Hugo Calado: “Se há coisa que eu não faço é dar visitas aos outros, portanto não sei se copiam ou não”

 

 

Numa longa entrevista com Rui Lavrador, abordou a tauromaquia em Portugal, a evolução da fotografia na tauromaquia, o falecimento de Joaquim Bastinhas e Emílio de Jesus, e ainda sobre os dois sites que dirige actualmente. Explicou ainda a parceria existente entre o site que dirige e o Infocul.

 

O foto-jornalista Hugo Calado é dos nomes mais respeitados na tauromaquia nacional e responsável pelos projectos editoriais Toureio.pt e Odigital.pt.

Natural de Vila Viçosa, cedo começou no jornalismo, quer na tauromaquia quer na imprensa regional generalista. Tem firmado o seu percurso com a mesma contemplação com que naturalmente admiramos as paisagens tipicamente alentejanas. O Toureio.pt celebra, em 2019, 15 anos de actividade e em 2018 criou Odigital.pt.

 

15 anos de Toureio.pt

 

Hugo, em 2019, o Toureio.pt celebra 15 anos de existência. Foste dos primeiros a apostar na vertente digital, em termos de imprensa taurina. Como analisas o facto de, actualmente, aproximadamente 95% da imprensa taurina estar em versão digital? Há ou não demasiados blogs e sites dedicados à tauromaquia?

Em abono da verdade, há quinze anos, digamos que o Toureio.pt (nomeadamente o Toureio no Sapo.pt, que assim se chamava) não foi o primeiro. Lembro-me que Eugénio Eiroa enviava via e-mail uma página PDF, para os aficionados. Esse foi o primeiro, depois apareceu o Toureio no Sapo e entretanto outros blogs e sites. Se há muitos? Talvez, mas todos têm o seu espaço. No entanto não podemos é considerar todos da mesma forma, todos merecem consideração mas de forma distinta. Há os sites e há os blogs. Há os Órgãos de Comunicação Social e os sites de fotografia. Há os sites de Informação. Mas há lugar para todos.

 

 

Falecimento de Emílio de Jesus e a Fotografia Taurina

 

Abordando a vertente fotográfica na tauromaquia. 2019 começou mal, com o falecimento de Emílio de Jesus, um dos expoentes máximos da fotografia taurina em Portugal. Como analisas o surgimento de muitos fotógrafos nesta área e quais as principais qualidades que devem ter para fotografar um espectáculo tão peculiar quanto a tauromaquia?

Referenciaste aí o grande Emílio de Jesus, que era um foto-jornalista, não era apenas fotógrafo. Porque um fotógrafo é aquele que retrata e depois vende a fotografia. E o Emílio de Jesus, além de fotografar e vender o seu material fotográfico, também fazia reportagem! E é essa a diferença que muitas vezes deve ser feita entre os fotógrafos e a imprensa, de tauromaquia. Porque o que acontece actualmente é que muitos são fotógrafos de corridas de touros mas poucos são foto-jornalistas. Dou um exemplo, se houver uma bandarilha cravada no forcado, uma colhida, três ou quatro forcados que vão para a enfermaria há fotógrafos que alertam os outros para não se tirar fotografias para o bem da festa! Não, isso não é foto-jornalismo!

Porque estás a fugir à verdade?

Não diria que se foge à verdade, mas não tens o instinto jornalístico.

Tens um percurso no jornalismo, quer tauromáquico quer generalista. O que te questiono é se o facto de fazeres jornalismo generalista te dá outra sensibilidade para a vertente da tauromaquia?

Penso que essa sensibilidade que referes não se ganha. É inato. Porque a pessoa tem aquele instinto de, até, querer dar a notícia primeiro que os outros, dar a informação à pessoa que vê/lê/ouve. Não se aprende, acho eu!

Mas é mais importante a rapidez ou a qualidade?

A qualidade, e a rapidez logo a seguir. Porque sem qualidade, a rapidez interessa muito pouco (risos).

 

Temporada 2018 e a ‘Prisão’ da Tauromaquia

 

A temporada 2018 teve alguns temas polémicos, nomeadamente algumas declarações da Ministra da Cultura e a descida do IVA para os 6%. O que te questiono é se com a descida do IVA em todos os espectáculos, independentemente da sua génese, a tauromaquia ganha a oportunidade de ser parte da cultura, que historicamente já integra?

É uma pergunta à qual respondo, dizendo que a tauromaquia é cultura! A tauromaquia já integra a cultura, embora fechando-se nessa bolha, que por vezes alguns falam, mas já faz parte da cultura! Eu até diria mais, a tauromaquia esteve numa prisão e como as prisões fazem pouca reinserção social aos seus reclusos e a tauromaquia está assim, saiu da prisão e está aos poucos a reintegrar-se na cultura. Pode ser uma porta aberta…

E o que é que os agentes (artistas, empresários, imprensa e associações) podem fazer nesse sentido?

Ligarem-se mais aos outros agentes culturais. Por exemplo, nós agora estamos aqui, o meu amigo tem um site generalista com destaque cultural e eu estou a dar-lhe uma entrevista, enquanto director de um site de tauromaquia.

 

O novo projecto, ‘ODigital.pt’

 

Além do site de tauromaquia, o final de 2018 marca o início de um outro projecto teu, também na vertente digital, de cariz regionalista. Estando ‘Odigital.pt’ na região do Alentejo e sendo esta a região mais aficionada (não tenho dados mas penso que não me engano nisso), o que te questiono é como irás complementar ‘Odigital.pt’ e o ‘Toureio.pt’ relativamente ao assunto tauromaquia?

Os dois sites são totalmente independentes. O Toureio.pt é um órgão de comunicação social e Odigital.pt é outro. Cada um no seu lugar e cada um com a sua temática.

Quais é que são os grandes objectivos para este projecto que iniciaste no final de 2018?

Os objectivos são construídos quando completas os anteriores, embora te possa dizer que são ambiciosos.

Neste momento tens concorrentes?

Concorrência é uma palavra que nem sequer gosto. Ter alguém ou entidades que fazem o mesmo trabalho até é interessante. Num dia uns dão umas notícias, noutro dia outros dão outras…Mas todos em prol, neste caso, da região Alentejo. Tendo em conta que estamos a falar d’ Odigital.pt.

E quando se copiam uns aos outros, o que se faz?

Copiam?! Não sei… Se há coisa que eu não faço é dar visitas aos outros, portanto não sei se copiam ou não. Mas se copiam, os visitantes sabem quem faz a notícia e qual é a fonte da notícia.

 

Os Triunfadores de 2018, na tauromaquia nacional

 

Regressando à tauromaquia. Quem foi o grande triunfador em Portugal, na temporada 2018?

O público!

Porquê?

Porque conseguiu ver muitos espectáculos, e como as estatísticas do IGAC dizem, o número e espectadores aumentou e os espectáculos foram sempre os mesmos.

No toureio a cavalo houve alguém a destacar-se?

Penso que houve alguns nomes a destacarem-se mais do que outros, mas não temos, actualmente, nenhuma figura que se diga ‘é este o grande triunfador da temporada’. Há nomes que se destacaram… O Francisco Palha foi dos nomes que se destacou, vi grandes actuações do Francisco Palha, o Moura Jr., o António Ribeiro Telles teve algumas boas actuações, outras uns furos mais abaixo, mas também se destacou. Infelizmente, no final de 2019, Joaquim Bastinhas faleceu! Porque, apesar de tudo, de já ter 62 anos ainda era o cavaleiro português que levava mais gente à praça. Talvez não pela maneira de tourear, era conhecida de todos, mas pelo que transmitia.

Pelo carisma?

Pelo carisma, sim sim! E prova disso foi Elvas que esgotou para ver Joaquim Bastinhas, por exemplo, em Setembro!

O que muda, na festa dos touros, com a morte de Joaquim Bastinhas?

O que muda ou o que falta, essa é que é essa! Penso que não muda nada, não há assim uma grande mudança. Agora em termos de falta, isso sim, faltam figuras e ídolos que possam chegar à televisão, chegar aos jornais… É certo que Joaquim Bastinhas poderia ter a máquina da Delta por detrás, penso que não há grandes dúvidas, mas era Joaquim Bastinhas! Valia por si!

No toureio a pé, houve alguns matadores a destacarem-se. O que te questiono é o que falta para existir um matador que leve gente às praças como, em tempos longínquos, fez Pedrito de Portugal? Penso ter sido o último a conseguir, em Portugal…

Quando regressar a corrida integral a Portugal, aí nada a fazer.

Estás a falar da morte do touro na arena?

A morte do touro e a sorte de varas. Porque sem isso as figuras do toureio a pé em Portugal não há, indo para Espanha há dezenas iguais a eles…

 

Apostas para 2019

 

Para 2019, se tivesses que apostar num nome para triunfar, em quem farias?

Penso que é uma incógnita. É como começar um campeonato de futebol, nunca se sabe quem pode ganhar. Agora no início é que se vão ver os cavalos que os toureiros adquiriram no defeso, se é que adquiriram… Alguns certamente andaram noutras ‘vacances’, noutras férias e não adquiriram cavalos. Alguns irão mostrar os cavalos novos e só depois aí poder-se-á ter ideia do que será a temporada. Se é que não vai ser igual à de 2018, esperemos que não e que haja novidades.

Dia da Tauromaquia [realizar-se-á em 23 de Fevereiro], o que traz de novo?

De novo só o festival, em que o cartel é diferente da última edição. De resto não se sabe mais nada…Faz-me alguma confusão, e o que vou dizer não é contra a Prótoiro mas contra a sua inoperância, porque estamos a um mês e não vês o que vai acontecer no dia 23…O que posso opinar sobre o Dia da Tauromaquia? Há um festival taurino, com bilhetes à venda. E o resto? Para mobilizar os aficionados para este tipo de iniciativas terá que ser de outra maneira, porque anunciar um Dia da Tauromaquia, mas vazio… Atenção que estou a falar até à data em que estamos nesta conversa... [ndr: 22 de Janeiro].

 

A fotografia

 

Há para ti alguém que seja uma referência na fotografia e que tentes seguir, como exemplo?

Há vários fotógrafos com qualidade. Agora o que te pergunto é, falas de foto-jornalistas ou fotógrafos?

Falo da fotografia, enquanto fotografia…

Há vários fotógrafos que têm sensibilidade para captar os momentos e não escarrapachar com a imagem, taurina, nos sites misturando boas e más. Há vários fotógrafos com qualidade, que temos na nossa praça.

Nomes?

Não vou referir nomes porque me poderia esquecer de alguém, mas há vários na tauromaquia portuguesa que têm essa qualidade.

 

O gosto pela tauromaquia

 

Qual foi o toureiro que te trouxe à tauromaquia? Houve algum toureiro que te tivesse chamado a atenção e te fizesse vir para a tauromaquia?

Para ser sincero, eu nem sequer sei como comecei na tauromaquia. O meu pai trabalhava na empresa do cavaleiro José Luís Cochicho. Andei na escola com o filho, o Luís Filipe que também quis iniciar a sua actividade como toureiro e agora é ganadeiro, e a partir daí a ligação com a tauromaquia. Mas não houve assim nenhum toureiro que eu diga ‘comecei por causa daquele toureiro ou daquele grupo de forcados’.

Qual o cartel que gostarias de ver enquanto aficionado?

Como te disse não há aquele ídolo que te diga para o cartel ideal. Mas tendo em conta que Diego Ventura, de há uns anos para cá tem toureado à séria… Por ordem de antiguidade (na imprensa temos este problema de se nos enganarmos na ordem de antiguidade de cavaleiros ou forcados, vem logo alguém reclamar), portanto Pablo Hermoso de Mendoza, Diego Ventura e porque não Francisco Palha ou João Moura Jr. A pé teriam de ser figuras espanholas e portanto deixamos para outra oportunidade.

E grupos de forcados, para completar o cartel?

Eu escolheria uma selecção de forcados. Mas como agora os grupos de maior antiguidade e ditos de maior importância não integram seleccões de forcados, como os comunicados que vieram a público, mas escolheria o grupo de Montemor, de Évora…

 

Análise aos 15 anos de Toureio.pt

 

Focando agora um pouco mais no Toureio.pt, como têm sido estes quinze anos e quais os cuidados que tens tido nos conteúdos editoriais?

Essa é uma boa questão. A evolução é acompanhando a internet em si. Porque um site de tauromaquia gere-se como se fosse um site generalista, apenas com a diferença de estar focado naquela temática. A evolução editorial também, porque embora possam existir algumas coisas que incomodem alguns, vai em frente e vai continuar. Começámos como lideres da tabela classificativa, digamos assim, do Sapo, na altura Toureio no Sapo.pt, estava nos 20 mais lidos daquela plataforma, depois passou para Toureio.com (depois devido a um comportamento menos correcto da empresa onde estava o site , alguém comprou o Toureio.com, visto ser uma marca que já valia alguma coisa) e tivemos que mudar para Toureio.pt. Mas havemos de recuperar o Toureio.com. E vamos continuando, ao longo destes 15 anos com altos e baixos, mas temos visto muitos sites e blogs a aparecer, uns mantém-se e outros desaparecem.

E as pessoas que têm integrado o projecto? Alguma que queiras destacar?

Há várias que passaram pelo Toureio no Sapo, pelo Toureio.com e pelo Toureio.pt.

Alguns deles com os seus próprios projectos…

Sim, alguns deles com os seus próprios projectos e que estão noutros lados, também. Mas recordo aqui o primeiro colaborador do Toureio no Sapo, que por acaso no dia 1 de Fevereiro de 2004 salvo erro, enviou uma crónica. Chama-se Fernando Pereira. Enviou para dois sites, enviou para o Touro Bravo que na altura era gerido pelo Hugo Fialho, de Beja, e enviou para o Toureio no Sapo, que era gerido pelo Hugo Calado. E aquele que agarrou primeiro na crónica, foi para onde ele foi colaborar. Foi para o Toureio no Sapo, na altura, e ainda hoje se mantém. Depois foram aparecendo outros colaboradores como o João Silva, que tem o Sol e Sombra, depois passaram também a Solange Pinto e o João Dinis, do TouroeOuro. Eu não me importo de dizer o nome dos sites porque a concorrência para mim não me importa. O que importa é a qualidade do trabalho que se faz. E depois ainda se mantêm alguns colaboradores mas destacava o Herlander Coutinho e o fotógrafo Tiago Caeiro que se mantêm há muitos anos neste projecto, e espero não me esquecer de ninguém. O Florindo Piteira iniciou-se no Toureio.com, na altura, e agora trabalha para vários projectos. O Diogo Marcelino também passou, é uma curiosidade…O Pedro Correia, dos Açores… Um sem número deles.

 

A parceria entre o Toureio.pt e o Infocul.pt

 

 

Aproveitando a entrevista, vou-te pedir para esclareceres algumas mentes. A parceria editorial e de conteúdos entre o Infocul.pt e o Toureio.pt fez alguma confusão a alguns seres. Para que todos entendam, não existe concorrência nos conteúdos que ambos os sites possam partilhar, até por serem complementares?

Funciona da mesma forma que sempre funcionou ao longo de 15 anos do Toureio.pt. Ao longo de 15 anos, eu já nem me lembro dos órgãos de comunicação regionalistas com quem estabelecemos parceria. Houve um jornal de Setúbal, com outro de Estremoz, com a Equisport.pt e agora com o Infocul, onde se partilham conteúdos, enfim vai-se trabalhando. Mas nada de concorrências. concorrência só para aqueles que não conseguem fazer melhor e então chamam concorrência. Há um trabalho conjunto e é também o que falámos há pouco na ligação entre várias culturas, sinergias que vão sendo estabelecidas entre órgãos de comunicação social, como poderia acontecer com um site de Inglaterra, Espanha, Canadá, Estados Unidos ou qualquer ponto do mundo.

 

A verdade do trabalho

O que é que gostavas ainda de fazer na tauromaquia em Portugal?

Falta sempre muita coisa, mas o essencial vai-se fazendo ao longo do dia que é trabalhar com verdade, e sempre que se ler algo no Toureio.pt é sinal de que é verdade! Se não for verdade é sinal que ontem foi branco e hoje é preto, mas que ontem essa verdade aconteceu.

Se tivesses que definir todo o teu percurso, enquanto jornalista, numa única palavra. Qual seria?

Curioso.

 

Fotografia: D.R

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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