Helder Moutinho: “Há câmaras a cancelar concertos e apenas a descartar qualquer tipo de responsabilidade perante os agentes, inclusive com contratos assinados”

 

O fadista Helder Moutinho recorreu às redes sociais para deixar uma longa, e oportuna, reflexão sobre o período que vivemos e o impacto que isso terá no meio artístico e cultural.

Abaixo, transcrevemos na íntegra a reflexão de Helder Moutinho:

Não fiz nenhum tema a cantar, seja a meias com um músico como já fui convidado, seja no que for. Neste momento estou a fazer um voto de silêncio no que diz respeito à minha atividade enquanto Fadista. Poderei escrever, sejam poemas, sejam textos de reflexão, partilhar coisas que tenham a ver com a minha arte, no sentido de deixar uma mensagem de esperança, coragem e confiança para seguirmos as diretrizes da quarentena. Provavelmente em breve deverei fazer alguma coisa a cantar e para animar a malta, mas noutras circunstâncias. Neste momento, peço imensa desculpa, mas ainda não consigo. Não critico ninguém e até agradeço a quem o faz; sim cantem, toquem, façam o pino, contem anedotas para animar a malta. Eu próprio preciso disso e agradeço.

Enquanto fazem isso eu estou atento a dois grupos focados em ajudar a situação económica em que a cultura vai ficar. Fomos os primeiros a ser cancelados e vamos ser os últimos a recuperar. Nós os artistas, os técnicos, e todos os profissionais do mundo do espectáculo.

Isto não vai ser nada fácil, já há câmaras a cancelar concertos e apenas a descartar qualquer tipo de responsabilidade perante os agentes, inclusive com contratos assinados.

O turismo não vai regressar assim tão depressa como se pensa e os festivais e os espectáculos do verão vão ficar afetados.

Estou a pensar nos músicos e principalmente naqueles que ganhavam hoje para comer amanhã. Como é que eles estão agora neste imediato e como é que vão ficar depois disto tudo? Além de se tratar de uma coisa em que nós nunca pensámos, neste momento não se trata de nada senão de sermos solidários para com os próximos, especialmente porque grande parte dos próximos são os nossos amigos, alguns deles mais chegados.

Entretanto, vou vendo por aqui e por ali alguns comentários sobre a cultura tipo: isso agora não interessa nada e acho muito bem que seja de borla, as pessoas não têm dinheiro para comer quanto mais para pagar. Além disso o dinheiro é preciso é para ajudar quem precisa mesmo, como a saúde, o desemprego, a educação, etc. A cultura que fique para depois. Eu percebo muito bem o lado destas pessoas, mas será que sabem que 130.000 pessoas, pelo menos, fazem parte do mundo do espectáculo só em Portugal? Sabiam que apenas 1000 dessas pessoas vão ter condições para sobreviver nos próximos dois anos? Provavelmente 90% dos artistas atuais vão tentar deixar de ser artistas, mas vão fazer o quê?

Estamos quase todos em casa, uns a trabalhar, outros sem saber o que fazer. Quando não se trabalha, não se pode ir para a rua porque se não é o fim da Humanidade. Fazemos as lides da casa, arrumamos, limpamos, mudamos os móveis de lugar, e depois?

A Ver filmes (Cultura), a Ouvir Música (Cultura) a Ler um Livro (Cultura), a ver um espectáculo ao vivo na televisão ou na internet (Cultura). Pergunta: e se não tivéssemos isto, como era?

Durante a Segunda Guerra mundial o primeiro-ministro inglês Winston Churchill disse aos seus ministros o seguinte sobre o cancelamento da Cultura: “Já perdemos tudo, muitas vidas, a nossa dignidade, a nossa economia, os nossos filhos e os nossos pais. Se perdermos a cultura vamos perder a nossa identidade…”

A Indústria da Música nos últimos 20 anos mudou radicalmente. Durante essa mudança muitas empresas caíram e outras tiveram de se adaptar a outra realidade. Os homens que criaram a primeira plataforma de Streaming foram julgados e chegaram a ser presos (Naspter). Hoje o Streaming está-se a tornar na principal fonte de rendimento da indústria discográfica e bem. Naquele momento foi preciso oferecer e até deixar que nos roubassem para que as pessoas mais tarde viessem a pagar pela arte. Mais tarde foram criadas as novas plataformas de Streaming e o Youtube passou a render dinheiro por meios de marketing e publicidade. Foi criada a lei da cópia privada que fez com que 2 ou 3 por cento do valor de um smartphone fosse um imposto para as várias instituições gestoras dos direitos dos autores e artistas.

As pessoas acabaram todas por aderir e neste momento de uma forma ou de outra vão “patrocinando” a nossa sobrevivência.

Portanto, isto é um reflexo e até acho que todos temos de usar as nossas armas para transmitir o que é mais importante neste momento. Cantar ou tocar em casa não deixa de ser uma forma de dizer às pessoas para terem coragem e para respeitarem as regras que são tão importantes.

Temos de estar juntos, unidos e com bom senso no que vamos fazendo.

Mas, por favor, façam isso deixando também a mensagem de que é preciso contribuir para a cultura. Há meios para o fazer e é importante que sejam desenvolvidos e quando isso acontecer que sejam respeitados.

De vez em quando podemos ir dando o que temos para vender, mas temos de promover a nossa subsistência, que é o que nos faz estar aqui…

Estamos juntos… Em casa…

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