Herman José em entrevista: “Se tivesse nascido em New York ou Brooklyn seria um ilustre vendedor de pizzas”

 

 

Amanhã faço dieta’ é o novo disco de Herman José, um artista de topo nacional, quer na vertente humor quer em termos musicais. O verdadeiro ‘One Herman Show’ e que atravessa gerações, quer através das suas piadas quer os personagens que foi criando e acabaram por fazer parte da família de muitos portugueses. Em plena baixa lisboeta, Herman José, concedeu uma entrevista ao Infocul em que falou deste novo disco, dos espectáculos no Coliseu dos Recreios e ainda sobre o que quer fazer nos ‘30 anos de carreira que ainda me faltam’.

 

Um disco com produção assinada por Jorge do Carmo e no qual Herman apresenta os temas de sempre (Canção do Beijinho, Saca o Saca-Rolhas, Serafim Saudade, Passo-me com gajas…), canções do seu espectáculo ao vivo e ainda o mais recente ‘Amanhã Faço Dieta’, que dá nome ao disco, com uma roupagem contemporânea.

Neste disco participaram os músicos Jorge do Carmo, Daniel Duarte, Pedro Duarte, Guilerme Banza, Rui Gonçalves, Rui Chainho. Sofia Costa juntou-se a Herman José e Jorge do Carmo nos coros, com os arranjos e programação a cargo de Jorge do Carmo e Daniel Duarte, excepto em ‘Podia Acabar o Mundo’ e ‘O Fadinho do Bacalhau’ a cargo de Pedro Duarte. A direcção musical te também assinatura de Jorge do Carmo. O disco foi editado pela Espacial.

Sobre o nome que dá nome a este disco, Herman revela que “é uma forma de estar na vida. Este é o lema das pessoas que nunca farão dieta na vida. Sabes porquê? Porque o último momento é sempre uma grande dieta. Quando eu começar a emagrecer no jazigo, que ainda irei comprar, fico sobejamente magro. Enquanto estiver vivo continuo nesta coisa engraçada de Amanhã faço dieta”, embora assuma que “não posso comer tudo o que me vai na alma, neste momento já andava aí a rebolar, tinha sido contratado como bola de bowling”.

 

O multidisciplinar artista revela que “o que esteve na base desse disco foi a necessidade absoluta de dar roupagens contemporâneas a músicas que fazem parte do meu espectáculo. Quando eu faço espectáculos com banda, a maior parte deles, as músicas já não soavam como nas gravações originais e então tive necessidade de ter um objecto que tornasse o meu repertório contemporâneo para quando eu ouvir na rádio não me sentir a ouvir antiguidades e de realidades que já não existem, nomeadamente eu de há 20/30/40 anos, não canto nem sou o mesmo tipo que sou agora. Há coisas giríssimas como a ‘Canção do Beijinho, mas em que a gravação original a mim já não me diz nada, por exemplo. O que quisemos foi pegar nos temas que nos dizem muito e torná-los dançáveis, principalmente quando estamos com os copos. A pessoa quando está com os copos precisa de impulsos auditivos, senão, desiste, adormece. E esse disco tem aí os impulsos todos para apanhares uma ‘ganda tosga’ [risos] e continuares a ouvir a música”.

 

Um dos destaques deste trabalho é um medley dedicado a Max, músico ímpar natural da Madeira, e que Herman explica porque o homenageia neste trabalho, “houve uma festa, na Madeira, de homenagem a ele em que eu entrei, em 1977, ele morreu pouco tempo depois. O Nicolau e eu quando começámos a andar na província a fazer espectáculos, ele era um dos nossos grandes amigos”, revelando depois uma peculiar história, sobre cachets, porque o Max é genial, só pecava por excesso de humildade. Nós fomos responsáveis por lhe terem dobrado o cachet no final da vida, nós chegámos à conclusão que o agente o andava a vender por metade do preço e então numa festa, a meio d’um almoço, denunciamos a situação ao Max e a partir daí ele colocou os pés à parede e começou a ser pago consoante merecia, porque ele era uma grande e bela atracção”.

Sobre a obra de Max, diz que “tem muita música boa, fados muito lindos. Mas as músicas humorísticas são muito, muito giras. E eu já nessa altura cantava nos meus espectáculos ‘Casei com uma velha’ [trauteia ‘Casei c’uma velha/Da ponta do sol/Deitei-a na cama e o raio da velha rasgou-me o lençol] e o que acho giro é que já nesta altura em que não se podia maltratar os velhos, ele já aventava numa cantiga que os velhos que rasgassem os lençóis era para virar de pernas para o ar [volta a trautear ‘Casei c’uma velha/Da ponta do sol/Deitei-a na cama e o raio da velha rasgou-me o lençol/Tornei-a a deitar/Tornou a rasgar/Perdi a cabeça e atirei co’a velha de perna p’ró ar], o que já é uma mensagem muito saudável, do género, voltei a deitar, voltaste a rasgar, vou-te partir a cabeça e vira de pernas para o ar. Que é uma coisa que eu acho muito decente e muito contemporânea, muito moderna. E depois tem também outras coisas maravilhosas e é a minha homenagem à ilha da Madeira, que eu adoro. É uma energia especial que aquela ilha tem e que é responsável por ter fabricado o melhor futebolista do mundo”.

Na conversa, tida na antiga entrada do Hotel Mundial, Herman José revela-nos que “eu identifico-me muito com os ilhéus porque quando tu vives rodeado de mar tens de ter uma dose extra de energia. Porque o mar é depressivo quando é a mais, e quando está mau tempo acaba por ser muito complicado. E portanto um ilhéu parece que tem sempre uma dose de resiliência reforçada. E tu segues a costa madeirense ou a Califórnia e é gente útil e forte. E muito inspiradora!”.

Provoquei, ligeiramente, Herman José sobre o ‘Saca o Saca-Rolhas’ e qual a reacção mais peculiar ouvida a este tema. Herman percebeu o sentido da pergunta e inteligentemente replicou “Sobre este tema? Ah, já sei o que está a falar. És muito malvado. É verdade que houve essa fase muito malvada da cantiga, que felizmente, hoje em dia, já no tempo se esbateu. Mas devo-te dizer que quando lancei essa cantiga, que foi o grande sucesso desse verão, houve quem se desse ao trabalho, de na Antena 1, escrever um texto a atacá-la porque promovia a lógica de beber vinho e dar de comer a um milhão de portugueses, que era uma coisa Salazarista. Um ilustre homem chamado Fernando Correia, que acabou como porta-voz de Bruno de Carvalho. Na altura ele era militante comunista e sentiu obrigação de diabolizar a música porque defendia valores. Mas pronto. Para já era uma versão muito gira de uma música espanhola, de Desmadre 75, chamada “Saca El Guisqui Cheli” e foi responsável por uma coisa maravilhosa, eu poder pagar a minha primeira casa. Nessa altura as canções davam muito dinheiro, passei de estudante a viver em casa dos pais para artista a viver no seu apartamento na Costa de Caparica com vista para o mar”.

O percurso de Herman José conta com várias fases e este disco representa a “versão X do Herman. Há várias: já fui aqueles telefones que se dá à manivela e mete-se cavilha para falar nas aldeias; depois passei a ser um telefone automático; depois sou aqueles telefones que custavam 600 contos e eram uma coisa enorme, nos anos 90; depois fui fazendo upgrade e hoje em dia sou um orgulhoso Iphone 10. Este disco é a versão upgrade de mim, na posse de todas as faculdades”.

Não sente que Portugal lhe deva algo, “acho que Portugal deve muito a outras figuras, deve muito a Mário Soares, por exemploe até diz que “acho que é ao contrário, por vezes fico a pensar… Quando vou à América e vejo espectáculos na Broadway e vejo que toda a gente é absolutamente genial (desde o miúdo que está lá atrás a dançar até à personagem principal, passando por técnicos e músicos), são todos tão perfeitos, técnicos e talentosos e penso ‘se tivesse nascido em New York ou Brooklyn seria um ilustre vendedor de pizzas’, portanto eu é que devo muito a Portugal. Quando eu comecei, a concorrência era muito pouca e permitiu-me passar longos anos como Príncipe Regente do Humor Moderno, o que é muito agradável. Não ter concorrência é maravilhoso!

Agora com forte concorrência, existem muitos humoristas, Herman diz que “tenho que trabalhar muito para isso, quando era novinho era mais fácil, agora tenho essa obrigação profissional. Respeito muito os meus colegas, há muitos que são muito bons, mas quando somos contratados para actuar seja onde for, em qualquer contexto, aquilo não é como no golf em que há handicaps nem pole positions, em que vai um à frente e outro atrás. Estão todos na mesma linha e só quem tem unhas é que toca guitarra. E quando se perde uma coisa muito agradável chamada juventude, em que se perdoa tudo (podes não ter piada, mas tens um penteado irreverente ou umas jeans rotas) e é uma coisa gira porque enchem-se plateias e vão as pitinhas todas gritar. Quando perdes a juventude, se vais despenteado é ‘lá vai o filho da puta do velho e não tem dinheiro para ir ao cabeleireiro’, se as jeans estiverem rotas é ‘porque não tem dinheiro para comprar calças’, e tens de compensar isso com um super ávido de entrega, competência, respeito pelo público e não te contentares com taxas de agrado a menos de 100%. Quando tens 30 anos, é indiferente, tudo indiferente, és imortal”.

 

Por isso, também, confessa que “há um tipo que me inspira imenso que é o Karl Lagerfeld porque ele valorizando o passado nunca se ficou no passado. E esteve sempre fascinado pelos novos talentos, onde quer que eles estivessem, observava sempre tudo o que se passava, reunia a informação, reinventava, e começava de novo todos os dias. Até enquanto criador, até ao último dia de vida dele, não perdeu modernidade. Ele conseguiu pegar numa coisa antiga como a Chanel, e até politicamente gasta porque o prestígio da Chanel nos últimos anos não era o melhor, e consegue reinventar e transformar uma coisa a cheirar a mofo numa coisa completamente moderna. Eu acho que me baseio muito em tipos extraordinários que eu estudo, e cujos truques ou especificidades analiso, e uma delas é não baixar os braços (o que não quer dizer que não desligues e entres em coma durante dois dias e não faças nada, nem sequer tomes banho, o que é também uma alegria para as moscas, mas quando regressas ao trabalho tem de ser com eficiência total e não assim-assim. Senão perdes o barco)”.

 

Dias 12 e 13 de Abril sobe a palco no Coliseu dos Recreios e revela que “as únicas duas músicas que vão estar como estão aí são o ‘Amanhã faço dieta’, porque é inevitável, e essa versão do ‘Podia acabar o mundo’, que gosto particularmente por ser quase um bolero dançável, como se fizesse parte daqueles concursos de danças de salão. Eu adoro a música, foi dedicada à Rosa Lobato de Faria que eu adorava, e adoro, tenho muito orgulho nessa música. Portanto essas duas vão estar na íntegra. Tudo o resto aparece caoticamente espalhado pelo espectáculo. Aliás o espectáculo é muito orgânico, depende do público e de tudo o que acontecer”.

Surpreendentemente, ou não, revela que “todos os improvisos têm de ser preparados. Vou-te dar um último exemplo, a ida do ‘Nelo’ ao ‘5 para a Meia-Noite’, tive de pedir as perguntas para que as respostas tivessem alma. E o que sobressai é que parece que estou a improvisar, a ser confrontado pela primeira vez com as coisas. Na verdade é uma espécie de improviso, um improviso preparado, mas um improviso para todos os efeitos. Mas com tempo para o cérebro poder processar informações, os americanos nisso são mestres. Não quer dizer que tenha de ser tudo preparado, mas o melhor improviso é aquele que está pré-preparado”.

Essa preparação que aplica também fora dos palcos, no dia-a-dia, porque “na vida tens de ter planos B, C e D. Tens de estar preparado para tudo, fazer-te perguntas. Vês alguém doente ou incapacitado, com doença incapacitante, e pensas ‘que solução eu daria à vida naquela situação? Gosto muito de ler, escrever, do meu tablet, da minha família, tenho pessoas que me amam…’ e tinha plano B para aquela situação. Nós fazemos muito pouco isso, vivemos muito o dia-a-dia sem pensar nas consequências de nada. E não custa nada, não é a pessoa perder a espontaneidade, é simplesmente a pessoa ir preparando o improviso. E tenho-me dado muito bem com isso, há situações que digo que estou sujeito a que algo aconteça devido à forma como as coisas correm, as pessoas dizem que não e que é um disparate. Depois quando acontecem, eu estou preparado para elas e enquanto os outros estão a chorar a desgraça, já eu estou a tratar das coisas porque as tinha imaginado e preparado”.

Nos 30 anos de carreira que diz ainda ter por diante, com ar bem-disposto, “quero gozar o dia-a-dia o mais possível e enquanto a saúde me deixar divertir-me nos palcos. E depois se perder frescura à frente das câmaras, não dominamos, acho que vou continuar atrás das câmaras, a produzir, escrever, descobrir e potenciar novos talentos, e se calhar a ser feliz artisticamente através do êxito de terceiros”.

 

E fora das luzes da ribalta, Herman José diz que “está muito perto daquilo que se vêna televisão, acrescentando que “tenho três posições: Completamente Desligado (A recuperar energias e sou a pessoa mais desinteressante do mundo, aquele que fica de t’shirt a ver televisão o dia todo e apenas levanta-se para ir comer); Depois tenho esta (que em dias de sol vive feliz e diz disparates e interage com toda a gente com genuína felicidade); E depois tenho o estritamente profissional (como vai agora acontecer no Coliseu em que recebo mensagens a dizer ‘vamos 5 da Suiça de propósito para te ver, será que te podemos dar um abraço?’ e aí ligo o botão do profissional e ali estou o tempo que for preciso, a receber as pessoas e a ser gentil)”.

 

Confessa ser um homem de afectos e pensa que as pessoas têm essa noção, até porque “são muito afectuosas comigo”, mas ressalva que “não sou um homem de choros nem piegas, sou a pessoa mais pragmática do mundo, e nada de coisas que sejam fora do dia-a-dia e do terra-a-terra. Não me venham cá com deuses, com santos e astrologia. Comigo não pega”.

Sendo um homem com particular gosto pela gastronomia, desafiei-o a classificar o seu percurso, e Herman aceitou, dizendo que seria “Pão-de-Ló. Sabes aquele pão-de-ló húmido? Se a minha carreira fosse internacional seria outra coisa mais sofisticada mas atendendo à pequenez do mercado, acho que sou um genuíno e autêntico pão-de-ló daqueles que aguentam bastante tempo”.

 

 

Agradecimentos: Hotel Mundial

Entrevista e Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Alexandre Marques

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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