Frankie Chavez: “Prefiro fazer uma coisa que para mim é verdadeira e que não está na moda”

frankie chavez

 

Três anos depois de Heart & Spine (2014), Frankie Chavez está de volta com um novo álbum, uma prova de fogo onde aposta todo o seu potencial num conjunto de canções influenciadas pelo contexto social dos nossos dias. Este novo disco foi o ponto central de uma conversa que o músico teve com o Infocul, na Universal Music Portugal, a editora deste trabalho.

 

 

Além de Poli Correia e Benjamin, Frankie Chavez contou ainda com outros colaboradores, nomeadamente João Correia e Donovan Bettencourt, que formam a sua banda, e ainda o baterista e produtor Fred Ferreira e o teclista Paulo Borges, que trouxe alguns ambientes mais psicadélicos a estas novas canções.

 

 

Foi uma coisa muito natural, penso eu, no sentido de que eu não me esforcei nada em escrever músicas. Esforcei-me sim a arranjar, depois de as músicas terem aparecido, que aparecem de uma forma espontânea. Uma aqui, outra se calhar uma semana depois, outra se calhar dois meses depois. Quando eu vi que tinha ali um conjunto de músicas, forcei-me sim a tentar fazer os arranjos melhores que consegui. Eu e a banda, para essas músicas. Isso já foi no último ano. As músicas foram sendo escritas desde 2015, passaram a aparecer umas coisas em 2016, por ai. Até à última da hora foram coisas feitas mas em Abril de 2016, no ano passado, foi quando eu comecei a fazer uma pré-produção, ainda em casa, de alguns temas. Gravámos algumas coisas que acabaram por ficar no disco e depois, em estúdio mesmo, foi entre Agosto e Janeiro” revela sobre o trabalho de escrita e  composição.

 

 

 

Vão sempre surgindo, inclusive músicas que fomos tentando recuperar. Há uma que ficou de fora e que se calhar vai entrar no próximo. As coisas foram acontecendo de uma forma natural, aparece uma aqui, aparece uma ali. Uma letra, uma música, e portanto só mais para a frente, em 2016, é que começaram os arranjos e como criar as minhas canções e os arranjos com os outros músicos” diz-nos quando questionado se tinha começado a ter ideias para este disco, logo após o lançamento do penúltimo trabalho discográfico.

 

 

Acho que preocupámo-nos em não obedecer tanto a regras de tempo das músicas, estrutura das músicas… Algumas músicas começam de uma maneira e acabam de outra… Músicas mais compridas… Tentámos fazer uma coisa que nos desse gozo tocar ao vivo, principalmente, e ouvir. Eu acho que este disco, o outro também mas se calhar este mais, está mesmo pronto para ser tocado ao vivo. Acho isto também porquê? Também porque o “Heart & Spine”,eu gravei em duo, eu e o João Correia, e tivemos muito tempo a tocá-lo em duo e há canções do “Heart & Spine” que perdem… Há outras que são perfeitas. Tem mais instrumentos mas nós conseguimos readaptá-las para o grupo. Neste disco, gravámo-lo em trio, fechados numa sala. Aquilo de qualquer maneira que a gente o toque, em qualquer palco, nós conseguimos tocá-lo e, por outro lado, depois de termos acrescentado um quarto elemento que é o Paulo Borges nas teclas, depois do trabalho dele pensamos, “Isto não fazia sentido se ele também não viesse”. Fomos tocá-lo em quarteto. Eu acho que este disco está mesmo aquilo que nós vamos fazer e ouvir vai ser mesmo próximo daquilo que está no disco. Não vai haver grandes adaptações” explica quando questionado sobre as diferenças deste disco para o anterior.

 

 

Vão desde coisas muito pessoais a coisas muito generalistas mas, sei lá, eu falo de estar bem resolvido na situação em que estou com a família que tenho e no sitio em que estou… Sei lá… Temas mais pessoais relacionados com a morte, com o nascimento. Tive entretanto duas gémeas. São no fundo desde coisas muito pessoais a coisas que, sei lá, que aconteceram à minha volta e fizeram-me de alguma forma sentir alguma coisa como por exemplo os atentados no Bataclan. É portanto aquilo que me vai rodeando, é quase como uma máquina que recebe os ingredientes e depois traduzes para o papel” explica-nos sobre as mensagens que pretende transmitir neste novo disco.

 

 

 

Sou um músico mais cansado e com menos tempo mas eu acho que sim (risos). Eu acho que a música que sai de dentro de mim, se eu fizesse um paralelismo com a maquina de café, onde metes a cápsula com o café em pó e depois sai o café liquido… Comigo é a mesma coisa. Eu acho que as coisas que eu vou vivendo e que me vão influenciando enquanto pessoa também vão reagindo enquanto músico. Se calhar, se eu não tivesse tido gémeas não tinha tido uma musica que se chama “Double or nothing” e o álbum não tinha tido esse nome, por exemplo. E lá está! A fase do cansaço, que é verídico, elas nasceram em Abril, eu estava já na pré-produção e depois entrei em Agosto em estúdio…Pá, eu não dormia e ia para estúdio…e se calhar a maneira como toquei, como eu abordei as coisas acho que também foi influenciado um bocado por esse cansaço e dessa vida que eu estava a viver na altura” diz-nos com um ar bem disposto sobre a influência que a paternidade teve em si enquanto músico, ele que teve recentemente gémeas que se juntaram aos dois filhos mais velhos.

 

 

Lembro-me de ter dito isto já no “Heart & Spine”, que me terem feito essa pergunta e de ter dito ‘tá como nunca teve’ e acho que ainda está melhor hoje em dia” confessa sobre o que pensa sobre o actual momento da música em Portugal/feita por portugueses antes de acrescentar que “com isto não quer dizer que eu gosto de tudo aquilo que se faz, acho é que de modo geral, tudo aquilo que está a ser feito está a ser muito bem feito, inclusive os géneros de música que eu posso gostar menos ou…aqueles que eu gosto mais acho que está tudo muito bem feito. Há dois ou três músicos que eu considero mesmo das melhores coisas que já passaram, como o Samuel Uria, por exemplo, Benjamim, sei lá… Sem querer estar a esquecer-me de mais alguém mas esses dois são aqueles que a cantar em português são daqueles que eu gosto mais”.

 

 

Não querendo cair naquilo que o Salvador Sobral disse que daqui a se calhar três meses já ninguém se vai lembrar do que aconteceu, eu acredito que aquilo que ele fez e a musica que ganhou, que é uma música incrível, muito bem escrita, muito bem feita, no meio e da forma como ganhou acho que pode fazer isso que acabaste de dizer que é mudar um bocadinho a opinião que as pessoas, a nível europeu, tenham sobre a musica que é feita em Portugal que se calhar já há muito tempo nós, eu, tu e a malta que vive cá há muito tempo que sabe que a música portuguesa não é só fado e que há muito mais coisas, muito diversidade a nível do rock ou do hip-hop, o hip-hop então é incrível. Isto também tem a ver com a altura em que se vivem as coisas. Em 2017 há uma altura em que se gosta mais de hip-hop, já há uns anos para cá que o hip-hop tem sido muito mais forte do que em outras gerações” disse-nos sobre o impulso que a música portuguesa poderá ganhar com a vitória de Salvador Sobral no Eurovisão.

 

Com um novo disco editado, quisemos saber quais os festivais de verão onde Frankie Chavez irá actuar, tendo o músico revelado que “neste momento acho que só há um festival, que é o Bons Sons, que é um festival onde nunca lá estive e adorava ir mesmo como assistente e como músico. Finalmente este ano vou lá. Não estou noutros se calhar um bocadinho pelas modas do género de música que se ouve e o género de música que eu faço. Tenho noção…prefiro fazer uma coisa que para mim é verdadeira e que não está na moda e se calhar não vai ser ouvida do que fazer uma coisa que não é verdadeira mas pode aspirar a ser ouvida”.

Em Lisboa terá duas datas em Outubro, no Teatro da Trindade, sendo que para esses espectáculos, “confesso que ainda não pensei muito nisso. Ainda temos que rodar bastante para depois conseguirmos pelo menos nós os 4 tocar o disco na integra bem. Nem sei se vai sequer ser o disco na integra. Calculo que teremos muitas musicas do disco mas não quero deixar cair possivelmente as outras músicas. Até porque o disco é um disco curto e temos que encaixar mais qualquer coisa mas possivelmente quererei trazer algumas pessoas que estiveram envolvidas nestes disco, tais como o Benjamim, que produziu o primeiro single, “My Religion”, o Fred Ferreira que produziu o resto do disco e que anda muito comigo e com a banda e que inclusive também gravou um tema, se não estiverem em palco quero tê-los comigo a assistir o concerto mas possivelmente que toquem em palco” desvendou.

 

 

Fora do palco, em termos de pessoa não estou com uma guitarra na mão mas   não sou muito diferente porque eu toco as coisas que fazem de mim aquilo que eu sou. Sou o Frankie Chavez e sou pai de 4 filhos, duas gemeas e dois rapazes” acrescentando que gosta de “estar com os meus filhos, fazer surf, ler. Ter tempo… isso é uma coisa que eu gostava mesmo de ter mais tempo que é uma coisa não tenho muito. Eu antes ouvia isto e dizia ‘o pessoal não se organiza. O dia é tão grande, 24 horas’. Mas pá, tenho que me habituar e tenho que conseguir ir buscar tempo a algum lado” diz-nos não evitando um largo sorriso.

 

 

Acha Portugal um país inspirador e pensa que “não é preciso ir lá fora para ser conhecido cá dentro. Há vários exemplos disto. Temos, que eu saiba, o Miguel Araújo nunca esteve lá fora e no entanto é um show. Acho que tem muito a ver com a música que se faz, se há público ou se não há público e, obviamente, com a qualidade. Pegando no exemplo do Miguel Araújo, aquilo que faz, fá-lo muito bem feito. Agora, confesso que há géneros de música que possivelmente é mais difícil”.

 

 

Devem comprar, eu sou muito honesto, para ouvirem música real. Estou a falar da minha, deste disco, não estou a falar dos outros todos. Este tem música real. Quem gosta de rock e de blues vai gostar disto e são histórias de um músico português que já viajou e já tocou em alguns sítios e que continua a ser português e a fazer música em Portugal. Acho que é isso. Se gostarem de rock and roll, acho que é isso…” diz, quando incentivado a convencer o público a comprar este disco.

 

 

 

O músico descreve este disco como “verdade”, quando por nós convidado a descrevê-lo numa única palavra.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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