Francisco Moreira apresenta ‘Todos os Fados São Meus’: “Um disco mais maduro, mais nostálgico, mais “fadista”

Francisco Moreira acaba de lançar o disco “Todos Os Fados São Meus”. Este é, na minha opinião, um disco maduro de um jovem cantor. Francisco Moreira concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual aborda o seu percurso no Fado e, claro, destaca este disco.

 

O disco é uma forte homenagem à tradição, cantada por um jovem dos tempos de hoje. Francisco Moreira tem sobre si, bem como outro jovens talentosos, o peso da tradição nos tempos vindouros. E neste disco ficamos com a esperança, porque certezas nunca existem, de que está no caminho certo.

Conta nas guitarras portuguesas com João Martins e Miguel Amaral (este segundo na interpretação de um tema por si composto), na viola com André Teixeira e no contrabaixo com Filipe Teixeira.

 

O público pode assim, em tempos de confinamento, usufruir de “Todos os Fados são Meus”, um disco que merece ser ouvido e entendido. Quanto ao Francisco Moreira, é um jovem nortenho mas que carrega em si a alma lusitana sem barreiras geográficas, numa arte chamada Fado.

 

Quando começou a pensar neste disco?

Este disco começou a ser pensado há cerca de um ano, quando comecei a trabalhar profissionalmente nas casas de fado aqui do Porto, a “Casa da Mariquinhas” e o “Páteo da Mariquinhas”. Marca, por isso, o início de uma nova etapa para mim, porque é o primeiro da minha idade adulta, e achei que fazia todo o sentido fazê-lo nesta fase.

 

Qual a sua primeira memória de fado?

A minha família sempre foi ligada à música, e quando festejávamos o aniversário de alguém aqui em casa ou nos juntávamos simplesmente para jantar com alguns amigos, havia um senhor, que pertencia ao rancho folclórico onde andávamos, que tocava viola e cantava. Era o Sr. Barros. E numa dessas noites, ele cantou uma canção muito bonita, que mais cedo vim a descobrir que era um fado, a “Lenda da Fonte”.

 

Embora jovem, já tem uns anos de percurso no Fado. Lembra-se da sua primeira actuação e qual o primeiro fado que cantou em público?

A primeira actuação a cantar fado de que tenho memória foi precisamente acompanhado pelo Sr. Barros, a cantar o fado que ouvira da voz dele, a “Lenda da Fonte”, e foi no centro comercial Venepor, na Maia.

Com o Sr. Barros, curiosamente, a cantar a “Lenda da Fonte”

 

O que demonstra este disco sobre o Francisco?

Este disco demonstra acima de tudo uma vontade muito grande de inovar, de arriscar e de responder ao público que desde muito cedo me tem acompanhado. O último havia sido lançado em 2016 e muita coisa aconteceu desde aí. Eu mudei, a minha voz mudou, a minha vida mudou e a minha forma de interpretar e sentir a vida, a música e o fado mudou. E penso que este disco representa essa mudança, essa transição que aconteceu em mim. É provavelmente um disco mais maduro, mais nostálgico, mais “fadista”.

 

Durante muitos anos foi anunciado como Kiko. Agora é Francisco Moreira. Esta mudança é também uma mensagem de que já não é um miúdo?

Não necessariamente, porque aos olhos de muitos, com 20 anos, ainda serei um miúdo. A “mudança” de nome deve-se mais a uma questão de gosto pessoal do que propriamente à intenção de enviar uma mensagem.

 

15 temas neste primeiro disco. Arrisca também na escrita. É mais fácil cantar ou escrever? Pergunto-lhe isto porque o Fado tem uma série de ‘regras’…

Custa-me sempre um pouco definir como “fácil” ou “difícil” alguma coisa envolvida no processo artístico, quer seja cantar, tocar, compor ou escrever, porque acho que é muito relativo. O que é fácil para mim pode ser difícil para outro e vice versa. Agora, provavelmente, para mim o que sai mais naturalmente e de forma mais espontânea é a parte de cantar, porque escrever está sujeito a um determinado número de factores, sensações e mesmo o próprio ambiente em que me encontro. Depois, acresce a questão das “regras” de escrita no Fado, pelas quais temos obviamente que ter respeito e que aumentam a complexidade e rigor que temos que impor nas letras. Por isso, para ir de encontro à sua pergunta: se calhar é mais fácil cantar!

 

Como descreve este disco?

É um disco de fado tradicional, com várias adaptações e alguns originais. As adaptações são de fados pertencentes a cantores e autores que eu aprecio muito e que de certa forma definiram o meu percurso e a forma como aprendi a gostar de fado. Os originais foram feitos por amigos, que admiro muito e que me têm ajudado muito no meu percurso, como é o caso do António Laranjeira, Marco Oliveira, do João Martins, do André Teixeira e do Miguel Amaral. Por gostar tanto da questão da mensagem que no fado nos é possível passar, este disco contém, na íntegra, poemas com os quais me identifico, palavras e temas que eu sinto e que me fazem, mais do que cantá-los, sentir-me parte das histórias que contam.

 

É de Vila do Conde. Há quem diga que o Fado é de Lisboa. Tem sido complicado entrar no meio fadista?

O Fado é uma canção de Portugal, não é de Lisboa. O Fado pode ter nascido em Lisboa, pode ter o seu “epicentro em Lisboa” e pode ter o maior número de público em Lisboa, mas a verdade é que o Fado representa a identidade de todo um povo. É canto da alma, fala português e nunca podemos esquecer que onde bate um coração português,canta-se sempre um fado. Em Lisboa ou em qualquer outra cidade do país. Aquilo que acontece, é que pelo facto de a maior parte dos fadistas estarem residentes em Lisboa, se instale uma ideia, na minha opinião questionável, de que o “meio fadista” só existe em Lisboa. Eu nasci, cresci e vivo na cidade do Porto, e sempre fiz grande parte da minha carreira na cidade do Porto, há 5 ou 6 casas de fado profissional no Porto. Temos salas de espetáculo lindíssimas como a Casa da Música, o Coliseu, o Teatro Sá da Bandeira, ou o Teatro Municipal. Temos coletividades com muita história e tradição, e temos gente que gosta de fado e acarinha os seus artistas. E a verdade é que, mesmo aqui no Porto, embora muitas pessoas não saibam, há de facto um meio fadista bastante numeroso e muito representativo da cultura da cidade e da região.

 

Qual a história mais caricata que tenha acontecido durante a gravação do disco?

Acho que a história mais caricata ainda está neste momento a acontecer. Esta situação da pandemia coincidiu exatamente com a altura de lançamento do disco. A data prevista de lançamento do disco em concerto era 14 de Março e o estado de emergência no nosso país foi decretado a 18 de Março. Foram meses e meses de trabalho, a planear tudo, e de repente acontece esta situação e foi tudo ao ar! Mas o fundamental é o bem estar de todos e a segurança, e embora não pudessemos ter escolhido uma altura mais adversa para iniciar o projeto, temos que pensar no melhor para todos, e não só para nós próprios.

 

De que maneira esta pandemia afectou o seu trabalho e a promoção do disco?

Um dos setores de atividade que esta pandemia mais afetou e ainda vai afetar é o setor do turismo, setor esse com o qual nós fadistas trabalhamos de forma direta. Como deve imaginar, quando tudo isto começou, fomos dos primeiros a vir para casa, estando neste momento à espera da retoma. Quanto à promoção do disco tenho a felicidade de trabalhar com a Cristina Pereira e a Paula Cabeçadas, que estão a fazer um trabalho notável, e que mesmo com esta situação toda, se têm esforçado para que, mesmo com trabalho dificultado, o disco chegue às pessoas. Para além disso tenho muita sorte por ter o apoio da Rádio Festival, dos meus músicos e da Banzé Editora, que também têm divulgado este projeto da maneira que lhes é possível. Para além disso, tenho que agradecer a toda a gente que através das redes sociais me tem dado o seu feedback do disco.

 

Onde poderão as pessoas ter acesso ao disco e entrar em contacto consigo?

O disco está disponível em todas as plataformas digitais, como o Spotify, o Itunes ou o Youtube, e as pessoas podem acompanhar todo este trabalho nas minhas páginas oficiais do Facebook (Francisco Moreira) e do Instagram (@franciscomoreirafado).

Disco: “Todos os Fados São Meus”

Gravação, mistura e masterização: Quarta Vaga Produções

Fotografias: Krystallenia Batziou

Design Gráfico: Yuri Reis

Alinhamento:

1- Todos os Fados São Meus (António Laranjeira/André Teixeira)

2- Tinha o nome de Saudade (João de Freitas/Raúl Pinto)

3- Anda o Fado noutras bocas (Artur Ribeiro)

4- Gostei de ti (Guilherme Pereira da Rosa/Jorge Costa Pinto)

5- Se eu entrasse em desespero (António Laranjeira/João Martins

6- E de repente um adeus (Marco Oliveira/Pedro Rodrigues)

7- Fechei as portas à vida (Artur Ribeiro/ Franklim Godinho)

8- Ser feliz só por sonhar (António Laranjeira/Miguel Amaral)

9- As Andorinhas (Amadeu Ramim)

10- Apagou-se a chama (Conde Sobral/Joaquim Campos)

11- Rosa da Mouraria(Frederico de Brito/Martinho d’Assunção)

12- Num só verso (Francisco Moreira/João Martins)

13- Fado é Saudade (Aníbal Nazaré/Carlos Rocha)

14- Longe de Ti (Manuel de Almeida/Martinho d’Assunção)

15- Andei á tua procura (João Linhares Barbosa/Fado das Horas)

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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