Escola Portuguesa de Arte Equestre: Preservação e Valorização da Tradição e do Cavalo Alter Real

A Escola Portuguesa de Arte Equestre celebrou 40 anos de actividade em 2019. O Infocul visitou a escola nestes primeiros dias de Janeiro e conversou com algumas das pessoas que nela trabalham. Daremos, assim, a conhecer o funcionamento da escola que tem por objectivo, maior, a preservação e valorização de parte importante da nossa cultura, a arte equestre, e também do Cavalo Puro Sangue Lusitano Alter Real.

Fundada em 1979, por decisão do Ministério da Agricultura, para promover o ensino, divulgação e prática da Arte Equestre. Começou por estar localizada na Sociedade Hípica Portuguesa, no Campo Grande, em Lisboa. Em 1996 construíram-se cavalariças no Palácio Nacional de Queluz, para onde a escola se mudou e mantém a sua sede. Em 2015 foi inaugurado o renovado Picadeiro Henrique Calado, em Lisboa junto do antigo Museu dos Coches, onde o Infocul esteve presente recentemente.

 

Visitámos o Pátio da Nora, as duas cavalariças, o picadeiro junto destas cavalariças, a novel casa dos arreios e, claro, o Picadeiro Henrique Calado (com extraordinárias condições de conforto, visibilidade e áudio).

 

Os cuidados com a alimentação, treino e conforto dos cavalos

 

Todos os dias, o trabalho começa bastante cedo. Os tratadores entram pelas 07:00 e há que alimentar os cavalos, lavá-los e colocá-los a postos para os treinos, além de mudar as camas.

 

Joana Cerdeira, da equipa de tratadores da EPAE, começou por nos explicar que “os principais desafios são agradar aos nossos meninos, fazer as coisas para que eles também gostem, fiquem felizes com a alimentação e as camas boas, porque dormir nua cama má não é do melhor que há. E pouco mais temos de desafios. A nossa prioridade são os nossos meninos. um treino que temos de ajudar a organizar, porque somos nós que os limpamos. A partir daí é tudo fácil de fazer”.

 

Dos cuidados que nunca podem faltar destaca a “alimentação, a limpeza e termos atenção se têm alguma ferida, algum fungo ou alguma crosta. Podem ter feito alguma ferida durante a noite”, acrescentando que a alimentação destes cavalos é “à base de feno, ração e cenouras”.

 

Acrescentou ainda de que “usamos uma saca com 25 Kg de ração por refeição, mais coisa menos coisa. Eles comem ração três vezes ao dia, por isso ainda é uma quantidade bastante grande”, ou seja “só em ração são 75 Kg por dia para alimentar estes 47 cavalos. Depois temos, também, os fardos de feno, que não sei quanto pesam, e também as cenouras à hora de almoço”.

 

Sobre os cavalos com personalidade mais vincada, considera que “é um pouco complicado. Mas já começamos a conhecê-los e já os conseguimos adivinhar, o que se torna mais fácil para nós. Aos tratadores novos tentamos logo avisar: ‘Tem atenção aquele…’, ‘Cuidado com o outro…’. Mas conhecendo-os, é mais fácil dar a volta”, dando o exemplo de “um que gosta de morder. Gosta de dar uma dentadinha de amor antes de sair da boxe. Ou então quando alguém entra na boxe. Mas depois foge porque sabe que nos vamos zangar com ele”.

 

As “camas são feitas de aparas. Há cavalos que gostam de misturar um bocadinho do feno, para lhes dar um ar mais fofinho, mas são todos os dias feitas com aparas”, acrescentou antes de acentuar que “fazemos todos os dias para tentar que quando o público vem, estejam apresentadas”. Este é um trabalho que começa a ser preparado no dia anterior, pois “deixamos já as forquilhas preparadas do dia anterior, em conjunto, para irmos pegando à medida que vamos chegando. O feno é deixado junto das portas, para de manhã ser mais fácil a distribuição”.

 

Catarina Magalhães, com responsabilidade na produção de eventos, reforça a importância da feitura de toda esta actividade matinal, até porque “os tratadores entram às 7 da manhã, dão o feno aos cavalos. Depois começam a fazer a cama dos cavalos, as duas cavalariças são logo tratadas de manhã. Dá-se a ração logo de manhã, por volta das 7:30. Varre-se os corredores e coloca-se tudo pronto, para os visitantes poderem visitar-nos e assim iniciarem-se as visitas à nossa escola.

 

A EPAE conta neste momento com 62 cavalos [47 cavalos na Ajuda e 15 em Queluz] que têm a cuidar de si 18 tratadores, “aqui temos 15 tratadores e mais 3 em Queluz.

 

Por seu turno, “os cavaleiros entram às 8 e iniciam o seu trabalho, começando pelos cavalos mais novos. Por norma são cavalos que exigem mais calma e paciência. Depois, seguem para os cavalos mais velhos e que são aqueles que apresentamos todas as manhãs ao público, nas Manhãs Equestres”, acrescenta Catarina.

 

Os cavalos que integram a EPAE “vêm da Coudelaria de Alter, com 4 anos de idade. Já têm o despasto feito, ou seja já sabem o básico (o passo, o trote, o galope), já conhecem o cavaleiro, mas aqui é donde aprendem tudo o resto. Portanto, todos os exercícios que vão executar nos espectáculos são aprendidos aqui com os nossos cavaleiros”, explica Catarina.

 

Todos os dias, “por norma, os cavaleiros passam os cavalos à guia, é uma forma de aquecerem os seus cavalos, faz parte do seu treino físico. Depois montam-nos. Os mais novos apenas são montados aqui no Picadeiro do Páteo da Nora e os mais velhos (que são mais profissionais) são montados no outro picadeiro aberto ao público”.

A Arte de Montar, As Qualidades dos Cavaleiros e Características do Alter Real

E se os cavalos são as estrelas da escola, a qualidade dos cavaleiros é algo de importância extrema. João Pedro Rodrigues é Mestre Picador Chefe da Escola Portuguesa de Arte Equestre e também criador de cavalos Puro Sangue Lusitano.

Está na EPAE “há 39 anose esta relação começou “pela paixão de montar a cavalo. Monto desde os 10 anos. Depois prossegui a minha vida mais na área desportiva (fiz saltos de obstáculos e provas completas, etc) e na área do ensino, até que em 1980 fui convidado pelo Dr. Guilherme Borba, que foi um dos cavaleiros fundadores e praticamente o nosso primeiro director. A Escola tinha sido fundada em 1979, por uma decisão do Ministério da Agricultura. Quem esteve à frente desse processo da construção da escola foi o Dr. João Costa Ferreira, que era o director do Centro Nacional de Produção Cavalar. A escola começou com 4 cavalos. Havia o Dr. Guilherme Borba, D. José Ataíde (residente na Coudelaria de Alter), Francisco Cancella de Abreu e o Dr. Filipe Graciosa. Eu entrei em 1980 porque o Francisco Cancella de Abreu desistiu passados uns meses e então havia um cavalo sem cavaleiro. O Dr. Guilherme Borba que já me conhecia, porque ia muitas vezes ver-me montar. Portanto faz 40 anos que aqui estou em Setembro de 2020 e a escola fez 40 anos em 2019”.

Sobre o Cavalo Alter Real, explicou-nos um pouco da história deste animal único.

A Coudelaria de Alter é a mais antiga em Portugal, fundada pelo Rei D. João V em 1748. O cavalo Alter Real é um cavalo lusitano, mas é a linhagem mais antiga. A raça lusitana tem 4 linhagens base que são a de Alter, Veiga, Andrade e Coudelaria Nacional. A de Alter é a mais antiga. O que define este cavalo é, para já, o seu passado. Ao nível de montar é um cavalo fino, com facilidade para usar na escola. Era usado na antiga picaria real, aqui no Picadeiro de Belém. Além disso, do ponto de vista morfológico é um cavalo bonito, agradável à vista. Como disse é um cavalo com finura, mas tudo vem da sua morfologia. Actualmente tem uma pelagem castanha, na origem não eram todos castanhos. Quando se quis aprofundar mais o cavalo de Alter e pegando em gravuras do século XVIII, de desfiles que havia na Praça de Comércio, verificou-se que quase todos eram castanho e portanto optou-se por fazer uma selecção dentro do castanho. A ‘eguada’ de Alter, actualmente, tem cerca de 60 éguas que são todas castanhas e os cavalos da escola são todos castanhos”, resumiu.

Actualmente a equipa conta com “16 cavaleiros: 14 cavaleiros e 2 cavaleiras. Neste caso temos 14 picadores e 2 picadoras, que montam dezasseis cavalos. Cada cavaleiro tem, aqui, cerca de 4 cavalos”.

A entrada dos cavaleiros na EPAE é feita “pelos processos normais, da comunidade europeia. Abre-se um concurso, de acordo com as vagas que existem, os cavaleiros enviam os currículos e que são analisados. A seguir há uma reunião comigo, com o director e com uma pessoa dos recursos humanos. Faz-se uma selecção e os que forem seleccionados passam à fase seguinte que é uma prova prática”.

Sobre o que considera importante na análise que faz aos candidatos, explica que “para já tenho de analisar os currículos, depois na entrevista o que mais aprecio é o desembaraço, interessa que falem línguas estrangeiras e depois terem conhecimentos sobre equitação, sobretudo sobre o passado equestre da equitação portuguesa e terem noção do que é a escola. Portanto, a entrevista baseia-se no conhecimento geral e sobre o que é a Escola e a picaria Real. Porque se vão integrar um conjunto de cavaleiros a escola, têm de ter conhecimentos sobre a escola e a picaria real no seu passado. Claro que a prova prática conta muito, porque temos de ter cavaleiros bons, e é o conjunto disso tudo que será analisado para que o cavaleiro possa entrar no quadro da escola”.

João Pedro Rodrigues explicou-nos ainda uma curiosidade sobre o nome atribuído aos cavalos: “O cavalo lusitano gere-se por uma associação que o controla que a APSL e no regulamento impõe que todos os anos seja atribuída uma letra. Todos os lusitanos que nasçam nesse ano, o nome terá de começar por essa letra. Depois, há coudelarias que fazem, como a de Alter embora não seja obrigatório, que é a primeira letra a segunda sílaba ser igual à do pai desse animal. E assim sucessivamente. Para nós aqui é muito bom, porque como temos noção dos garanhões que cobriram no passado, facilmente através do nome chegamos aos pais desse cavalo”.

Sobre o estilo de equitação praticado, se brida ou gineta, o Mestre Picador Chefe da EPAE revelou que “a equitação tradicional portuguesa já não se pode dizer que é só à gineta. É uma mescla”.

E explicou que “essa equitação à gineta vem da ocupação muçulmana da península, não só em Portugal como em Espanha. E o termo gineta vem de uma tribo muçulmana que estava na Andaluzia que era Zenet que evolui para genete e então depois ginete. Essa tribo apresentou uma forma de montar e um desembaraço completamente diferente do que acontecia no centro da Europa e no norte da península que era a equitação de brida, a equitação pesada com as armaduras, a equitação medieval. A equitação de brida parte da colocação dos estribos e do posicionamento do cavaleiro no cavalo, com as pernas estendidas. Porque as armaduras não deixavam dobrar bem as pernas. Todo o peso das armaduras exigia um cavalo mais pesado para aguentar, porque a guerra era pesada. Com o cavaleiro a galope largo, à desfilada como dizemos, contra as tropas inimigas. A equitação à gineta tinha como diferença que os cavaleiros não se apresentavam com armaduras, os cavalos eram mais finos e flexíveis. Atacavam à volta desses cavaleiros de brida e conseguiam assim matar os cavalos e cavaleiros com uma equitação diferente. Aqui na península há uma influência dos dois estilos de equitação. Na parte histórica, há uma equitação de brida a partir do século XVII que era a equitação académica, já feita nos picadeiros, mas que baseava-se também numa posição de pernas completamente estendidas”.

Actualmente aqui na escola temos uma equitação que é uma mescla das duas (brida e gineta). Claro que há certos números, como é o caso dos Jogos da Corte, que representam o que se passava no Picadeiro Real no Séc. XVIII e na Academia no Séc. XVII, que é uma coisa mais de flexibilidade do cavalo. Têm de correr e parar, ir com as lanças contra o estafermo, contra as argolas. Pegar numa espada, espetar na cabeça. Atirar dardos. Isto é mais uma equitação de gineta. A outra equitação é uma mescla das duas”, acrescentou.

Os cavaleiros, actualmente, usam “o traje que é o do Século XVIII, que usava-se na Picaria Real. Baseamos-nos muito na nossa Bíblia Equestre, que é o livro do Manoel Carlos de Andrade (Nobre Arte da Cavalaria), escrito em 1790 e nas gravuras (tem cerca de 90) os cavaleiros estão trajados com fardamento à Luís XIV, que eram as fardamentas que utilizavam-se durante todo o século XVIII. E a escola baseando-se na criação da Coudelaria de Alter e na Picaria Real, que é do século XVIII, optou por utilizar essas fardas”.

Traje que é constituído por “tricórnio, plastron, camisa sem gola, colete, casaca comprida, calças à época, plainas, botas altas e meias. As esporas são colocadas no salto em baixo. Não há nenhum país em que se coloque as esporas baixas, como aqui em Portugal. Para os dias de trabalho normal colocamos um colete curto”.

Sobre as mais destacadas características do Alter Real, assume que “não se tem notabilizado muito no toureio, a selecção não foi bem feita para o toureio. O cavalo lusitano sim, é o cavalo rei nas praças de touros, a nível mundial. O cavalo de Alter onde tem-se notabilizado é na Arte Equestre, caso da nossa escola, e agora muito no ensino desportivo. Só para dizer que o cavalo que mais cobre no mundo é um que foi agora aos Jogos Olímpicos, é Alter Real. E na equipa que está pré-seleccionada para ir a Tóquio, aos Jogos Olímpicos, dois cavalos são da Coudelaria de Alter”.

Relembra que “o cavalo Alter Real era conotado como não sendo um cavalo fácil, por causa da sua consanguinidade, mas depois abriu-se o leque com outros garanhões. Mas agora é dos cavalos mais pretendidos da raça lusitana. A nível da escola foram melhorando, nada haver quando comecei, mas são cavalos lusitanos iguais aos outros e até melhores. Por isso auguro um futuro bastante bom e a selecção tem sido bem feita. Acho que a Coudelaria de Alter está de parabéns, porque em 30 anos mudou completamente a imagem”.

Balanço de 40 anos de actividade

Lino Ramos é o administrador da Parques Sintra, entidade que gere a EPAE, e conversou com o Infocul sobre os 40 anos da escola, os objectivos, os desafios e todo o trabalho que tem sido levado a cabo.

Descreve 2019, ano em que a EPAE celebrou 40 anos de actividade, comum ano fantástico, com uma programação muito exigente mas que nos deu muito gozo colocar de pé e mostrar aos portugueses e estrangeiros, aquilo que a Escola Portuguesa de Arte Equestre é e faz. Foram os 40 anos de actividade, formais, mas na realidade a Escola Portuguesa de Arte Equestre tem atrás de si séculos de história e cultura. É o repositório da cultura de Arte Equestre que começou com D. João V, aqui muito perto de nós no antigo Museu dos Coches, na Picaria Real, e que nos levou até aos dias de hoje. A escola mantém a mesma tradição e o mesmo cavalo que se usava então, o Cavalo Lusitano Alter Real. Utiliza o mesmo tipo de equitação. Os arreios que vemos aqui neste sala são fidedignos dessa data. Portanto é uma arte secular e única, a Arte Equestre Portuguesa com um cavalo único, o Puro Sangue Lusitano. Nos 40 anos tentámos, não só, mostrar aquilo que fazemos hoje em dia mas também como chegámos até aqui. Ao longo do ano tivemos um conjunto de galas temáticas que nos fizeram recordar todo o nosso percurso até aqui. Desde os tratados, que são a base de montar da Arte Portuguesa Equestre, aos autores antigos, até aos fundadores desta casa, antigos cavaleiros e também as escolas com quem nós temos alguma relação, nomeadamente Jerez, em que os nossos fundadores tiveram uma relação muito próxima com essa escola. Culminou num momento de grande demonstração do que é a Arte Equestre em termos internacionais, no Campo Pequeno, com as três melhores demonstradoras de Arte Equestre que foram as escolas Portuguesa, Francesa e Espanhola”.

Mas se o passado é preservado, há que preparar também o futuro e uma das inovações foi mesmo a “a adição de música, no ano passado juntámos um outro património, o Fado, e portanto isso foi o que fizemos na celebração dos 40 anos: Demonstrar como nascemos, como chegámos aqui e preconizar o futuro. O futuro passa por continuar a investir nesta arte, uma arte única, uma arte que é distintiva da nossa cultura”.

Revelou ainda que “a Escola Portuguesa de Arte Equestre em conjunto com a Associação Puro Sangue Lusitano e a Câmara da Golegã querem classificada como Património Imaterial da Humanidade e já a candidatou a isso”, referindo-se à a Arte Equestre.

Relativamente à EPAE, “o futuro passa também por continuar a trabalhar. A Escola Portuguesa passa por lhe serem dadas condições físicas para um melhor desempenho nesta arte. Visitaram agora a escola mas há 3 ou 4 anos atrás, o Pátio da Nora, nada disto existia nestes moldes. A Parques Sintra, entidade que gere a Escola Portuguesa de Arte Equestre, garante todas as condições de funcionamento à escola e depois passa também por apostar, além dos cavalos, no factor humano. Os nossos cavaleiros em conjunto com os nossos cavalos são, de facto, aquilo que torna isto numa arte única. E no futuro queremos que os nossos cavaleiros estejam em contínua formação, vamos apostar na formação deste corpo técnico no sentido de eles próprio serem os testemunhos para o futuro e gerações vindouras, desta arte equestre. Portanto, esta arte equestre transmite-se, não apenas através dos tratados, com a experiência do dia-a-dia e essa experiência é transmitida pelos nossos cavaleiros. No futuro queremos apostar na formação do nosso corpo técnico, que permita depois apostar na formação de outras gerações. Viu os nossos cavaleiros, alguns deles bastante novos e estamos a apostar nisso. Como inovação temos, pela primeira vez em 40 anos, uma cavaleira sénior a entrar nos espectáculos. Temos outra cavaleira a ser formada. Pela primeira vez, em 40 anos, a Escola tem mulheres a montar e nisso inovamos, porque a tradição era apenas com cavaleiros”.

E deixa ainda o desejo de que “mais gente nova aposte nesta arte. A única forma de apostar no futuro é formar cavaleiros no presente para manter esta arte secular, que já temos, mas queremos ainda mais expandida em Portugal e depois na promoção internacional que fazemos. A Escola Portuguesa de Arte Equestre é considerada, em termos técnicos, uma das melhores do mundo e queremos que continue assim e daí apostarmos não só na formação do bem-estar animal (que para nós é um ponto sagrado) e daí termos um protocolo com a Faculdade de Medicina Veterinária para nos assegurar as condições do bem-estar animal estão asseguradas, mas também queremos apostar nas pessoas. Por isso, vamos no futuro ter uma grande aposta na formação dos cavaleiros para que depois possam também eles transmitir a sua experiência aos que vêm a seguir”.

O Património Edificado e o Turismo

A conversa com o administrador da Parques Sintra decorreu na novel Casa dos Arreios, situada na primeira cavalariça, “esta é uma área que não estava como agora se apresenta. Está, quase que, a ser inaugurada. Existe para dar resposta do ponto de vista prática e técnico mas também para os visitantes poderem visitar e conhecer o que os cavalos utilizam. Além de verem em cima do cavalos, aqui podem ver in loco, tocar e perguntar aos cavaleiros e tratadores para que servem. Mas esta é também uma área nova na escola, porque tendo em conta o interesse do público no dia-a-dia da escola, a Parques Sintra entendeu que era necessário, para quem nos visita, que houvesse uma área organizada de visitação. Um percurso de visitação que permitisse não só ver os cavalos mas também conhecer o seu dia-a-dia. Para isso foi criado um programa que se chama ‘Manhãs da Arte Equestre’, em que as pessoas são convidadas a vir visitar-nos e que funciona de terça a sábado, todos os dias de manhã podem vir visitar-nos e conhecer o dia-a-dia do cavalo, de uma forma organizada”.

Este programa conta com “um percurso, tem alguém que lhes explica e os ajuda a perceber, que informa sobre como os cavalos acordam, como são tratados, como são mudados, o seu bem-estar, como são lavados, como são entrançados para estarem tão bonitos para as galas, como são calçados (neste caso a ferração) e isto para que as pessoas percebam que aquele resultado final do cavalo bonito no espectáculo tem um passado de trabalho de algumas horas quer na sua beleza quer na arte que ele apresenta. E portanto esse é um produto turístico que criámos para as pessoas conhecerem, porque a melhor forma de preservarmos algo é conhecer. E esta sala foi também criada para isso, para no final do percurso, para as pessoas conhecerem que tipos de celas se usam, que tipos de arreio existem e como são colocados e portanto foi um investimento que a Parques Sintra fez nas condições da escola para que o público seja mais conhecedor, bem-tratado e que seja mais fácil para os nossos tratadores utilizarem”.

Lino Ramos confirmou-nos ainda a presença da Escola Portuguesa de Arte Equestre na International Horse Summit, que decorrerá em Ater do Chão.

Há uma ligação umbilical, não existimos sem Alter Real. Nós só utilizamos cavalos Puro Sangue Lusitano, como disse, do ferro Alter Real da Coudelaria de Alter. Não utilizamos mais nenhum cavalo de outro criador ou raça. De facto, esse é um momento muito importante para a criação do cavalo, que transmitimos ao presidente de Alter do Chão que nos convidou a estar presentes, e como é óbvio a Escola estará presente e tem todo o interesse em estar presente. Tudo o que seja para promover a Arte Equestre e o Cavalo Puro Sangue Lusitano, somos entusiastas dessas situações e portanto estaremos presentes”, explicou.

A Gestão

Sobre a organização e funcionamento da escola, disse que “esta escola está dependente da gestão da Parques Sintra desde 2012. Em 2012 a Parques Sintra recebeu, como atribuição, a responsabilidade e gerir o Palácio de Queluz, onde a escola tem sede, e recebeu por incumbência de decreto-lei a gestão desta escola. É uma gestão integrada, gerimos da mesma forma que são geridos os monumentos nacionais. Tem um director que do ponto de vista da gestão da escola faz o dia-a-dia, tem um quadro de cavaleiros com um cavaleiro chefe que é responsável pela parte técnica e depois na administração tem um administrador que está especialmente vocacionado para acompanhar a gestão desta casa, que neste caso sou eu. Tem um orçamento dentro do orçamento da Parques Sintra. É um orçamento que diria pesado mas de acordo com a responsabilidade que temos para com esta casa. Portanto é assim que gerimos dia-a-dia. As receitas que a escola angaria e produz são integradas dentro do nosso orçamento normal, como é o Palácio Nacional de Sintra ou o Palácio Nacional de Queluz. A Escola Portuguesa de Arte Equestre é mais um monumento que gerimos, um Património Mundial que gerimos e com todo o gosto”.

Recorda que “a Parques Sintra tem uma particularidade: todas as suas receitas são próprias. Não recebe do orçamento de estado, não recebe dos accionistas, não recebe de ninguém nenhum tipo de orçamento. Não é financiada pelo Orçamento de Estado, não é financiada por ninguém que não seja a sua própria gestão. Portanto significa que somos muito criteriosos na angariação de receitas, portanto tudo o que aqui é feito tem um custo. É com base nas entradas, nas apresentações e digressões que financiamos a escola. Existe na Parques Sintra um objectivo de solidariedade entre os vários monumentos, significa que há monumentos mais lucrativos do que outros e portanto os mais lucrativos ajudam a financiar os outros. Não escondo que actualmente a escola não é auto-suficiente. Se neste momento nos dissessem que a escola tinha de ser gerida apenas com as suas receitas, responderia que a escola não é auto-suficiente. Mas o bom deste projecto Parques Sintra são estas sinergias que são criadas, de uns monumentos mais lucrativos poderem financiar os outros. Portanto, os monumentos mais lucrativos da Parques Sintra ajudam a financiar a escola. O nosso objectivo também não é que a Escola seja auto-suficiente, o nosso objectivo é dar condições à Escola Portuguesa de Arte Equestre de mostrar a sua arte e contribuir para a divulgação da Arte Equestre Portuguesa e contribuir para a promoção do cavalo Puro Sangue Lusitano. É esse o nosso objectivo! Claro que depois temos o objectivo de que seja gerida com critério e aumentar as suas receitas. Criámos este produto das ‘Manhãs da Arte Equestre’ também como forma de financiamento da escola”.

Novidades para 2020

As novas galas vão ter um novo alinhamento musical, em todos os espectáculos temos de refrescar e ter novos motivos de atracção. Um dos motivos que posso já adiantar prende-se com os 250 anos do nascimento de Beethoven e portanto teremos uma gala em que juntaremos a música de Beethoven a esta arte. Funcionou muito bem o fado com a Arte Equestre, são dois patrimónios que ligara e funcionam muito bem. Agora queremos inovar mais e colocar música ao vivo e juntar com a Arte Equestre, porque são dois motivos de atracção. Depois outras novidades ocorrerão ao longo do ano. Vamos continuar com este espítrito de dinamismo e inovação para que as pessoas nos continuem a visitar e voltar. É esse o objectivo”, revelou ao Infocul.

Para quem nunca visitou a escola, deixou uma mensagem: “Eu nunca montei um cavalo e desde que tenho a responsabilidade da escola, desenvolvi não só uma maior admiração por esta arte mas também pelo próprio cavalo em si. Aliás, quando entro a primeira coisa que faço é cumprimentar os cavalos. As pessoas quando vêm aqui desenvolvem uma relação de afectividade com este animal, que é único. Um animal muito inteligente, sensitivo, bonito, bem-tratado (os cavalos estão muito bem tratados, graças ao esforço dos nossos tratadores e cavaleiros). O que estes animais, com este porte, conseguem fazer é algo de único e até parece fácil, quando são os cavaleiros a executarem, mas são muitas horas de treino. Acho que é algo único e que está muito na nossa cultura, a nossa relação com o cavalo. Neste caso o Puro Sangue Lusitano. Cinema há muitos, monumentos há muitos, imensos espectáculos para visitar, mas Escola Portuguesa de Arte Equestre é única e estes cavalos são únicos na sua diversidade”.

A APP que o deixa a par de tudo

Todos os visitantes, e não só, da escola podem ter acesso a informações exclusivas e várias actividades através da APP da EPAE. Está disponível para Android e IOS. Desde o nome dos cavalos, a biografias dos cavaleiros, pode encontrar tudo nesta APP, gratuitamente.

Relembrar, ainda de que a EPAE é resultado daquilo que foi a Picaria Real, academia equestre da corte portuguesa encerrada no século XIX, que utilizava o Picadeiro Real de Belém, actualmente “Museu Nacional dos Coches”.

Destacar que devido à prática continuada do toureio equestre foi conservado até hoje o mesmo tipo de cavalo utilizado no século XVIII, bem como a mesma equitação, os mesmos arreios e os mesmos trajes, além de que a Escola Portuguesa de Arte Equestre recuperou também os exercícios da equitação barroca.

Uma das características das apresentações da EPAE prende-se com a colocação de dois pilões no centro do picadeiro com as bandeiras das armas de D. João V.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: João de Sousa e Hugo Calado

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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