Filipa Sousa: “Este disco aborda o fado com uma forte influência pop”

 

 

‘Acreditar’ é o primeiro disco de Filipa Sousa e que agrega em si um percurso de 20 anos na música por parte da artista. Filipa Sousa concedeu entrevista ao Infocul, na qual aborda o conceito do disco, os desafios que o mesmo lhe colocou, a escolha de repertório, a escolha dos músicos, o que pretende em termos de carreira, quem a inspirou e ainda um lado mais pessoal.

Num disco em que destaque a capacidade vocal e interpretativa de Filipa Sousa, há ainda a realçar o piano e as teclas de Valter Rolo, as guitarras portuguesas de Bernardo Couto e Ângelo Freire, a bateria e as percussões de Vicky Marques, o baixo de Xico Santos e os convidados especiais Pedro Soares na viola de fado, João Frade no acordeão e João Rocha no fliscorne.

A secção de cordas em alguns temas, que resulta magistralmente, é dirigida pelo maestro Lino Guerreiro (que reparte com Valter Rolo os arranjos para este naipe instrumental) e constituída por Romeu Madeira, José Pereira, Ana Pereira e Carolina Damásio nos violinos, Joana Cipriano e Sérgio Sousa nas violas d’arco, Tatiana Leonor e Carolina Rodrigues nos violoncelos.

O disco é abrangente na vertente musical, resultando na absorção vivencial e musical de Filipa Sousa ao longo do percurso na música, no qual por exemplo ganhou um Festival da Canção, uma Grande Noite do Fado do Algarve e ainda foi finalista no talent-show Operação Triunfo.

 

O primeiro disco ao fim de 20 anos de percurso. Porquê este tempo?

Cresci a cantar vários estilos, dediquei-me a diferentes projectos, eu queria era cantar! Para gravar um álbum era necessário encontrar-me musicalmente, mas eu não conseguia optar por um único estilo, nem tinha maturidade para arriscar ao nível que arrisquei agora. Estava confiante que todas as experiências a que me propunha me iriam encaminhar na direcção certa. Um dia acordei, senti que era o momento e tudo fluiu de uma maneira fantástica! 

‘Acreditar’ tem sido o segredo para as várias etapas que foste ultrapassando?

Em tudo na vida é preciso acreditar. Se nós baixarmos os braços e desistirmos dos nossos sonhos dificilmente vamos obter resultados.

Finalista da Operação Triunfo, em 2007; Vencedora da Grande Noite do Fado do Algarve, em 2008; Vencedora do Festival da Canção, em 2012. Qual a importância destes momentos na tua carreira?

Eu já havia concorrido à 2ª edição da Operação Triunfo, cheguei ao último casting, em que dos 30 “sobreviventes” escolheram 20 finalistas para integrarem o programa. Como se costuma dizer: “morri na praia”. Mas não desisti e voltei a concorrer na edição seguinte; entrar no programa foi, acima de tudo, uma grande conquista pessoal. Aconteceu o mesmo com o festival da canção, em que já havia enviado músicas 3 ou 4 anos seguidos e nunca me seleccionaram. Participar no Festival era um sonho de criança, mas nunca me passou pela cabeça que a Eurovisão fosse uma possibilidade. A vida tem-me elevado muito acima das minhas expectativas!

 

 

 

Em relação a este disco, é possível catalogá-lo em termos de género musical?

Este disco aborda o fado com uma forte influência pop. Não consigo catalogá-lo, cada tema é diferente, uns mais fado, outros mais pop, outros a puxar outras sonoridades… Creio que conseguimos a fusão que eu pretendia, sempre com o fado como pano de fundo.

Quando começaste a pensar neste disco?

Em Março de 2017 houve um dia em que acordei inspirada… E soube que estava na altura! 

O Valter Rolo assume a produção musical. Porquê a escolha?

Conheci o Valter depois da Eurovisão. Na altura mostrou interesse em trabalharmos juntos, mostrou-me alguns dos seus trabalhos e gostei bastante dele enquanto pessoa e profissional, mas não me sentia preparada para gravar. Assim que eu decidi que estava na altura o nome dele surgiu de imediato, liguei-lhe, e 2 dias depois estávamos a começar a trabalhar no disco. 

Paulo Abreu Lima assina três temas, em termos de letra, incluindo o tema que dá nome ao disco. Na minha opinião é dono de uma sensibilidade rara. Qual a importância de o teres neste disco e quando surgiu essa possibilidade?

O Valter arranjou-me alguns contactos, fizeram-me letras muito bonitas, mas eu sempre fui muito exigente e não me identificava com o tipo de escrita ou o tema… E aí o Valter “elevou a fasquia”, deu-me mais alguns contactos, nomes que à partida seriam quase impossíveis… Mas afinal, tudo é possível! O Paulo é um amor de pessoa, com uma sensibilidade fantástica. Ainda não tive o prazer de o conhecer pessoalmente, mas foi incansável, ligou-me imensas vezes durante o processo de escrita, para pedir a minha opinião, com novas ideias… acho que ganhei um amigo pra vida!

Contas ainda com Tiago Torres da Silva, Pedro da Silva Martins, Carlos Leitão, entre outros. Foram todos escolhidos por ti ou houve propostas deles? Como foi a escolha dos poemas?

À semelhança do Paulo Abreu Lima, foram todos sugestões do Valter Rolo. À excepção do “Grito do Amor” (Tiago Torres da Silva), que era um tema que o Valter já tinha e estava perdido na gaveta, todos os outros autores fizeram as letras com base na composição musical já feita até ao momento. Apaixonei-me por todas as letras do disco à primeira. No caso particular do Pedro da Silva Martins fiquei fascinada como é que alguém escreve 2 letras tão distintas (“Depois” e “Miradouro, o filme”), conceitos completamente diferentes, mas tão bonitas e que casaram na perfeição na harmonia e na essência das músicas.

Surpreendentemente, ou não, há uma letra de Pedro Granger. Como surge este ‘Abraço’ no disco?

O Pedro fez parte da nossa comitiva da Eurovisão e ficámos amigos. Durante o processo inicial de arranjar as letras, entre a demora de alguns autores e a minha indecisão, lembrei-me dele, pois já escreveu para muitos cantores. Duas horas depois de lhe enviar a música eu tinha este “abraço” na mão…

Filipa, assinas também ‘Nossa Senhora da Orada’. Quando surge o gosto pela escrita?

Ao entrar na adolescência escrevia muitos poemas. Pouco tempo depois surgiram vários festivais da canção regionais e, como naquela altura tinha uma banda, ainda fizemos 5 ou 6 músicas inéditas (curiosamente ganhámos prémios com todas elas). Gosto de escrever, mas é um processo complicado… se bloqueio com uma palavra, começo a stressar e desisto… a menos que tenha a pressão de ter que entregar a música dentro de um ou dois dias (como era o caso na maioria das vezes), e aí a letra surge! Foi o que aconteceu com “Nossa Senhora da Orada”, na véspera do ensaio geral acordei a meio da noite com a letra e a melodia na cabeça…

Este tema é um retrato da tua fé? Qual a importância da fé no teu percurso?

Independentemente da religião de cada um, penso que toda a gente tem fé em algo, algo maior onde vamos buscar forças, que nos faz ter esperança. Este tema é acima de tudo uma homenagem à minha terra, outrora terra de pescadores.

 

 

Em ‘O Grito do Amor’ cantas “O Grito do Amor/O Grito mais lindo/O grito que apaga/A dor de ficar sozinho”. És uma mulher que se entrega facilmente ao amor?

Há muitas formas de amar! Sou uma mulher de “instintos” e quando esse instinto gosta de uma pessoa, eu confio. Por isso não é difícil entregar-me ao amor. Aconteceu com alguns dos meus melhores amigos, aconteceu com o meu marido… Atirei-me de cabeça… E até hoje ainda não me arrependi de confiar no meu instinto! Mas de todos os amores que há na vida, sem dúvida nenhuma que o amor mais arrebatador é pelo meu filho!

Actualmente, numa era digital, achas que as pessoas valorizam suficientemente as emoções?

As pessoas hoje em dia valorizam emoções fáceis, sem sacrifício, vemos cada vez mais relações “descartáveis”. As redes sociais tornam tudo mais acessível, para o bem e para o mal. Já pouca gente tem paciência para se apaixonar a sério, para lutar por uma relação. 

Em ‘Depois’ cantas “Depois de ti quem serei?/Só, eu não sei estar aqui/Pois cada passo que dei/Foi para chegar a ti”. Quando termina o ‘nós’ e fica apenas o ‘eu’ é doloroso?

O fim de uma relação é sempre doloroso para ambas as partes.

Como se ultrapassa o fim de um amor?

Acho que o melhor remédio chama-se “Tempo”… Dar tempo para “digerir”, para perceber o que correu mal e para aprender, acima de tudo, a valorizar o nosso bem estar e fortalecermos-nos. Tudo na vida tem uma razão de ser. Há que tentar ver o lado positivo e “usar a dor” para crescer.

 

 

 

Recuperas alguns clássicos e ainda o tema que ganhou o Festival da Canção em 2012. Era imprescindível estar no primeiro disco?

“Vida Minha” foi um marco muito importante, faz todo o sentido estar aqui!

Quem são os músicos que te acompanham nesta aventura?

A base deste trabalho foi gravada com o Valter Rolo (teclados e produção musical), Xico Santos (baixo), Ângelo Freire e Bernardo Couto (guitarra portuguesa) e Vicky Marques (bateria e percussões). Alguns temas tiveram a participação dos mixEnsemble: Maestro – Lino Guerreiro; Violinos – Romeu Madeira, José Pereira, Ana Pereira, Carolina Damásio; Viola de arco – Joana Cipriano, Sérgio Sousa; Violoncelo – Tatiana Leonor, Carolina Rodrigues. Depois convidei para participações pontuais Pedro Soares (viola de fado), João Frade (acordeão) e João Rocha (Flugel).

Optas por dois guitarristas, o Ângelo Freire e o Bernardo Couto. Distintos no estilo mas semelhantes na qualidade. Porquê a escolha de cada um deles?

Ambos foram sugestão do Valter Rolo. Como já conhecia o Ângelo há vários anos (acompanhou-me algumas vezes em espectáculos com o grupo Al-Mouraria), era uma proposta irrecusável. Como gravámos o disco em duas fases, o Ângelo gravou os primeiros temas e o Bernardo gravou a segunda parte do disco. Fiquei muito feliz com o resultado, ambos têm um talento incrível mas com sonoridades tão diferentes.

É mais difícil esperar ou acreditar? Isto por ‘apenas’ ao fim de 20 anos de percurso lançares o primeiro disco.

Eu nunca fiquei parada à espera… Fiz muita coisa, mas sei que podia ter feito ainda mais, podia ter acreditado mais. Todos os projectos que participei me deram algo de bom e essa bagagem é que me trouxe até aqui, foram essas experiências que mantiveram viva a vontade de aqui chegar!

 

 

 

 

Quem é a Filipa Sousa fora dos palcos e o que gosta de fazer?

Fora dos palcos gosto de estar no meu cantinho, de passar despercebida. Gosto de viajar, de passear junto à praia ou ficar sentada a olhar o mar, jantares com amigos, estar em família… 

Quem são as tuas grandes referências na música?

Por volta dos 11 ou 12 anos apaixonei-me pela voz da Whitney Houston e foi com temas dela que comecei a cantar mais a sério e a participar em concursos de karaoke. Na altura entrei também para o conservatório de música, pelo que o clássico também começou a fazer parte da minha vida. Depois veio o “bichinho” do fado, mais ou menos pela altura do lançamento do primeiro álbum da Mariza, a Ana Moura, Mafalda Arnauth… A Marisa Liz (inicialmente com os Donna Maria e mais tarde nos Amor Electro)… Sempre ouvi de tudo um pouco, pelo que as minhas referências são muitas!

Qual o maior sonho na música?

Poder cantar toda a minha vida, de preferência com  muito trabalho, muitos projectos e muitos palcos!

Há alguém com queiras muito fazer um dueto?

Tanta gente! Inicialmente tinha pensado em incluir um dueto no álbum mas as músicas já estavam delineadas, era preciso escolher o tema, convidar alguém com que eu me identificasse e cuja voz se adequasse ao registo vocal do tema. Acabei por fechar o álbum sem nenhum dueto mas quem sabe se não regravo ainda um dos temas? 

Quais os espectáculos que queiras já anunciar?

Para já temos confirmada a apresentação do álbum no dia 23 de Fevereiro no Auditório Municipal de Albufeira.

 

 

Em termos de redes sociais, qual a importância delas e quanto tempo lhes dedicas?

Hoje em dia as redes sociais têm um peso muito importante na divulgação de um artista ou de qualquer outra figura pública. O nº de likes ou seguidores já vai sendo sinónimo de sucesso, mas para alcançar esses números é preciso despender muito tempo, abordar conteúdos interessantes, ser criativo e criar publicações apelativas que mantenham o interesse dos fãs. Eu confesso que não tenho muita paciência nem jeito para isso, mas de vez em quando lá faço um esforço!

Qual a mensagem para os leitores do Infocul?

Ouçam música portuguesa, ajudem a divulgar o que é nosso! Sejam felizes! E já agora, nunca deixem de Acreditar!

 

 

 

 

O espectáculo de apresentação deste disco será a 23 de Fevereiro no Auditório Municipal de Albufeira, a partir das 21:30. Em palco estará Filipa Sousa, acompanhada por Valter rolo (teclados), Tiago Sequeira (teclados), Vasco Ramalho (bateria), Bruno Vitor (baixo), Rafael Pacheco (guitarra portuguesa), Lino Guerreiro (saxofone), Romeu Madeira (violino), Carolina Damásio (violino), César Nogueira (viola d’arco) e Ana Hespanha (violoncelo).

 

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: Rita Carmo

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