Eva Hart lança livro e assume, em entrevista, que “há muitas dimensões ocultas em cada um de nós”

 

 

‘O Homem que Nunca Tinha Chorado’ é o mais recente livro de Eva Hart e também o fio condutor da entrevista que a escritora deu ao Infocul sobre a sua nova obra literária, com prefácio de António-Pedro Vasconcelos.

Um livro que aborda John Vicente, um dos mais bem pagos especialistas da Teoria dos Jogos, que foi contratado pelos governos mais poderosos do mundo. A sua morte, resultado de uma queda de um 7º andar ainda hoje é um enigma: homicídio, suicídio ou acidente?

Uma grande entrevista para ler, integralmente, de seguida:

Quando surgiu a ideia para escrever este livro?

Boa pergunta. Há alturas em que já não distingo bem se sou eu que tenho as ideias para os meus livros, ou se são os temas que me escolhem a mim. Seja como for, os mistérios sempre me interessaram, os do universo, da humanidade. Aqueles que existem em cada um de nós. Mergulhar no desconhecido, mesmo que através da imaginação, é para mim como viajar. Gosto de explorar, investigar, sou curiosa por natureza. E como Einstein, acredito que o desconhecido e o mistério não podem ser temidos. Que é preciso ter os olhos abertos para o misterioso. Por isso, um livro onde o mistério reina surge naturalmente. É claro que cada livro é também uma viagem de nós mesmos, das interrogações que estão mais vivas em certos momentos ou, que no fundo, sempre estiveram lá, mais ou menos adormecidas. Tal como num vulcão, nunca sabemos bem quando vão acordar, quando vão irromper em toda a sua força… e o meu pai era psiquiatra e especializou-se em psiquiatria forense e criminologia clínica. Sempre li o que o meu pai escrevia, debatíamos muito estes temas em família. Desde muito cedo, revistas de investigação criminal conviveram comigo nas estantes do meu quarto. Com certeza que essas sementes plantadas há muito também tiveram influência…

 

 

 

Quais os maiores desafios quando avançou para a escrita desta obra?

O estudo retrospectivo da personalidade, dos sentimentos e pensamentos de uma pessoa já morta é (já em si) um grande desafio, uma vez que a avaliação psicológica requer a essencial colaboração do sujeito. Sem a sua presença, o puzzle torna-se ainda mais intricado, a trama subjectiva ainda mais vasta. Tal como na Teoria dos Jogos (na qual o protagonista desta história é expert), parecemos querer resolver o mistério ante as infinitas possibilidades, mergulhando em mundos atrás de mundos, juntando aos poucos as peças, trazendo à tona os nossos próprios questionamentos e inquietações pessoais. Trazer esse desafio à tona (ou seja, tornar visível esse processo complexo) e ser fiel ao processo também foi um desafio, o qual exigiu investigação na área da autópsia psicológica, ler muitos relatórios e afins, assim como contei com a ajuda preciosa de Tânia Konvalina-Simas especialista em Profiling Criminal, com quem conversar foi um prazer e que me respondeu a todas as questões que eu tinha, deu-me o seu livro “Criminologia Forense” para ler e indicou-me os principais autores a estudar. Estou-lhe muito grata.

 

 

O que mais a fascinou em John Vicente?

Ele, enquanto protagonista, espelha, à sua maneira, os mistérios que cada vida encerra, os diferentes layers e dimensões do humano, de cada existência, da nossa própria memória e dos outros, do conhecimento que podemos ter sobre nós próprios ou os outros de nós, o que define uma vida, o que verdadeiramente importa, são tudo assuntos que me fascinam e que há muito estão presentes nas minhas reflexões, no meu estudo, no meu trabalho, e que John Vicente traz à luz de forma especial.

 

 

Este livro teve uma pré-edição especial para restrito círculo de leitores e houve quem a comparasse a Agatha Christie. Como encara esta comparação?

Como um elogio. Quando era ainda nova, li a obra completa de Agatha Christie, naquela Edição Livros do Brasil. Acho que são uns 40 volumes.

Há semelhanças entre a sua escrita e a de Agatha Christie?

Não diria. Acho que quando fizeram essa comparação estavam a referir-se ao facto de não terem conseguido parar de ler. Vários leitores dizem ter uma escrita envolvente. E isso, obviamente, deixa-me feliz.

 

 

Para quem ainda não leu este livro, como incita à leitura? Quem foi John Vicente e o que poderão os leitores encontrar neste livro?

Há diferentes formas de ler este livro, pela resolução do mistério em si, ou seja, na investigação de uma morte equívoca, mas o que para mim é mais interessante só se encontra nas entrelinhas dos temas reflectidos na história. E esses layers menos visíveis vão ser acedidos em função de cada leitor. Isso fascina-me. Tal como o protagonista desta história, John Vicente, nós todos somos um pouco como as Matrioskas. Há muitas dimensões ocultas em cada um de nós. E a cada vez que mergulhamos mais fundo, surgem outras dimensões de nós, umas dentro das outras… E o próprio livro espelha isso, se ficarmos só à tona não veremos o que se encontra no fundo…

 

 

 

Este livro propõe reflexão a quem o lê?

Gosto de pensar que sim. Gosto quando as pessoas dizem que reflectem muito durante e depois de lerem um livro meu. Gosto que façam mais perguntas, porque são as perguntas que conduzem a nossa vida. Gosto que seja assim como um despertar para certas interrogações sobre si próprios e sobre o universo que os rodeia. Perguntas como: Será possível conhecermos-nos a fundo? De quantas peças é feito o puzzle de nós mesmos? E quem conhece as peças e quais? E o que nos traz sentido à vida? O que nos traz vida à vida? Que experiências ressoam no mais íntimo do nosso ser, provocando o verdadeiro enlevo de estarmos vivos? Que experiências nos lembram que somos parte de um infinito todo e com uma vastidão interior que espelha o cosmos?

 

 

 

O que mudou em Eva Hart após a escrita deste livro?

Eva Hart está em constante mudança, tal como o mundo. O que muda depois de um livro? Tanto do que é inominável…

Conta com prefácio de António-Pedro Vasconcelos. Como surgiu esta possibilidade e qual a importância?

Este livro (na sua edição especial) chegou às mãos de António-Pedro Vasconcelos através de uma amiga em comum, porque depois de o ler, achou que o cineasta tinha de lê-lo, que iria gostar muito. E assim foi, o que me deixa particularmente feliz, pois respeito e aprecio muito o seu trabalho e obviamente a sua opinião, e fiquei muito orgulhosa que este livro tenha inspirado um maravilhoso prefácio, como aquele que ele escreveu.

 

 

Qual o género literário que mais gosta? E qual o que mais a desafia e porquê?

Enquanto leitora, não tenho um género preferido. Tenho livros preferidos e alguns autores. Enquanto escritora, também não tenho género preferido. Os meus diferentes livros têm estilos diferentes em função da história em si e do tema.

Qual seria o assunto que seria um verdadeiro desafio escrever?

O próximo livro é sempre um desafio. O tema que está vivo em mim e que corre para a escrita do próximo livro é sempre um verdadeiro desafio. E o meu próximo livro iniciou caminho assim que entreguei este ao mundo, no dia do lançamento…

 

 

 

Como pode o público interagir consigo nas redes sociais?

Boa pergunta. Eva Hart está a nascer. É a primeira vez que uso pseudónimo. Em todos os outros livros assinei com o meu nome. Por isso Eva Hart está ainda muito fundida com a Ana Teresa Silva e nas redes sociais ainda só se encontra a Ana Teresa Silva. Penso que, aos poucos, ela vai ganhar o seu próprio lugar, longe de mim, dado que é esse o objectivo primeiro de ter começado a escrever com pseudónimo. Criar uma personalidade literária distinta é uma experiência libertadora. Penso que já estava presente em mim esse caminho, essa separação através de um pseudónimo. Ao escrevermos damos vida a personagens que convivem dentro de nós durante muito tempo e, muitas vezes, tomam a rédea das histórias, têm vida própria. Assim pode acontecer com Eva Hart. Separando-se do meu quotidiano, a escritora ganha uma espécie de poder, de liberdade criadora. E, aos poucos, ela irá ganhar um espaço próprio nas redes sociais, também. Por enquanto, para interagir no facebook, instagram ou twitter, só através da Ana Teresa Silva: https://www.facebook.com/writerlifecoach/ E no caso do instagram e twitter estão mais ligados à revista que fundei em 2008, a IM Magazine, que traz à luz projectos e pessoas extraordinárias que estão a mudar o mundo (magazineim.com) .

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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