Guilherme Banza, FF e Cidália Moreira em destaque na primeira noite de Caixa Alfama

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A quarta edição do Caixa Alfama teve no seu primeiro dia uma boa adesão de público que por entre ruas e vielas percorreu os vários espaços em que fadistas dos 8 aos 80 mostraram a sua valia, diferentes estilos, múltiplas formas de cantar o fado, mas todos eles valorizando a canção nacional, o Fado.

 

 

Numa primeira noite recheada de bons momentos e de talento, há a destacar dois espectáculos: Guilherme Banza no Auditório do Museu do Fado e Cidália Moreira no Adro da Igreja de Santo Estevão.

 

 

Pelas 20:00 subiu a palco no Auditório do Museu do Fado o guitarrista Guilherme Banza acompanhado por Bernardo Viana na viola de fado e Frederico Gato no baixo. Teve como convidados os fadistas: Luisa Rocha, Miguel Ramos e Cláudia Picado.

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Guilherme Banza é dos melhores actualmente na arte de dedilhar a guitarra portuguesa, contudo o seu talento nota-se também na composição de temas. A simplicidade das palavras dirigidas ao público contrasta com a arte de tocar guitarra portuguesa a quem trata por tu, conseguido uma cumplicidade que e alastra facilmente ao público, que no primeiro dia da quarta edição do Caixa Alfama esgotou o auditório. O guitarrista consegui momentos sublimes, sendo disso exemplo a exuberância do publico nos aplausos despendidos a cada tema.

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Importante salientar os seus dois companheiros de palco na parte instrumental. São também eles dois virtuosos, e um excelente suporte que permite a Guilherme Banza momentos em que apetece parar o tempo.

 

 

Os convidados trouxeram ainda mais qualidade a um espectáculo que de si já estava excelente. Todos eles interpretaram temas compostos pelo guitarrista, apresentando estilos interpretativos diferentes. Luisa Rocha torna-se prazeroso ouvi-la pela simplicidade dos gestos e força do canto. Bem conseguida a interpretação de “Não fales por falar”. Miguel Ramos tem um aparelho vocal muitíssimo bom e a sua voz permite-lhe facilmente modelar a intensidade e as notas alcançadas. Brilhante a “Vizinha da Frente” com letra de José Gonçalez. Cláudia Picado trouxe “Quando me chamas mulher”, com letra de Tiago Torres da Silva, que interpretou correctamente, mas sem o brilhantismo dos seus colegas.

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Neste primeiro dia e tendo sido dos primeiros espectáculos desta edição, podemos afirmar que o Caixa Alfama abriu com chave de ouro. Mérito de Guilherme Banza pela inteligência e arrojo do alinhamento apresentado, “Love of my life” do Queen foi um dos temas, e pela forma simples e eficaz como envolveu o público no espectáculo.

 

 

Cidália Moreira continua igual a si mesma e isso é absolutamente fantástico para o Fado. O seu espectáculo no Caixa Alfama deveria ser gravado e mostrado a quem ambiciona ter carreira no Fado. Uma voz limpa, segura e com a garra de sempre. Um humor inteligente e por vezes mordaz. O carisma que encanta e enlouquece quem a acompanha. Para o palco do Adro da Igreja de Santo Estevão, Palco Rádio Amália, apresentou um repertorio ecléctico que se iniciou com “Rezas”, seguindo-se a “Ternura dos 40”, em que anunciou que está prestes a completar 72 Primaveras no próximo mês. Feliz com a noite vivida em Alfama interpretou “Só à Noite”, para de Agostinho Mendes, poeta portuense já falecido nos trazer seguidamente “Quando contigo Vivi”.

 

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O público era cada vez mais e os aplausos subiam de intensidade. Cidália Moreira mostrou que continua a ser um dos nomes maiores da canção nacional. De Amália Rodrigues e com musica de Carlos Gonçalves interpretou com uma alma e entrega excepcionais “Lágrima”, para de seguida dedicar “Ardinita” a “todas as mães aqui presentes”. Polémica, cantou à capella (o momento da noite do Caixa Alfama), um tema de Marceneiro, que fala sobre a prostituição, “A viela”. Foi tão bem interpretado e os aplausos tão calorosos que no final Cidália solta a seguinte frase olhando para um cão que se encontrava diante do palco: “o cão é que não pode bater palmas, com vontade está ele”.

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Relembrou a sua passagem pelo Parque Mayer com “Mulher Guitarra” de João Vasconcelos e com letra de Mário Rainho e terminou em apoteose com “Romaria do Minho”. Com vista privilegiada sobre o Tejo, o concerto de Cidália Moreira trouxe o ambiente da Casa de Fados para a rua.

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FF actuou no Largo das Alcaçarias, palco Casa Ermelinda de Freitas e acompanhado por Pedro Soares na viola de fado, André Moreira no baixo e Ângelo Freire na guitarra portuguesa, esteve seguro, e em alguns momentos arrepiante na carga dramática imprimida aos fados.

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O seu último disco, “Saffra” viaja pela música tradicional portuguesa e a este espectáculo intercalou temas do seu disco com fados tradicionais. Uma escolha inteligente e que agradou ao público que esgotou o espaço. FF é das melhores vozes masculinas da actualidade. A verdade do seu canto é um bálsamo para a alma de quem o ouve. FF não é fadista mas sente o fado, fazendo da canção nacional a sua pele em palco. Que bom para Portugal ter um artista desta envergadura e com capacidades para palcos maiores. Quiçá numa próxima edição do Caixa Alfama. Do alinhamento a destacar “Loucura”, que apresentou numa versão bem conseguida e ainda “Gaivota” que colocou ao rubro a assistência.

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Marco Oliveira subiu a palco no Centro Cultural Dr. Magalhães Lima. Começamos por destacar negativamente o som. Na sua actuação houve demasiado “eco”, tornando-se em alguns momentos quase imperceptível o que cantava. No que acompanhámos do seu espectáculo, destaque para a suavidade e serenidade transmitidas pela sua voz, prejudicada pelo som. Acompanhado em palco por Ricardo Rocha na guitarra portuguesa e João Penedo no baixo.

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Regressámos ao Adro da Igreja para ver e ouvir Nathalie Pires. Conta com uma voz limpa e maioritariamente afinada mas peca por pouco transmitir a quem a ouve. O facto de a sua voz ser pouco encorpada não ajuda e sendo bastante jovem não tem ainda a “tarimba” que o palco e a experiencia transmitem. Acompanhada por Bernardo Couto na guitarra portuguesa, Bernardo Moreira no contrabaixo e ainda Ricardo Dias no piano, não soube “mandar” nos fados, sendo essa tarefa concretizada pelos músicos com a fadista a fazer o acompanhamento. O ponto mais negativo do seu espectáculo foi talvez em “Loucura”. Não soube transmitir a intensidade do poema, abusou no ataque às notas e fê-lo mal. Nathalie necessita libertar-se em palco e encontrar o seu caminho, a sua voz, o seu sentir o fado. Tem potencial para muito melhor do que apresentou no Caixa Alfama, não justificando a presença nesta edição.

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O Infocul falou ainda com o Administrador Executivo da Caixa Geral de Depósitos, Paulo Rodrigues da Silva, que nos começou por revelar que as expectativas “para o Caixa Alfama são sempre positivas” porque “a Caixa está onde os portugueses estão e os portugueses gostam do Fado”. Relembrou a importância da Caixa Geral de Depósitos para o país, o trabalho desenvolvido na cultura desde o fado às orquestras e passando pela Culturgest.  Depois de já existir o Caixa Alfama, o Caixa Ribeira e o Caixa Luanda, questionámos se haveria previsão para mais alguma cidade, tendo-nos dito que não há indicação, portanto “não vou dizer que vai haver ou que não vai haver”. Quanto à continuidade da Caixa Geral de Depósitos no Caixa Alfama referiu que “estamos muito satisfeitos com o Caixa Alfama e não vejo motivo para não continuar”.

 

 

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Fotografias de Gisela João e Ricardo Ribeiro da autoria de Alfredo Matos.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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