclusivé feito parte de várias bandas de garagem em contexto pop. Em criança iniciou-se no estudo do piano na Escola de Jazz do Porto, tendo já em adulto dedicado-se ao violoncelo.

 

 

Quando começou a pensar neste trabalho (disco)? 

 

A edição em disco esteve sempre presente! De forma abrangente, há mais de vinte anos, pois gravo música que componho desde miúdo. No passado, fazia música com preocupação apenas de registar o esboço, ou seja, não finalizada em termos de “produção”, pois sabia que ainda não tinha os meios tecnológicos para isso. Nos últimos sete ou oito anos tenho composto, produzido e gravado já com a preocupação de obter um produto finalizado em vez dos esboços que anteriormente fazia. O disco que agora vamos editar é resultado disso mesmo, ou seja, do trabalho feito mais recentemente. 

 

 

Qual a principal mensagem que tenta transmitir? 

 

Admito que não penso diretamente em qualquer tipo de mensagem quando componho de forma livre, ou seja, quando não trabalho para uma encomenda. Normalmente a “mensagem” aparece na música e é abstrata. A arte não tem de ser entendida mas antes percecionada. Depois, cada indivíduo tem o seu mundo, as suas parábolas mentais, e a liberdade para construir interiormente o que recebem. Quando compus, por exemplo, para cinema ou publicidade, aí sim condicionei-me à mensagem respetiva e encarnei a mensagem dos respetivos autores. No entanto, limitei-me a interpretar, compondo sintonizado com o que os outros artistas pretendiam como complemento musical.  

 

 

Quando surge a música na sua vida? 

 

Surgiu de repente e após o “nada”. Para me fazer entender melhor, citarei um cientista referindo-se simultaneamente à teoria do big bang e às primeiras palavras do Génesis, em que este diz: “no principio não havia nada … e, de repente, rebentou tudo!” . Foi assim que a música aconteceu comigo. Quando criança, na música, nada me agradava ou mexia comigo. Até achava estranho o gosto e envolvimento que encontrava nas pessoas que me rodeavam. O caso é que, penso eu, ainda não tinha ouvido nada de extraordinário. O meu big bang aconteceu com uma cassete de “As Quatro Estações” de Vivaldi, não estando certo da idade que tinha, mas rondaria os meus nove anos de idade. Quando a apanhei lá por casa, tomei-a logo como minha, e ouvi-a quase diariamente durante mesmo muito tempo. Depois fui subindo a minha montanha, e passei, de ouvir, para fazer. Eu sou de fazer! 

 

 

Como foi compor a banda sonora de “Sombras- Um Filme Sonâmbulo”? 

 

Um grande desafio e oportunidade, à qual respondi com máximo entusiasmo e muito trabalho. O diálogo com o realizador João Trabulo, foi permanente (apesar da distância Lisboa-Porto) como é necessário em trabalhos com esta complexidade e exigência. Durante a composição, o meu quotidiano era literalmente assim: chegado a casa do trabalho, atirava a pasta e o casaco para cima do sofá enquanto a porta de casa ainda se estava a fechar. Depois imergia na composição. E isto foi assim até ambos, eu e o Trabulo, darmos o trabalho como … terminado. A estreia do filme foi na Cinemateca Portuguesa, onde naturalmente estive presente. O resultado preencheu-me totalmente. 

 

 

É um desafio maior musicar para cinema ou para fins publicitários? 

 

São ambos desafiantes na mesma proporção, mas cada um com as suas particularidades. No imediato, ocorre-me que a publicidade oferece a dificuldade do tempo, ou seja, a duração dos spots é extremamente curta e por isso, fazer música para um tempo tão limitado é difícil. O conceito tem de ter em conta que mal a música está a começar, também esta a acabar. Mas é sempre na dificuldade que reside o interesse das coisas. No cinema também temos o tempo como “limitador de velocidade” mas, nas experiências que tive, o cinema é mais inspirador. O mote em regra tem uma intensidade diferente e normalmente a (positiva) condicionante conceptual é maior. De notar que em ambos os casos, aquilo que aponto como dificuldades são instrumentos que condicionam o meu trabalho o que é ótimo pois me obrigam a viajar para longe dos meus registos. É um pouco como compor em conjunto com outra pessoa. 

 

 

Quais as suas grandes referências em termos musicais? 

 

Tenho a música do período renascentista e barroco como pilares. No contexto pop, mais ou menos experimental, que é onde estou, também tenho muitas referências e aqui destaco alguns que (ainda) continuo a ouvir: Krawftwerk, Einstürzende Neubauten, Swans, Coil, Diamanda Galás, Laurie Anderson, Depeche Mode, Brian Eno, Dead Can Dance, John Lurie, e mais duas ou três dezenas de artistas. Há grupos que foram importantes mas que já não ouço: Joy Division, Bauhaus, Death in June, Durutti Column e mais três centenas deles. 

 

 

Qual o artista para quem gostaria de compor em Portugal? 

 

Adolfo Luxuria Canibal, Clã, Noiserv, ou outros que estejam dispostos a desbravar novos caminhos. Até pode ser um fadista, mas só se for para “partir a loiça”. 

 

 

Onde pode o público interagir consigo e acompanhar o seu trabalho? 

 

Pelos canais da Music For All (a quem muito agradeço a séria e competente aposta no meu trabalho), através do meu mini-site (http://www.musicforallnow.com/joaocsousa.html) ou do meu email artístico jcsousamusic@gmail.com. 

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