Alfredo Matos

Dos grandes fadistas do século XX, criado no bairro da Mouraria, onde passou muito do seu tempo até ao fim da vida, Fernando Maurício é um dos arquétipos da raiz e do coração do fado. Nele sobressai uma honestidade emocional muito rara e sem rodeios, mesmo numa música que nasceu para trabalhar esse tipo de matérias. Ouvi-lo é ouvir a Lisboa real (não a dos postais, do turismo e outras especulações), de ruas, alegrias, desgostos, lutas e celebrações, num vastíssimo reportório que foi desenhando maioritariamente através da popularização de muitos fados de autoria variada — que pela sua voz largas vezes se tornaram mais celebrados e, em alguns casos, versões praticamente definitivas.

Galardoado por todo o tipo de coletividades, associações e, mais tarde na sua vida, pelas próprias instituições culturais e governamentais, foi-se sempre dedicando mais ao trabalho nas casas de fado, numa escala mais comunitária, local e sinceramente solidária. Aprendeu com muitos, partilhou com outros tantos, e terá ensinado ainda mais.

Todos os anos, a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, à boca da Rua do Capelão, por volta do dia 15 de julho, data em que faleceu, costuma celebrá-lo durante horas no seu bairro. Este ano, devido às várias limitações do momento que vivemos, essa mesma celebração teve lugar neste último dia 19 do mesmo mês na Casa-Museu Fernando Maurício, espaço singelo e com um impressionante acervo de gratidão daqueles que com ele conviveram e que pela sua música foram tocados, e foi difundida por canais digitais.

De forma a dar ênfase ao seu legado humano e artístico, e a alguns daqueles que — entre o seu outro ofício — continuam a estimar e a difundir a sua música, no dia 26 de Julho apresentamos no âmbito do programa Terra Irada, com curadoria de Pedro Gomes, uma homenagem suplementar a Fernando Maurício, com uma tertúlia sobre a sua vida e obra em que participarão várias pessoas que o conheceram bem, incluindo familiares, seguida de um concerto à volta de algumas das canções que mais marcaram o seu percurso, cujo propósito consiste em continuar a dar a conhecer a outros públicos e gerações o seu magnífico trabalho que é totalmente indissociável das mais profundas partes da alma da cidade de Lisboa.

Tertúlia > 16.00:

Ana Maurício, Cátia Miranda, Fernando Jorge, Miguel Ramos, Vítor Miranda.

Atuações – 17.00:

Cátia Miranda, Fernando Jorge, Miguel Ramos, Vítor Miranda, Sandro Costa (guitarra portuguesa), Ivan Cardoso (guitarra clássica).

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