Fado Lelé: “Respeitamos alguns puristas mas nós gostamos da fusão de estilos e de experimentar novas linguagens”

 

 

 

Fado Lelé lançou o primeiro disco, “Portugal sabe o que é”, e tem vindo a alcançar um crescente número de admiradores e seguidores do seu trabalho. Ao nome distinto que o projecto tem, conseguem uma fusão sonora entre o fado e os outros géneros musicais, tornando-os assim num projecto que marca a diferença no panorama musical português. 

 

 

Depois do disco já lançaram mais dois singles, sendo o mais recente “É um Karma”, que apresentaram em Setembro.. Em entrevista ao Infocul, Miguel Castro, aborda o percurso do grupo, os desafios, as expectativas e também o que pretendem fazer.

 

Actualmente o projecto é constituído por Ana Castelo, voz; Miguel Castro, ukulele barítono e tenor; Filipe Silva, bandolim e trompete; Luís Gaspar, bateria; Luciano Barros (músico convidado), baixo.

 

 

Quando e qual a origem que dá nome a este projecto, “Fado Lelé”?

FADO LELÉ surgiu em 2012 quando eu e outro musico começamos a tocar ukulele juntos e a imaginar que tipo de musica e de banda é que poderíamos criar cuja sonoridade fosse baseada nesse instrumento. Convidámos uma cantora e na altura o nosso repertório consistia em alguns fados antigos, ditos clássicos , com novos arranjos e uma execução adaptada ás características algo peculiares do instrumento e ás nossas múltiplas influências musicais, estilos que nós gostávamos de tocar. Desde o principio que esses fados se combinavam com jazz manouche por exemplo, ou reggae, ou rockabilly. Ao longo do tempo fomos convidando outro músicos a participar, uns entravam e ficavam, outros entravam e saíam, mas com a entrada da Ana Castelo, a segunda e actual vocalista do grupo, as coisas rapidamente tomaram um rumo profissional e com uma actividade mais regular. A sua voz e capacidade de interpretação fizeram acontecer FADO LELÉ. Lelé vem pois de ukulele, Fado tem a ver com o repertório do grupo aquando da sua formação.     

 

 

 

Qual a reacção mais curiosa que vos chegou devido ao nome?

Muitas pessoas ao principio ficavam intrigadas. FADO LELÉ?  O que é isso? Mas é fado? Ou que estilo é? Posso aqui contar que uma das situações mais divertidas por que passámos aconteceu num dos primeiros concertos do grupo, em Oeiras, ainda não eramos muito conhecidos e quando chegámos ao local do concerto e vimos os cartazes, em vez de estar anunciado FADO LELÉ, estava FALO LELÉ. Quando perguntámos á organização se não tinham dado por uma gralha tão flagrante ouvimos a seguinte resposta: – Então mas vocês não são os FALO LELÉ?  Foi isso que eu percebi ao telefone. Enfim, Portugal no seu melhor, mas ainda hoje nos rimos desta situação. 

 

 

 

O meio fadista é, por vezes, conservador. Como foi pegar em alguns clássicos do Fado e dar-lhes uma nova roupagem e até linguagem melódica?

 

Para nós foi algo muito instintivo. Nós ouvimos sobretudo as canções que existem no fado, a melodia e a letra. Depois trabalhamos os temas á nossa maneira e ao nosso gosto. Respeitamos alguns puristas mas nós gostamos da fusão de estilos e de experimentar novas linguagens, isso acontece nos nossos temas originais e também nas versões muito próprias que fazemos de canções já existentes. Por exemplo, eu gosto muito dos blues tradicionais, adoro a obra de Robert Johnson, o som velhinho do Mississipi. O que seria no entanto dos blues se não tivesse havido ao longo do tempo um evolução na maneira de tocar, no som, e na fusão com outros estilos? A musica popular e nomeadamente o rock`n`roll teriam tido um panorama muito desertificado, ao contrário do que se tem passado até hoje.

 

 

 

Pegando no nome do disco, “Portugal sabe o que é”, questiono se Portugal já conhece o Fado Lelé e como tem sido a aceitação do público a este projecto?

 

Já nos vão conhecendo mais, sobretudo após a edição do disco, e as reacções nos concertos são boas, sentimos a viva adesão do público. De qualquer modo o titulo do  nosso álbum tem um duplo sentido. Por um lado parece um slogan publicitário, por outro tem haver com o facto de quando as pessoas assistem a um concerto nosso, gera-se um clima tal e uma tal atmosfera em que a maneira de estar do português é logo identificada e celebrada. Ou seja, quem é português e assiste pela primeira vez a um concerto nosso entende logo que “isto somos nós”, “estamos em casa” . Há coisas que são intemporais e até culturalmente genéticas.

 

 

Neste disco contam com alguns originais como “Amor Limão”, “Mal de Amor” ou “O Fado Lelé”. Como é o vosso processo criativo. Primeiro sai letra e depois a música ou é algo feito a par e passo?

Musica e letra aparecem sensivelmente ao mesmo tempo, geralmente aparece uma ideia, uma melodia que já traz uma frase ou outra, um pedaço de letra. Depois desenvolvemos essa ideia. Só quando uma canção já está escrita e já tenho algumas ideias para arranjos é que a  mostro ao resto do grupo e durante o ensaio vamos trabalhando o tema. Todos colaboram com ideias.

 

 

 

 

Deste primeiro disco se tivessem que escolher um tema que vos identificasse qual seria? E Porquê?

 

O Amor Limão ou o Mal de Amor. Ambas as canções mostram muito da musicalidade de FADO LELÉ e apontam para uma musica bem worldtuga , que é a camisola que o grupo veste.

 

 

 

Como foi a escolha do repertório para este disco? Há algum tema que lamentam não estar no alinhamento?

 

Teve a ver com os temas mais rodados em concerto, e que estavam a soar melhor e que também nós gostamos mais de tocar. O nosso álbum não é propriamente um disco muito pensado, com um conceito formal ou formatador, É sim um disco instintivo, gravámos como tocamos ao vivo, fomos para estúdio mostrar a essência do nosso som, sem grandes acrescentos, ou seja ,tal como tocamos em palco, assim o fizemos em estúdio, com as qualidades e eventuais defeitos que tenhamos. Não produzi este disco a querer dar um som ou uma atitude que o grupo não tem, seria um erro, o processo de trabalho passou por rodar ao vivo os temas e quando estão a soar, quando estão no ponto, estão prontos para ser gravados. Sou um músico com hábitos da produção de velha guarda, em vez de criarmos coisas em estúdio que podem não corresponder á verdade do palco, prefiro ensaiar a banda, fazer concertos, dar rodagem e construir assim um som e uma identidade estética que são reais. E depois é isso que vamos gravar. Só assim é que eu também me identifico com o que produzi.

 

 

Depois deste disco saíram já mais dois singles. Um em Fevereiro, “Não sei porque te foste Embora”, e outro em Setembro, “É um Karma”. Como definem estes dois temas?

 

Em relação ao primeiro é um nítido continuar da sonoridade e estética presentes no primeiro álbum, revisitando um tema clássico de Amália Rodrigues com um arranjo novo e virado para a dança, um regresso ao espirito das big bands de jazz e swing mas recreado pelos músicos do grupo. No É Um Karma há sem dúvida um caminho novo, uma atitude mais pop, a sonoridade de Fado Lelé continua lá, o ukulele e bandolim são facilmente reconhecidos mas todo o restante cenário relativamente ao pattern rítmico e a própria canção em si apontam para novos horizontes.

 

Em termos de espectáculos como tem corrido?

Bem, não temos ainda digressões muito extensas mas temos realizado concertos com regularidade em vários locais do país.

 

 

 

Quais os maiores desafios que o actual mercado musical, em Portugal, coloca?

A divulgação, sobretudo. Conseguir algum destaque e tempo de antena numa era em que se gera mediatismo apenas simplesmente pelo mediatismo, muitas vezes sem a presença de uma conteúdo artístico interessante ou sem uma mensagem inspirada ou até pertinente.

 

 

 

Como pode ser descrito o projecto Fado Lelé em termos de género musical, tendo em conta que acaba por abarcar várias influências?

 

Em conversa com os elementos do grupo, acerca de rótulos, surgiu o worldtuga. Achámos graça e penso que se aplica ao grupo.

 

 

 

As redes sociais que importância acabam por ter na divulgação do vosso trabalho?

 

Têm uma importância quase total, a par das rádios e da imprensa digital, mais até do que a imprensa física. Estás em contacto constante com o público e mesmo com o mundo.

 

 

 

Dedicam muito tempo às redes sociais?

 

Algum, na divulgação de novidades e concertos, não tanto como se calhar poderíamos dedicar. A nossa actividade principal é fazer musica, é para tal que o tempo e energia são canalizados.

 

 

 

Onde pode o público interagir convosco nas redes sociais?

 

Através do Facebook e Instagram, só têm de pesquisar por Fado Lelé.

 

 

 

Quais os próximos espectáculos?

 

Regressaremos aos concertos em Novembro, dado que em Outubro estaremos a dar andamento ao novo álbum.  2 de Novembro nas Festas da Quinta do Anjo, Palmela. Em data ainda a anunciar, também em Novembro, estaremos em Lisboa no Aniversário da ADF- Academia Dramática Familiar, uma sala onde tivemos a oportunidade de crescer enquanto banda e a qual temos sempre todo o gosto em revisitar e fazer um concerto para fans e amigos que fazem questão de estar connosco lá. É um espaço d e que  gostamos muito.

 

 

 

Qual a mensagem que gostariam de deixar aos leitores do Infocul?

 

Escutem musica sobretudo pela musica em si, independentemente do estilo ou de um eventual estatuto do artista em causa, ou de um rótulo. Se gostarem passem a palavra. E já agora sigam a Infocul, tem sido exemplar a divulgar muito do que se faz na área da cultura.

 

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