Festa do Avante: Katia Guerreiro e Duarte em dois espectáculos de grande qualidade

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No terceiro e último dia de Festa do Avante, o Infocul acompanhou dois dos muitos concertos que preencheram de música, o dia habitualmente dedicado ao comício do Partido Comunista Português na festa por si (bem) realizada. 

 

 

Os dois concertos que o Infocul acompanhou realizaram-se no Auditório 1º de Maio, tendo como intervenientes principais os fadistas Katia Guerreiro e Duarte. 

 

Katia Guerreiro

 

Katia Guerreiro, cujo concerto estava agendado para as 20:00, subiu a palco com aproximadamente 40 minutos de atraso (devido aos atrasos verificados nos espectáculos anteriores pela realização do comicio, pois durante o período em que o mesmo dura, nenhum artista actua). Mas o público aguardou por Katia Guerreiro e a espera valeu mesmo a pena.  A fadista esteve irrepreensível, com uma actuação a atingir a excelência na interpretação. 

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Abriu com “Incerteza” na melodia do fado Alberto, seguindo-se “A janela do meu peito” da autoria de Alberto Janes e com um arranjo feito “há dois minutos”, como referiu a artista. A sua voz é poderosa, colocada, afinada e moldada consoante a intensidade que o poema requer. Atacou muito bem as notas, soube também quando as prolongar, complementando tudo isto com uma linguagem corporal adequada aos temas. 

 

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Referiu ser “bom estar aqui passados todos estes anos” acrescentando que “viemos direitinhos dos Açores quase que aterrámos aqui, nem o som tínhamos preparado, mas o que interessa é coração”. E esse entregou-o todo ao público que a aclamou a cada tema.  

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Com letra e música de Paulo de Carvalho, trouxe ao Avante “Nove amores”, um tema escrito a pensar nos Açores, de onde a fadista é natural e pelo qual nutre um enorme amor e carinho. “Nesta noite” de Paulo Valentim, abordou uma historia de amor, antes de brilhar estratosfericamente com a interpretação de Fado da Sina. Neste tema não foi apenas voz. Foi tudo! Todos os seus gestos, o seu olhar, as suas mãos, deram a intensidade e carga dramática pedida por um dos poemas mais tristes cantados no fado. 

 

 

No Avante recordou Ary dos Santos com “Rosa Vermelha”, que conta com música de Alain Oulman 

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Com o sol a pôr-se e luar a erguer-se, “Quero cantar para a lua” foi o tema que se seguiu e que conta com música do guitarrista Pedro de Castro, que a acompanhou em palco com Luis Guerreiro também na guitarra portuguesa, Francisco Gaspar na viola baixo e André Ramos na viola de fado. Realce para a dificuldade acrescida de actuar com dois guitarristas, sendo que neste espectáculo resultou em pleno, sendo que são dois dos melhores e mais conceituados no seu ofício. 

 

 

De Vasco Graça Moura apresentou os temas “Quatro Operações” (com musica de Tiago Bettencourt e Pedro de Castro) e “Até ao Fim”, tema que dá nome ao seu mais recente disco. Num concerto em que voou bem alto, “Asas” de Maria Luisa Batista proporcionou arrepiante momento com Katia Guerreiro a atacar muito bem notas altas e o público a responder com “Ah fadista!”. 

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“Mentiras” de Rita Ferro proporcionou momento divertido com uma letra que conta com uma história de amor baseada em mentiras, com um refrão bonito contendo um sarcasmo absolutamente fabuloso. 

 

 

Encerrou a actuação com mais dois temas, entre os quais “Amor de mel Amor de Fel”, perante uma plateia ao rubro que ovação estrondosa. Katia Guerreiro mostrou estar numa fase muito bonita da sua carreira e com um espectáculo que nos faz viajar pelos sentimentos, numa quase total purificação da alma. 

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Duarte

 

 

O Fadista Duarte subiu a palco, acompanhado por Rogério Ferreira na viola de fado e Pedro Amendoeira na guitarra portuguesa,  interpretando “Vai de roda”, perante um auditório com muito pouco público. Não se deixou afectar e de seguida interpretou “Não é, mãe?”. Com a voz bem colocada e com excelente projecção vocal, Duarte em palco é um fadista diferente. O modo como se entrega aos temas e os sente, reflecte-se na sua linguagem corporal que acompanha o dramatismo das letras dos poemas maioritariamente por si escritos.

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Com o público a aumentar, deixando o auditório com uma moldura humana bastante simpática, Duarte foi também ele crescendo  ao longo do concerto em temas como “Fado Escorpião”, nas quadras populares de Fernando Pessoa na melodia do fado Alfacinha ou “Quadras de A6 e A2”, escritas nas suas constantes viagens entre Lisboa e Évora e interpretadas no fado tradicional meia-noite e uma guitarra.

 

 

Mas o momento alto do concerto surge quando sozinho em palco, apenas com a sua guitarra, interpreta “Maria da Rocha”. Momento sublime, arrepiante, de fazer parar o tempo. Tempo em que recordou a altura em que saia à rua para pintar murais da JCP, embora na entrevista que nos deu a seguir ao concerto refira que “ eu nunca fui militante, mas lembro-me de estar lá pelos meus ‘Alentejos’  e os meus amigos daquela altura convidavam-me para algumas incursões para escrever nos murais e eu levava a guitarra e saía às escondidas” acrescentando que “eu nunca gostei muito de estar envolvido em politica“.

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Estreou neste espectáculo o tema “Rapariga da Estação”, um tema escrito por si muito recentemente, numa altura em que “estava embriagado musicalmente”, antes de iniciar a viagem terminal do seu concerto que passou pela “Terra da Melancolia”, “Mistérios de Lisboa” e “Saudades trago comigo”. Apesar de o público pedir mais um tema e o fadista ter vontade de o cantar, não foi possível devido a limitação de tempo para cada actuação.

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Duarte melhora a cada espectáculo enquanto intérprete e como letrista dos seus temas apresenta-se quase como um “politico do coração”: desconstrói os sentimentos nas leis (palavras) usadas por nós diariamente. E é essa capacidade de através da sua escrita e do seu canto nos ensinar a sentir e a perceber os sentimentos que o torna um artista único, que terá o seu próximo espectáculo em Besançon, França, no dia 10 de Setembro.

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Depois regressa a Portugal para “gravar o filme do Diogo Varela e Silva, “Fado em Si”, no qual interpretarei um personagem de Alfama…”. Para Outubro, regresso marcado a França, onde esgota salas com regularidade.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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