“Fado Maior- Letras para Fados Tradicionais” de Hélder Joaquim Gonçalves

fado maior

 

“Fado Maior- Letras para Fados Tradicionais”, da autoria de Hélder Joaquim Gonçalves, reúne quarenta e um textos que proporciona ao leitor uma viagem emocional ao ritmo da canção nacional.

 

Esta obra encontra-se dividida em cinco capítulos: “A cidade”, “Os amores”, “O Fado e a Guitarra”, “Ecos”, “Fados com Endereço”.  O autor revela na nota de autor que “a referência à melodia do fado tradicional que surge junto a cada letra é meramente informativa: indicam as melodias sobre as quais fora escritas as letras”. Editado pela Lua de Marfim, este livro conta com prefácio do fadista Duarte e é o motivo para uma entrevista com o autor da obra, Hélder Joaquim Gonçalves, que reproduzimos abaixo.

 

 

No prefácio, o fadista Duarte escreve “ter o privilégio de saborear as palavras e o tempo das histórias” neste livro. O que significa um fadista escrever isto sobre a sua obra? 

 

Num livro de poemas para fado, fazia todo o sentido que o prefácio fosse escrito por um fadista. E quando o fadista é alguém que além de cantar também escreve e compõe, tanto melhor. As palavras do Duarte têm uma enorme importância para mim. 

Duarte sabe do que fala, quando se debruça sobre a escrita de poemas para fado, já que ele o faz admiravelmente. Oiça-se, por exemplo, o seu último disco “Sem Dor nem Piedade”. Ora, ter um fadista, poeta e compositor desta dimensão, a escrever palavras tão elogiosas sobre as letras de alguém que ele nem conhecia, tem, obviamente, um imenso significado. 

  

 

 

Porquê a escolha do Duarte para escrever o prefácio de “Fado Maior- Letras para Fados Tradicionais”? 

 

Descobri o Duarte logo no seu primeiro trabalho, “Fados Meus”, em 2004. Depois, fui seguindo o seu percurso. O trabalho que mais me impressionou, em termos de escrita e de concepção do disco, foi o último, a que já aludi, “Sem Dor nem Piedade”, que me encantou pelo conceito, pela escrita, pelo equilíbrio entre tradição e inovação. 

Pedir ao Duarte que escrevesse um prefácio para o meu livro foi um acto de ousadia. Não tinha nada a perder, tentei e ele foi de uma generosidade enorme. Fiz-lhe o pedido, enviei os textos e, passado algum tempo, respondeu-me dizendo que tinha lido as primeiras letras e que eu poderia contar com o prefácio. É um texto que me honra muito. 

 

  

 

Quando meteu conversa “pelo virtual” com o Duarte alguma vez teve receio que ele não aceitasse o convite para escrever o prefácio? 

 

Não tive receio porque não tinha nada a perder se ele dissesse que não. Se não tivesse aceitado eu teria entendido. Afinal, eu era uma pessoa que o Duarte não conhecia de lado nenhum, e ele poderia simplesmente desculpar-se dizendo que não tinha tempo. Para escrever o texto, teria de ler todo o livro que é composto de 41 fados. E eu imagino como ele anda ocupado, quer a cantar no Senhor Vinho quer nas digressões que, ultimamente, tem feito por França. Mas o Duarte, além do grande artista que é, mostrou ser uma pessoa de grande generosidade. 

  

 

 

Em “Postal Lisboa” escreve “O Tejo é um risco ao fundo/Da Cor das Portas do Mundo”. Pode o Tejo ser um representante da multiculturalidade actual de Lisboa? Ou esta pode também ser uma referência aos descobrimentos portugueses? 

 

No fado “Postal de Lisboa”, o sujeito poético, à semelhança do que faz Cesário Verde, percorre certos recantos de uma certa Lisboa: a Lisboa típica das vielas, das escadinhas, dos bairros, do povo que a vive à sua maneira, com as varandas enfeitadas com flores. 

Neste contexto, o Tejo surge, aos olhos da personagem que percorre as ruas, como um risco (azul, é claro) ao fundo que faz lembrar, pela cor, os olhos de uma personagem feminina a quem o sujeito poético se dirige. Uma personagem que tem uns “olhos fatais” que o sujeito classifica como portas do mundo. Não é alheia a esta comparação, o facto de o Tejo ter sido a porta através da qual os portugueses saíram à descoberta do mundo e, nos regressos, trouxeram o mundo até nós. Como metáfora, o Tejo pode ser tudo aquilo que entendermos, sobre Lisboa e Portugal: a abertura ao mundo ontem e hoje. 

 

  

 

Ao longo do livro vamos tendo oportunidade de apreciar algumas letras com referências a Lisboa. Em “Do Alto do Teu Castelo” escreve “Esquecer-te não há quem possa/Deixar-te não há quem queira”. Como se explica e qual a relação de amor, presente nas palavras, de um algarvio com Lisboa? 

 

Lisboa ganhou, desde há muito, o estatuto de personagem poética. Tem-no sido ao longo da História da Literatura e, obviamente (e por maioria de razão), da História do Fado.  

Marcelo Casarini, um académico brasileiro, num estudo sobre a “Personificação de Lisboa nas Letras de Fado”, contabilizou 600 fados (dos mil que ouviu) que falam sobre Lisboa. Destes, 183 apresentam a cidade personificada, como personagem, portanto, da história que o fado conta.  

A relação de amor que exponho nessa letra é, acima de tudo, uma relação poética. Não faz sentido falar de fado sem se falar de Lisboa, como não o faz, igualmente, esquecendo a guitarra. Malhas que a poesia e o fado tecem. 

 

  

“Confesso, Já estou cansado/De te ouvir dizer que o fado/É só tristeza e saudade!”. Acha que ainda existe esta ideia sobre o fado? 

 

A melancolia, a saudade, a tristeza são estados de alma que se coadunam com um tipo de canção cuja matriz é o sentimento. Essa minha letra surgiu-me porque vejo que hoje há uma certa corrente que defende que o fado deve, por força, ser alegre. Costumo dizer, numa tentativa de criar algum humor sobre o tema, que era um pouco como se abolíssemos a Tragédia, enquanto género literário e ficássemos apenas com a Comédia. Cantar ou ouvir uma música nostálgica, triste, faz de nós desgraçados? E se ouvirmos canções suaves, divertidas, faz de nós mais felizes? Isso muda a nossa vida? 

Andamos há 900 anos a cantar a saudade. E hoje? Não faz sentido cantar esse sentimento? 

O fadista, como qualquer intérprete, é um actor. Quando canta, (pode mesmo comover-se até às lágrimas), ele é um ser infeliz, por cantar a tristeza ou a saudade? Claro que não! 

Tal como um actor, quando interpreta o herói de uma Tragédia, não o faz por ser uma pessoa infeliz, mas por ser um grande actor. O fado é um género musical, e a tristeza, os amores e os desamores, o ciúme, são os seus motivos fundamentais. É possível cantar outros temas no fado? Claro que sim e isso sempre se fez. O que não me parece necessária, e acho até um pouco ridícula, é uma certa militância recente, com o objectivo urgente de dar outro rosto ao fado.  

  

 

E no seguimento da questão anterior, questiono se há alguma definição que possamos dar ao fado enquanto mensagem? 

 

Há sempre uma mensagem numa obra. Umas vezes ela surge clara para toda a gente, outras vezes menos à superfície. Creio que o que importa é que haja verdade naquilo que se faz. A mensagem pode ser uma ideia, como acontece por exemplo em “Abandono”, também conhecido como “Fado Peniche”, de David Mourão Ferreira ou em “Pergunto ao Vento que Passa” de Manuel Alegre. Mas também pode ser um modo de estar, como em “Estranha Forma de Vida” de Amália. Para mim, o que mais importa é a profundidade de alma. O fado é para se viver.  

 

 

“Todo o Amor Nasce Eterno./É Da Sua Natureza.”. Acredita que ainda há amores para sempre? Ou o amor quando não cuidado pode rapidamente esgotar-se? 

 

A eternidade é a matriz do amor. Nenhum amor nasce com o fim à vista. Neste sentido, o amor é, na essência, eterno. Quer a eternidade seja toda uma vida, ou apenas algum tempo. Duarte canta, na música do Fado Alberto, “ Eu sei que foste eterna uma hora”. Faz todo o sentido! 

  

 

 

“Não te peço a eternidade/Nem o sol nas noites frias”. Amar é não exigir nada e aceitar o que o outro tem para nos dar? Ou no amor pode haver exigências? 

 

Amar é sempre uma troca. Camões, dizia que “amar é estar preso por vontade”. Isto pressupõe aceitação de exigências ou então, a generosidade de fazer seus os desejos do outro. 

  

 

 

“O que eu não te sei dizer/Peço ao fado que te diga”. É melhor a expressar sentimentos verbalmente ou por escrito? A palavra escrita pode ter mais peso do que a palavra dita, dependendo do receptor da mensagem? 

 

Cada pessoa tem o seu modo de expressar sentimentos. A palavra escrita tem o peso de ser um documento que perdura. Tudo depende também das circunstâncias. Em certos momentos, talvez muita gente prefira a expressão oral dos sentimentos. Em termos de poesia, eu perfilho a tese do “fingimento poético” de Pessoa. Um poema surge de uma acção racional. Assim, talvez seja mais espontânea a expressão oral, não esquecendo que o discurso amoroso é sempre hiperbólico. Por isso é que o Álvaro de Campos diz que “ todas as cartas de amor são ridículas”. 

  

  

 

 

No capitulo “Fados com Endereço” qual o critério da escolha a quem dedica algumas letras? 

 

A primeira escolha é a mais óbvia: o fado “ A Flor mais Formosa” que dedico à minha neta. Foi uma letra sugerida pela actividade a que ela se costuma entregar quando me visita: desenhar e pintar. 

A segunda, “ A guitarra Chora Triste” é dedicada a Amália que me ensinou a gostar de fado. 

A terceira, “ Fado Cesário” é uma homenagem a Cesário Verde, poeta cuja poesia sempre me encantou. O poema “De Tarde” (Naquele piquenique de burguesas) sei-o de cor desde adolescente. Este poema, motivou-me uma reescrita a que dei o título de “Um novo Ramalhete de Papoulas”. O “Fado Cesário” é sobre a história de “De Tarde”. 

  

 

 

Desde que escreveu o livro já algum fadista lhe pediu alguma das letras? Se sim, quais os fadistas (caso possa ou queira revelar)? 

 

Foi manifestado interesse, por parte de duas fadistas. Há também a possibilidade de um grande músico de fado musicar alguns poemas do livro. Vamos ver. O livro está no Museu do Fado e pode ser encontrado na Editora Lua de Marfim e na Wook. Está na rua à espera de poder cumprir o seu papel que é contribuir para a o alargamento do reportório fadista. 

 

 

 

Quando surge este interesse pelo Fado? 

 

Como ouvinte, gosto de fado há umas décadas.   

 

 

Tendo uma vida ligada ao ensino, é professor de Português, ‘usa’ o Fado em algumas matérias? Ou seja, Consegue fazer uma ligação entre a sua profissão e o amor que tem pelo fado? 

 

Felizmente, tenho uma profissão que me permite trabalhar com literatura, nomeadamente poesia. Não preciso de fazer qualquer esforço para ligar o meu gosto pela poesia ao meu desempenho profissional. O fado usei-o apenas em aulas de Português Para Estrangeiros. Foi de resto, essa experiência que me levou a escrever o livro de Letras para Fados. As primeiras letras foram escritas propositadamente para cantar para os alunos, num jantar anual, numa casa de fados. Depois foram surgindo as outras, motivadas sobretudo pela recepção que as primeiras tiveram junto de amigos fadistas e músicos de fado. 

  

 

 

Da nova geração (que se prolonga há mais de duas décadas) quais são os fadistas que mais admira? 

 

Muitos: Camané, Hélder e Pedro Moutinho, Aldina Duarte, Ricardo Ribeiro, Carminho, Ana Moura, Gisela João, Raquel Tavares e, é claro, o Duarte. 

  

 

 

Neste livro o amor está muito presente. Como convive com o amor? É uma convivência fácil ou a razão sobrepõe-se à emoção? 

 

Quando a razão de sobrepõe à emoção, não há amor. A razão amordaça o coração. Os Poetas Românticos disseram-no como ninguém. 

  

 

Acha que actualmente há um bom uso da língua portuguesa pelo nosso povo? Ou usamos demasiado ‘calão’? 

 

Acho que quem maltrata verdadeiramente a língua portuguesa são, sobretudo, as televisões. Não há o mínimo de cuidado no uso da língua num meio que chega, imediatamente, a todos os portugueses. O português falado nos meios de comunicação social é muito mau e influencia muito os falantes. Veja-se o caso da substituição da locução “ a sério” que, regra geral, foi já substituída, nas televisões, pela equivalente, mas desnecessária, “à séria”. 

Veja-se também uso de Particípios errados como “encarregue” ou “intervido” etc etc. e a quantidade de construções brasileiras. Erros destes, não sei se por falha dos guionistas ou dos actores, já deram o salto para a ficção. O Calão faz parte de língua e tem o seu espaço. É uma questão de se saber adequar o discurso ao contexto e isso aprende-se. Ou dever-se-ia aprender. 

  

Como descreveria este livro numa única palavra? 

Contributo. 

 

 

Hélder Joaquim Gonçalves nasceu em Portimão, onde reside actualmente, em 1951. Habilitou-se com o curso do Magistério Primário, em 1978, na Escola do Magistério Primário de Faro, tendo-se iniciado nesse mesmo ano como professor do 1º ciclo. Em 1985 conclui o curso de Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses. É, desde 1987, professor de português do ensino secundário.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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