Gala José Manuel de Castro: A solidariedade existe? Público faltou à chamada…

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A Aula Magna em Lisboa foi este domingo palco da Gala José Manuel de Castro, num espectáculo solidário para com um dos nomes maiores do Fado, mas que teve uma fraca adesão de público. Por entre o talento dos muitos artistas que se associaram à iniciativa, fica uma pergunta: Onde pára a tão falada solidariedade do povo português?

 

Numa Gala de solidariedade é esperado que as pessoas adiram. Que apoiem, para mais quando se trata de um nome da cultura, um nome maior do Fado. Não podemos dizer que a cultura está mal e nada fazer, nem sequer contribuir numa gala solidária. Posto isto, a solidariedade é um “quase” mito. Fica bem dizer mas ninguém a pratica. E o ditado já dizia “palavras leva-as o vento…” e Portugal maltrata os seus artistas!

 

 

Quem é José Manuel Castro? José Manuel Castro nasceu em Lisboa, mais propriamente no bairro de Alvalade, revelando desde cedo talento para a música. O seu primeiro disco surge na idade dos 18 anos, com a colaboração de Jorge Fontes. Neste trabalho discográfico constam temas de Jorge Fontes e Matos Maia. Participou em várias edições da “Grande Noite do Fado” no Coliseu dos Recreios e ao longo da carreira muitos foram os grupos musicais por si integrados. Chegou a acompanhar o que muitos consideram o “Rei do Fado”, Fernando Maurício e actuou em países como Inglaterra, Holanda, França, Itália, Espanha, Alemanha ou Suíça.

 

 

E Foi José Manuel Castro que abriu e fechou a gala. Foram dois momentos em que a emoção tomou conta das poucas pessoas presentes na “enorme” sala lisboeta. O carisma, a alma e a gratidão espelhada nos seus olhos valeram por toda uma tarde.

 

 

Muitos (perto de 90) artistas não quiseram faltar a tamanha homenagem e graciosamente actuaram num espectáculo que teve aproximadamente seis horas de duração. Do Norte ao sul do país, houve ainda quem viesse dos Açores e até de Espanha para dar um abraço e mostrar o seu apoio a um artista que neste momento passa dificuldades, ao nível da saúde e financeiro.

 

 

De entre os muitos artistas que actuaram há algumas actuações a destacar, pela sua qualidade, não menosprezando todos os que deram o seu contributo numa tarde de solidariedade.

 

 

Maria do Sameiro é Fado. Uma artista do norte que tem uma voz incrivelmente poderosa, que nos deixa fascinados pelo sentimento, pela intensidade que a sua actuação tem. Vanessa Alves é uma fadista tradicional ainda sem nenhum disco lançado mas com um percurso que dispensa apresentações. Foi figura no teatro de revista, é residente no Sr. Vinho em Lisboa e canta como poucos. Alma, garra, sentimento e uma entrega enormes ao fado. Em entrevista ao Infocul, destacou o homenageado como “alguém que me acompanha” desde o inicio de carreira e alguém por quem tem muito carinho. A fadista mostrava “” que a sala ainda tivesse mais pessoas. Infelizmente não aconteceu.

 

 

Nélson Lemos é um jovem fadista com um timbre próprio, afinado e que merece ser ouvido com mais atenção. Nesta gala a sua interpretação foi excelente. Lenita Gentil é ainda e sempre um nome grande e as suas qualidades continuam intactas. Luísa Rocha é de uma doçura na voz simplesmente encantadora. Ouvi-la torna-se puro deleite para os amantes de fado. Jorge Nunes é outro dos fadistas da nova geração que merece ser ouvido, de preferências muitas vezes, porque vale a pena. Afinação, colocação de voz e sentimento. Marco Oliveira de quem já escrevemos aqui no Infocul, é irrepreensível nas suas actuações. Filipa Cardoso esteve com garra e com a alma que a caracteriza. Por último, Sandra Correia voltou a mostrar que é das melhores vozes do Fado.

 

 

Contudo há também alguns pontos negativos a referir. O Fado como Património Imaterial da Humanidade é bom mas também perigoso. Bom porque se valoriza mais, porque finalmente atinge o patamar de mérito e excelência que representa na cultura portuguesa. Mau porque é fácil dizer “sou fadista”. Mas o Fado não se aprende na escola nem universidade, é algo natural. E não se deve forçar algo. Ontem alguns casos foram demasiados evidentes. Rosário Solano é uma artista espanhola que conseguiu destruir “Amor Marinheiro”. Péssimo, mau demais para se ouvir. Outros artistas optaram por gritar. Vale a pena dizer que o Fado não se grita, apenas se canta, ouve, toca-se, sente-se. E infelizmente ontem alguns optaram por gritar.

 

 

Contudo caberá ao público separar o trigo do joio. O que é bom do que não é. Não pensem que tudo é Fado porque não é. E esta nova geração antes de interpretar (é diferente de cantar) fado, tem primeiro que o sentir.

 

 

Uma palavra final para os instrumentistas. Foram geniais. Importante referir nomes como André Ramos, Miguel Ramos, Guilherme Banza, Nuno Lourenço, Luís Ribeiro, José Simões, Fernando Costa, Rui Pedro Claro, Sandro Costa ou Vítor Tiago.

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