Filipa Cardoso: O seu fado em tons dourados no CCB

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Com um longo vestido em tons dourados, Filipa Cardoso cedo mostrou que esta noite no Pequeno Auditório do CCB iria ter muito brilho. E não foi apenas pelo vestido, mas por uma escolha irrepreensível do alinhamento, uma interpretação a atingir momentos sublimes, um quarteto de músicos que lhe deram suporte para voar mais alto e um jogo de iluminação de grande qualidade. Uma noção de espectáculo bem conseguida.

 

Filipa iniciou o espectáculo acompanhada por André Dias na guitarra portuguesa, Miguel Ramos na viola de fado e ainda Vasco Sousa na viola-baixo. O Fado tradicional foi o fio condutor deste inicio, em que interpretou  o Fado Cravo (Maldição), a Marcha do Marceneiro (Senhora do Livramento) ou ainda o Fado Corrido (Ardinita).

 

 

No primeiro diálogo que teve com o público, começou por dizer que estava “impregnada de nervos”, não deixando de agradecer a presença do público e desejando uma noite feliz.

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Filipa Cardoso tem a vantagem de encarar a ida para o palco sempre como se fosse a última, entrega-se por inteiro e acima de tudo tem um respeito enorme pelo público, e isto sente-se na forma como os espectáculos da fadista são construídos. Tem um aparelho vocal potente, um timbre muito bonito e uma agilidade interpretativa que é complementada por uma excelente linguagem corporal. É também uma artista que aplica uma forte componente humana nos concertos.

 

 

“Meu Amor Marinheiro”, “Amor de Mel Amor de Fel” e “Noite Cerrada”, voltaram a levar Filipa Cardoso para as notas altas. A fadista mostrou que a sua voz não tem vertigens e agarrou os temas na perfeição. Em cada tema, Filipa leva-nos numa experiência sensorial, é como se viajássemos na história do fado, mas sempre com um pé no futuro. Filipa Cardoso foi beber sabedoria a várias fontes e a água (fado) que nos dá a beber é de muito boa qualidade.

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Seguiu-se o Fado Pechincha antes da habitual guitarrada na qual os músicos de Filipa Cardoso mostraram toda a sua qualidade e virtuosismo. Sem malabarismos nem efeitos especiais, foi um guitarrada exemplar e de carimbo fadista.

 

 

Filipa Cardoso regressou a palco com “Ai Chico, Chico”, um tema da autoria de Vilar da Costa e Nóbrega de Sousa, letra e música respectivamente, que foi gravado por Amália Rodrigues em 1969. Público a entrar no ambiente festivo da música e a acompanhar no refrão. Neste tema, juntou-se em palco, João Balão na percussão.

 

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“Dia Estranho”, “Amigo João” e “Maria Triste”, continuavam o acentuar o crescimento do espectáculo em termos dinâmica e mostravam uma fadista cada vez mais solta e ainda com mais “Garra” em palco. Em “Ausente”, de Jorge Fernando e Custódio Castelo, a fadista vincou que vida de artista nem sempre é fácil pois embora ganhem dinheiro, sejam aplaudidos e idolatradas, há o lado negativo, a ausência dos que mais gostam, da família. Interpretou com grande carga dramática o tema, naquela que foi a primeira vez ao vivo. Brilhante!

 

 

“Limão, Verde Limão”, “Saudades do Brasil em Portugal” e o desvendar de um tema do novo disco que está a caminho, “Lavadeiras de Caneças”, antecederam o “Bailinho à Portuguesa” com que seria o encerramento do espectáculo.

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Filipa Cardoso tinha o público consigo à muito, os aplausos eram prolongados e de pé, que obrigaram a regressar para encore.

 

 

Na frente palco e ladeada pelos seus músicos, cantou sem microfone, o fado menor, para depois terminar em festa com um medley de marchas populares. Um término em grande, uma inteligência na construção de alinhamento incrível e um espectáculo para memória futura. Daqui a 50 anos, haverá quem se sinta privilegiado por viver numa época em que pode ouvir vozes assim!

 

 

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Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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