Henrique Leitão em entrevista sobre o disco ‘Reencontro’ : “Vivo preocupado com o que me rodeia”

 

 

‘Reencontro’ é novel disco de Henrique Leitão, celebrando assim 30 anos de percurso enquanto guitarrista, mas acima de tudo enquanto músico. Nascido em Lisboa, ‘arraçado de Alentejano’, e com sentido de humor apurado, concedeu entrevista ao Infocul que rapidamente transformou-se numa conversa e na qual falou sobre vários pedaços importantes da sua vida, que acabam por estar reflectidos neste disco.

O disco conta com 10 faixas, das quais 9 são compostas por Henrique Leitão, havendo uma homenagem a Ary dos Santos e Simone de Oliveira com o tema ‘Desfolhada’ ao qual deu novo arranjo musical. Conta com a participação de Paulo Paz e Luís Pontes (contrabaixo e viola, respectivamente) no tema ‘Praça do Comércio’ e faz homenagens a algumas das pessoas mais importantes da sua vida e a lugares que lhe são caros.

Nasceu em Lisboa, no ano de 1975, mas o seu coração pulsa ao ritmo e cadência Alentejana. Não, não é devagar. É intensamente, tão intenso quanto o poder visual que as longas planícies sem fim têm por que ao longe as avista. Aos 14 anos assume uma relação, até ver inquebrável, com a guitarra portuguesa. Tem percorrido palcos nacionais e internacionais, tem acompanhado artistas sem deles fazer distinção em termos de mediatismo, mas colocando o melhor de si em cada tema, em cada nota, em cada actuação. Este disco é a mensagem de um homem! Este disco é a banda sonora da vida de Henrique Leitão. Que facilmente poderá ser a nossa.

Sobre o disco, começa por nos dizer que é um “Reencontro com histórias e episódios que me aconteceram até hoje. Toco guitarra há 30 anos, fará em Novembro. É um Reencontro com pessoas. São episódios meus, é o meu pai, é uma história de amor que se passou na minha vida, é a minha filha, é outra menina que não é minha filha mas vejo-a como tal, é uma data de coisas”.

Explica-nos, posteriormente, a ideia e cada um dos temas que integram este trabalho, “os primeiros temas a serem feitos, daí, foi ‘Reencontro’, Sol Nascer’ e o ‘Camila’. O ‘Sol Nascer’ deve ter sido feito depois do ‘Camila’, e estamos a falar de, se calhar, 2005/2006. Há temas que foram mais recentes, o último salvo erro foi o ‘Pai’, o penúltimo foi ‘Praça do Comércio’. O ‘Leonor’ foi feito para uma senhora a quem a cultura já deve muita coisa (uma senhora de Torres Vedras com 75 anos, tem 50 anos de teatro, música e trinta por uma linha…). Depois há temas como o ‘Filha’, a minha filha fez 3 anos há pouco tempo, a 2 de Abril. ‘A Desfolhada’ é um tema que já existe e que tem apenas um arranjo meu, mais nada. A ‘Moda’ foi feita há relativamente pouco tempo, a conduzir. Uma data de coisa faço a conduzir, porque moro longe, e então a ‘Moda’ foi feita a cantarolar e a encostar não sei quantas vezes na viagem para Lisboa, o telefone como sabes é uma ferramenta belíssima e o pior amigo do homem”.

Um dos temas intitula-se ‘Pai’ e é uma homenagem ao seu progenitor, já falecido. Ainda hoje custa falar, embora assuma que “hoje é mais tranquilo. Amanhã é sempre mais difícil do que hoje. E hoje consigo falar com tranquilidade do meu pai porque, para já, o meu pai foi-se embora e não ficou nada por dizer. Nós os quatro sabíamos que gostávamos todos uns dos outros e nos amávamos muito”, disse, lembrando a mãe e o irmão.

Na vida, fora dos palcos, assume que “vivo preocupado com o que me rodeia. Eu não sou capaz de saber que um amigo precisa de ajuda e não ir lá. Não sou capaz! Vou na rua e alguém cai, tenho de ir acudir. Eu já salvei a vida de uma pessoa, dá um gozo, mas dá um gozo depois. Porque no momento a preocupação é ajudar a pessoa, depois quando as pessoas vão embora e pedem o meu contacto para eu digo ‘deixe estar isso’, vou embora e penso ‘a minha vida já valeu a pena’. Vivo preocupado em ir beber café com a minha tia todos os dias, a minha sai pouco de casa, mas isso dá-me um prazer enorme! Da mesma forma que quando estou a tocar num lado qualquer e aparece um(a) miúdo(a) a minha preocupação é dizer ‘olhe quando precisar de ensaiar ou tirar tons, ligue-me, esteja à vontade, eu venho a Lisboa quase todos os dias’. Sou sempre muito disponível, quem me conhece sabe que sou assim”.

Acrescenta que “sou muito disponível para as pessoas, sou irrequieto. Nem consigo estar em casa quieto. Eu para descansar não posso estar em casa, eu tenho sempre coisas a acabar. Tenho móveis no atelier para serem feitos, coisas para pintar…”, assumindo que onde consegue descansar é em casa da mãe.

Esta preocupação com os outros vem de muito novo, como mostrou ao revelar que “o meu pai era muito disponível para os amigos, a minha mãe também, mas o meu pai era mais extrovertido. Vou-te dar um exemplo, quando o meu pai foi para fora (quando compraram um café, eu tinha nove anos, e foi para fora trabalhar quando eu tinha 10), esteve 16 anos fora, disse-me ‘ olha, o teu irmão é mais novo, se faz favor ajuda a tua mãe e dá um olho ao teu irmão’. O meu irmão sabe disso e ainda hoje é assim”, antes de acrescentar com a voz ligeiramente embargada que “para já, se alguém lhe quiser fazer mal é logo uma chatice, se calhar nem ele me diz… Eu não sou nenhum animal, mas não mexam no que é meu. Ainda hoje sou assim, se for a casa dele e vir um estore que não está bom digo logo ‘então queres que venha cá arranjar isto?’ ou até mesmo ‘queres que te mude as cordas do estendal da roupa?’. Às vezes ele liga-me e diz ‘olha tenho aqui uma cadeira partida’ e eu digo ‘quando puder já passo aí e trato disso’. Portanto, isto é uma preocupação constante com coisas de caracacá mas que acontece, também, com as outras coisas todas. Ele tinha 20 e tal anos e foi parar ao hospital com arritmia, Eh Pá e naquela situação eu pensei ‘não consigo fazer nada para ajudar o meu irmão’ e acaba por ser uma situação de impotência e isso é uma coisa que me atormenta, se ele tiver uma coisa em que eu não o possa ajudar, torço-me todo. Mas isto acontece com ele como acontece com a minha mãe, que vive sozinha e é uma preocupação que tenho todos os dias, ela diz-me coisas como por exemplo ‘quando te fores deitar, fecha a porta à chave’ e eu digo-lhe o mesmo”.

A voz acalma e o olhar brilha quando fala da filha, que “quando ela vem a correr a alta velocidade para me dar um abraço, um beijo e quando está ao meu colo, suspira, e diz ‘Pai’… É uma grande pintarola, sou um milionário!”.

E são estes pedaços, de tudo o que de verdade importa, que acaba por colocar no seu disco. Um disco sem pretensões desmedidas. Talvez a maior seja apenas valorizar o que de facto lhe importa, através da sua música.

Ainda relativamente à sua filha, revela que “há ali uma coisa que tenho pena na ‘piquenina’, como lhe chamo, que foi não ter conhecido o meu pai. Por dois meses e onze dias. O meu pai morreu a 21 de Janeiro e ela nasceu a 2 de Abril. O meu pai é a quarta geração em que não se conhece avós e tenho pena. O meu pai um dia foi à ecografia, havia um movimento louco no Hospital da Luz, e foi ele e a mãe da minha filha. Mas estamos a falar de uma ecografia dos 4 meses, por aí, e ele vem de lá e diz ‘é tão bonita a minha neta’ e eu disse-lhe ‘Oh pai, então aquilo ainda é uma ervilha, uma fava…’ Portanto ele esteve quase a conhecê-la, porque antes da minha ‘piquenina’ houve dois abortos, e se o primeiro tivesse corrido bem ele teria conhecido a/o neta/neto”.

Este disco é o seu primeiro de instrumentais originais. Mas a sua vida é rica, intensa e repleta de afectos. Esta conversa, sobre o seu disco, acaba por ser uma conversa sobre a sua vida e que dará a quem esteja a ler este texto a ideia do que encontrará no disco. Porque a Arte só o é quando feita com verdade.

Revelou que a sua família é natural de Arraiolos e que também se divide entre Montijo e Montemor-o-Novo (parte materna e paterna), sendo que “eu e o meu irmão nascemos em Lisboa, no Chiado” e quando em miúdo lhe perguntavam se era alentejano ou lisboeta a resposta saía pronta “sou arraçado de Alentejano”, explicando que “nunca ninguém me ensinou este recado”. “Lembro-me de ser miúdo e quando ía lá abaixo, eu adorava aquilo. E desde cedo sempre tive esta coisa de ‘eu quero ir para o Alentejo’ e desde 2004, há quinze anos, que la´estou”. Faz constantemente a viagem Arraiolos-Lisboa e revela que “este carro tem três meses e conta já com 25 mil quilómetros”.

Durante muito tempo, Henrique Leitão trabalhou num colégio, onde fez de tudo um pouco. E lá intensificou uma relação de amizade com Inácia, a responsável pela Fábrica dos Pastéis, em Évora. Sendo Henrique Leitão um bom garfo, sendo o Alentejo conhecido pela sua gastronomia e sendo a Fábrica dos Pastéis um dos locais de imprescindível visita gastronómica em Évora, lançámos o desafio de sugerir três especialidades desta casa a quem lá for. Após pensar disse “os pastéis de nata, as queijadas e… as empadas!”. Sobre a dona da Fábrica dos Pastéis diz “que é uma Simone, perdeu o marido. O filho mais novo tinha 9 anos. A Inácia estava deitada a ler, o marido ao lado sentiu-se mal, um aperto no coração e ficou-se. Com o reboliço, os filhos vieram ao quarto e assistiram aquilo. Epá, lá está, é a pessoa precisar e tu não conseguires fazer nada. E aquela mulher levou os quatro filhos às costas, fez tudo por eles e ainda hoje faz”, destacando assim o exemplo de força e perseverança de Inácia Junça.

De regresso ao disco, ‘Reencontro’, explica que a homenagem que faz a Ary dos Santos e Simone de Olivera no tema ‘Desfolhada’. Para Henrique Leitão, Ary “foi o melhor poeta que este país teve até hoje, é a minha opinião e vale o que vale. É sempre subjectivo isto do melhor. Mas ele marcou bem a época em que escreveu, porque aquele homem escreveu coisas que mais ninguém escreveu. Para mim foi o melhor!”. Já sobre Simone, diz ser exemplo de “perseverança, de força. Cada ruga da cara daquela mulher são experiências. Aquela mulher tem experiências na vida, palcos cheios, episódios bonitos, outros menos bonitos, algumas chatices na vida e tem aquela posição afirmativa. É o que é, quem gosta, gosta. Quem não gosta não gosta. Aquilo não há meio termo”.

Este disco conta com gravação e masterização de Luís Henriques (Lagar da Música), fotografia de Nuno Silva (Artepertinace), produzido por Henrique Leitão, que assina também o grafismo e os arranjos musicais.

 

Fotografia: Nuno Silva- Artepertinace

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.