filipa-cardosocaixaalfama2016-2682

Êxito. O adjectivo que melhor pode descrever o segundo dia e a totalidade da quarta edição do Festival Caixa Alfama. Filipa Cardoso, Rui Vaz e principalmente José Gonçalez & Sangre Ibérico brilharam nos seus concertos.

 

 

Por ruas e vielas, becos e escadinhas, Alfama esteve no segundo dia do maior festival de fado do mundo, um autêntico demónio. Um demónio daqueles que apetece sentir e acima de tudo viver. Porque o Caixa Alfama, mais do que qualquer concerto, deve ser vivido na sua essência, no pulsar dos “alfamenses” que abrem os braços e o coração a quem os visita, sem esquecer no franco e cordial convívio entre todos os agentes que integram este festival.

 

 

No dia de homenagem a Beatriz da Conceição, coube a Filipa Cardoso abrir as actuações no Palco Caixa. Grávida de oito meses, desde cedo agarrou o público, cantando de início sem apoio instrumental uma marcha dedicada a Alfama. Com a raça, querer e poder vocal que a caracterizam, a fadista percorreu dos fados tradicionais às marchas com aparente facilidade e não se notou cansaço nenhum na voz, algo que seria perfeitamente natural estando grávida.

 filipa-cardosocaixaalfama2016-2708

 

Num repertório ecléctico e bem construído constaram temas como “Fado desta noite” ou “Bailinho à portuguesa”, destacando-se ainda “Lavadeiras de Caneças” que irá integrar o seu próximo disco, uma novidade dada no espectáculo desta noite.

 filipa-cardosocaixaalfama2016-2953

 

Considerada uma das mais poderosas vozes do fado, Filipa Cardoso continua a cada participação no Caixa Alfama a marcar a diferença, depois de anteriormente o também ter feito no Centro Cultural Magalhães Lima, numa das edições anteriores.

 

 

No Lusitano Clube, ouvimos o jovem Rui Vaz. Numa sala quase irrespirável e com uma acústica má para o fado, o fadista fez das adversidades uma motivação para justificar a presença no cartaz. Tem um bom aparelho vocal que sabe modelar consoante a intensidade do poema aliando ainda uma linguagem corporal sóbria. Deverão ser revistas algumas condições neste espaço para futuros espectáculos, quer em termos de conforto para o público, quer na acústica. Faltou ainda cumplicidade entre os músicos e o fadista.

 

ruivacaixaalfama2016-2804

No Palco Casa Ermelinda de Freitas, sito no Largo das Alcaçarias, um excelente espectáculo foi proporcionado por José Gonçalez e os Sangre Ibérico. Com um conceito que juntou em alguns momentos o fado e a rumba flamenca, noutros foi inteligentemente efectuada uma ponte entre os dois géneros ibéricos.

 

 

De entre vários elementos que contribuíram para o sucesso deste espectáculo começamos pelos músicos. Um belo conjunto de músicos que acompanharam tanto o fadista como o grupo, destacam-se Guilherme Banza (que já ontem tinha brilhado) na guitarra portuguesa e Rogério Ferreira na viola de fado, além dos também virtuosos Filipe Larsen e David Jerónimo.

 

 

Uma surpresa chamada FF. A surpresa não é pelo talento mas sim pela presença neste espectáculo depois de ontem naquele mesmo palco também ter actuado e obtido sucesso. Foi chamada a palco por José Gonçalez para com ele e com os Sangre Ibérico interpretar “Canta Amigo Canta”. Às três vozes em palco, juntou-se a multidão no refrão.

 

 

“Nem às paredes confesso”, “Meu fado meu”, “Valentim” ou “Lisboa Menina e Moça” constaram de um alinhamento que agradou sobremaneira ao público. Tivesse o espectáculo durado três horas e o público ali continuaria. O risco de trazer este espectáculo ao festival foi assumido, calculado e vencido. Foi ainda interpretado um dueto de José Gonçalez com Sangre Ibérico que futuramente estará num disco. Destaque para a voz de André Amaro. Será a breve prazo uma das melhores vozes nacionais no masculino. O seu canto soa a verdade, a sua voz é limpa e o aparelho vocal poderoso.

 

 

Antes do espectáculo, o Infocul entrevistou o programador do festival, José Gonçalez. O balanço desta quarta edição é “positivo”, pois “o balanço será sempre positivo, bastava o dia de ontem para o balanço ser positivo. Temos muito público, o tempo ajudou, toda a crítica tem feito referência à qualidade dos concertos, portanto balanço é claramente positivo. Claro que ainda faltam os concertos de hoje mas acredito que vamos manter o nível de ontem , até pela homenagem muito especial que vamos ter à Beatriz da Conceição” disse-nos ao inicio da noite.

 

 

Como programador questionámo-lo sobre os maiores desafios na composição dos cartazes, tendo nos dito que “a primeira ideia é que não temos assim tantos fadistas. Temos muitos, mas não temos tantos que cheguem, e tendo em conta que já vamos na quarta edição, para cartazes diferentes. Aquilo que temos tentado é desafiar os fadistas a que eles em função do espaço em que pensamos colocá-los ele criem um conceito para esse concerto e no fundo vamos conseguindo mudar. Por exemplo, a Maria Ana Bobone que já esteve a actuar com viola, guitarra e baixo, ser convidada para actuar na Igreja e apresentar o seu repertorio habitual que tem a ver com a temática do espaço já estamos a criar a possibilidade de ter alguém que noutro ano cantou num outro lugar e assim sucessivamente. Temos também os tributos e homenagens que permite abrir porta a que possamos ter fadistas que num ano estiveram em nome próprio num palco e num outro ano estarem inseridos numa homenagem a alguém que lhes era muito particular, é um bocadinho jogar com isso tudo. Temos também mudado alguns palcos, ou o nome de alguns palcos. Este ano, à imagem do que fazíamos no Porto e ainda não tínhamos feito em Lisboa, era ter um palco para amadores, este ano tivemos no Lusitano, que são amadores que podem chegar a profissionais, era este o objectivo, e é essa a ideia, vamos tentando reinventarmo-nos com o que temos e temos muito, temos os melhores do mundo.”

 

 

Algum público tem questionado a ausência e alguns fadistas nos cartazes do Caixa Alfama, tendo nós Infocul referido os nomes de Mariza, Carlos do Carmo ou Mísia. Questionámos a possibilidade de marcarem presença em edições futuras, tendo José Gonçalez referido que “há sempre possibilidade. Não há ninguém vetado, eu sou o programador e nunca vi ninguém vetado, tem apenas a ver com algumas indisponibilidades e possibilidades. Posso dar em primeira mão que a Mariza este ano era para estar aqui, só que foi fazer as Festas do Mar a Cascais e era relativamente próximo, e optámos quer nós quer ela, que não fazia sentido ir fazer um espectáculo a Cascais de porta aberta e estar aqui quinze dias depois. Portanto não há ninguém vetado, as pessoas irão vir consoante as suas agendas permitirem em função da filosofia de cada ano para o festival”.

 

 

O Infocul agradece às assessorias de imprensa do festival e da Caixa Geral de Depósitos pelas facilidades concedidas para a execução do nosso trabalho.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.