Festival Terras sem Sombra: Entrevista ao diretor-geral José António Falcão

arrowarrow


O Festival Terras sem Sombra encerrou no passado fim-de-semana a sua 12ª edição, com a realização de um concerto e uma acção de biodiversidade na escaldante cidade de Beja.

O Festival Terras sem Sombra é um festival de música sacra que junta a musica, o património histórico e também a biodiversidade, mostrando o que de melhor o Alentejo tem para oferecer e que poucos conhecem.

 

 

O último concerto desta edição esteve a cargo do ensemble vocal e instrumental de música antiga La Grande Chapelle que apresentou um acervo musical sobre os músicos portugueses que fizeram carreira na Espanha dos Filipes, e que foi magistralmente dirigida por Albert Recasens.

 

 

O espectáculo teve lugar na bonita e restaurada catedral de Beja que encheu por completo para um espectáculo musicalmente belo mas que teve apenas como contra a excessiva duração do concerto. As obras eram por si longas e com um alinhamento extenso, o espectáculo prolongou-se em demasia. O público manteve-se fiel até ao fim e prestou estrondosa ovação aos músicos, todos eles de uma sensibilidade artística impar.

 

 

Na manhã seguinte, domingo dia 19, teve lugar a acção de biodiversidade tendo por mote “Entre Ribeiras: Na Confluência Das Ribeiras de Terges E Cobres-Turismo De Natureza E Sustentabilidade”. Esta acção decorreu num itinerário entre os cursos fluviais e um barranco afluente, cuja vegetação foi salvaguarda ao longo de gerações pelos proprietários da herdade de Xistos, numa manhã de intenso calor.

 

 

O Infocul falou com o director geral do festival, José António Falcão sobre o balanço desta edição e o percurso que o festival tem efectuado desde que foi criado em 2003.

 

 

O balanço desta edição é positivo porque aponta no sentido do crescimento do festival “Terras Sem Sombras” que ganhou uma maior maturidade artística. Há aqui um esforço de qualificação que foi bem-sucedido. Por outro lado é um festival que tem apostado claramente no não convencionalismo da sua programação artística. Nós estamos na nossa linha que é a música sacra, a música religiosa que de um modo mais genérico é a chamada música espiritual. Para compreendemos a essência dessas manifestações nós temos que estar atentos e temos conseguido abrir essas janelas sobre várias perspectivas. Outro aspecto também muito importante é o incremento que tivemos a nível de público. Houve um aumento no número de espectadores este ano. Ainda não fechamos as contas mas penso que tenha crescido entre os 11 e os 12%” começou por nos revelar o director geral do festival acrescentando “a aposta na divulgação está a ser bem sucedida. 70% do nosso público é da região, é o público-alvo do “Terras Sem Sombras”, mas temos visto que o número de estrangeiros têm vindo a aumentar. Quem acompanha os concertos e as actividades nele inseridas aproveita um bocado essa janela de oportunidade que é o festival “Terras Sem Sombras” para ficar no território durante dois ou três dias. Às vezes fica um pouco mais do que isso. Temos visto um grande interesse por parte do público espanhol, o que não é de estranhar pois este público conhece bem o nosso território que escolhem para veranear, normalmente na época da semana santa. Vamos também tendo franceses, italianos, alemães e holandeses. São cada vez mais aqueles que vêm da Escandinávia, da Noruega e da Suécia. Curiosamente o Brasil também é um país com o qual fazemos muitas pontes. São brasileiros que vivem em Portugal ou o que vêm de propósito. Em contrapartida nós também notamos que área de influência do festival tem vindo-se a alargar até Santiago de Compostela, Madrid ou Sevilha”.

 

 

Dada a projecção que o festival tem atingido há cada vez mais municípios a querer receber o festival. Perante este cenário questionámos o director geral sobre como será programada a edição de 2017 no que a localidades que receberão o festival diz respeito. “ Parece-me que o tipo de modelo utilizado tem corrido bastante bem. Nós definimos a temporada musical que normalmente começa entre Janeiro e Fevereiro. Aqui contamos com a altura da páscoa pois ela é muito vivida nas igrejas e nós tentamos fazer uns concertos mais pascais. A temporada normalmente acaba em Junho. Queremos segurar este modelo pois está provado no terreno. Temos localidades em lista de espera” acrescentando que “os únicos concelhos que estão sempre, até porque é uma zona bastante original e com acessos, são os de Almodôvar e Castro Verde”.

 

 

Num registo de complementaridade o Terras sem Sombra junta à musica e património religioso, a biodiversidade que tem vindo a crescer na relevância que assume no festival. José António Falcão revela que “a biodiversidade é um complemento muito lógico na sua programação mais virada para o monumento que para a música. Este festival nasce nesse binómio. Nós conseguimos recuperar as igrejas da região mas tinha-se quebrado um pouco essa ligação e as pessoas tinham perdido a noção das potencialidades acústicas que esses locais ofereciam. A partir dai apercebemo-nos que devíamos tentar mais qualquer coisa e aproveitar os excelentes músicos que temos entre nós. Pareceu-nos possível criar uma marca como o “Terras Sem Sombras”. Isto tem ajudado de certo modo a criar um turismo ambiental que complementa o turismo rural. Não é o nosso objectivo fundamental ser promotor de turismo. A verdade é que onde o festival passa, aumenta as divisas na restauração e na hotelaria. Temos esse exemplo agora em Beja”.

 

 

O “Terras Sem Sombras” começou este ano de uma forma impactante não só a nível nacional como internacional levando o canto alentejano a Madrid. O “Terras Sem Sombras” valoriza o Alentejo com o seu património histórico e biodiversidade. O canto alentejano é um símbolo da região.  Será que no futuro teremos o cante alentejano em espectáculos no festival? Para o director do Terras sem Sombra “o cante alentejano está sempre presente no “Terras Sem Sombras”. Não na sua programação mainstream mas em todos os outros lados. De tal modo que não há praticamente nenhuma acção que não seja feita dentro do espaço do cante alentejano. Há zonas do nosso território em que esse cante não é tão difundido mas procuramos que esteja sempre associado. Procuramos que essas pessoas o conheçam e o pratiquem. Este ano tivemos uma experiência em Madrid com o cante alentejano e a viola campaniça que foi o fio condutor. Em termos práticos, em tendo em mente que este é um festival que talvez , um dia mais adiante, seja possível ter um repertório a um nível de interpretes que se adeqúem a um festival de música sacra. Estamos a trabalhar nesse sentido e abrir portas muito interessantes que podem vir a ser incluídas em edições futuras. A nossa intenção também é dar a conhecer a música tradicional e religiosa. Essa programação em conjunto seria um binómio invencível”.

 

 

Neste momento ainda não está confirmada a edição de 2017 do festival, isto porque “estamos confiantes que sim mas essa decisão está um pouco dependente do futuro do departamento histórico e artístico. A verdade é que estamos a trabalhar na programação. Ela já está pensada e vai fazer-se muito no tema da espiritualidade na arte. A programação está praticamente terminada. O departamento histórico e artístico necessita de ver a sua continuidade assegurada” de modo a assegurar a continuidade do festival, segundo nos confessou José António Falcão.  Para que o mesmo se realize “está dependente, neste momento, de ser retomado o dialogo por parte da diocese com o ministério da cultura e conseguir que a colaboração ,que existe desde 1999 e produziu óptimos resultados, continue. O festival não deve ser visto como uma parte isolada. Temos feito de tudo para recuperar o património religioso e conseguir garantir a sua sobrevivência, obviamente ligado ao território em que está inserido. Desejamos criar um espaço onde a música sacra antiga e contemporânea possa surgir num sítio mais adequado que as próprias igrejas” acrescentando que “creio que sim. Aliás, o ministério foi excepcional na atenção que foi dada e nós vamos fazer o possível para garantir essa colaboração” quando questionado se já existiam pontes para essa convergência de ideias.

 

 

O festival tem claramente um caminho à sua frente. É um festival onde eu diria que a maturidade já foi atingida. É um festival que já tem o seu cunho, já conquistou o seu lugar ao sol. O grande problema agora coloca-se sempre na capacidade de articulação da programação com aquilo que é o trabalho que foi desenvolvido no terreno, como a biodiversidade ou a divulgação de monumentos” rematou José António Falcão.

 

 

O Infocul agradece à organização do festival nas pessoas do director geral, da directora executiva e na assessoria de imprensa por todas as facilidades concedidas para a realização do nosso trabalho.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

Rui Lavrador has 6771 posts and counting. See all posts by Rui Lavrador

Rui Lavrador

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.