Joana Almeida: “Eu sou uma pessoa que anda sempre deslumbrada com tudo”

Deslumbramento’ é o nome do primeiro disco de Joana Almeida, jovem com 22 anos e intérprete de Fado. Joana Almeida concedeu entrevista ao Infocul.pt para abordar o novo disco e falar, um pouco, do seu percurso.

Natural de Felgueiras e sem nunca sequer sonhar ser cantora, quis o destino que fosse em Lisboa a encontrar o Fado e a fazer dele a base do seu primeiro disco.

Venceu, com 17 anos, o 2.º Grande Prémio Nacional do Fado da RTP 1. Num curto percurso, destaca-se a participação nos festivais Caixa Alfama e Caixa Ribeira, actuações na Casa da Música e Centro Cultural de Belém e ainda as casas de fado em que já cantou: Fado Ao Carmo, Luso, Maria da Mouraria, Parreirinha de Alfama, Mesa de Frades, Tasca do Chico, Mascote da Atalaia e Páteo de Alfama

A produção do disco é de Tiago Machado. A edição será a 21 de Fevereiro, mas dele deu já a conhecer os singles ‘Vem ver a lua’ e ‘Fado dos Namorados’.

Neste seu primeiro trabalho discográfico há ainda a destacar vários autores e compositores: Hélder Moutinho, Pedro da Silva Martins, Luísa Sobral, Cátia Oliveira, Valter Rolo, Boss AC, ÁTOA, João Couto, Fernando Cardoso, Tiago Correia e Billy Blanco.

Joana começou por explicar-nos a escolha do nome do disco, ‘Deslumbramento’, pois, segundo ela, “pelo menos neste primeiro disco faz todo o sentido, pois, como falámos, é muito vulgar eu nesta idade deslumbrar-me seja com o que for e eu sou uma pessoa que anda sempre deslumbrada com tudo. Não é só com uma paixão, não é só por rapazes, é mesmo por tudo”.

Acrescentou que “nesta fase, eu vim para Lisboa em 2015, sinto que neste percurso até 2020 andei sempre deslumbrada com a cidade e com o próprio Fado que descobri, que é recente no fundo, porque eu não cresci no meio do Fado digamos assim. Portanto, acho que, para primeiro disco, ‘Deslumbramento’ é o nome indicado e caracteriza a minha pessoa”.

Tiago Machado foi o produtor deste disco e Joana revelou-nos que “já acompanhava o trabalho do Tiago Machado, principalmente depois daquele tema que ele compôs para a Mariza, o ‘Oh gente da minha terra’. Nunca pensei chegar até ele, eu consegui chegar até ele através da editora. Houve um dia em que reunimos e pensámos em quem é que poderia ser um bom produtor e surgiu o nome do Tiago, eu já sabia o trabalho dele assim por alto e pensei, isto se calhar era um bom produtor para o meu disco, porque quero um disco jovial e que mostre a minha pessoa”.

Sobre o processo de gravação do disco e escolha de repertório, explicou-nos que “demorou uns meses, talvez uns três meses. As coisas aconteceram de uma forma muito natural, muito gira”, dando como exemplo “o Tiago Correia, eu lembro-me de estar um dia em casa de fazer uma selecção dos fados tradicionais que queria gravar e liguei para o Tiago e desafiei-o para escrever um Fado para mim e no próprio dia mandou-me a letra, fui ver, e realmente era a minha cara”.

Sobre este tema, ‘Vem Ver a Lua’, e a aposta dele para single, justificou que “decidimos pegar primeiro num fado tradicional que é mais a minha praia, tem essa energia toda e eu gosto muito da letra porque acho que me caracteriza bastante, até pelo titulo, vem ver a lua, a lua é aquele elemento que temos ligado ao romance e no fundo a letra é um próprio romance. É um romance pela própria cidade, pelo próprio cantar e o Tiago conhece-me muito bem e conseguiu explicar isso numa letra”.

De seguida, deu o exemplo do tema ‘Meu Par’, da autoria de João Couto. “Também surgiu de uma forma engraçada. Estava eu a cantar na Maria da Mouraria, com o Helder Moutinho, e o João Couto estava lá. O Helder apresentou-nos um ao outro e depois voltámos a encontrar-nos na Casa da Música, no concerto da Teresinha Landeiro, e falámos sobre eu estar a fazer um disco, disse-lhe ‘estou a juntar agora o reportório’ e ele disse que ia fazer uma música”.

E numa continuada análise ao disco, destacou o “poeta que é o Fernando Cardoso, ele mandou-me o ‘Beijo roubado’ que fala de uma desilusão de amor, que também faz parte da minha idadeou ainda “Canto d’Alma’, estava outra vez na Maria da Mouraria e eu andava à procura de uma letra para o Mocita dos Caracóis e na própria noite disse-me que tinha uma letra que devia assentar”, referindo-se a Helder Moutinho, que assina a letra.

Assumiu que “o resto dos artistas, que aí estão, eu não conhecia pessoalmente, mas sempre acompanhei o percurso deles e apreciava muito”.

Sobre o produtor do disco, acrescentou ainda que “acho que no fundo foi um desafio para o próprio Tiago, mas eu confio nele porque ele tem uma sensibilidade musical incrível e o Tiago teve a sensibilidade de perceber que eu era nova e que queria atrair o público mais jovem. Eu aposto no Tiago para qualquer coisa. Ele percebeu bem a intenção daquilo que queríamos fazer”.

Neste disco contou com os músicos “Nelson Aleixo na viola, o Bernardo Couto na guitarra portuguesa, o Marino de Freitas e o Sertório Calado na percussão e o Tiago Machado no piano”.

Quando questionada se sempre sonhou cantar, “sou sincera, não de todo. Eu sempre gostei muito de música, mas cantar não fazia parte dos meus planos”.

Sobre o seu percurso, disse que “o sei explicar, eu sempre gostei muito de música e aos 12 anos eu pedi para ir estudar piano. Eu queria era tocar, não queria de maneira nenhuma cantar. Mas no fundo, a música sempre essteve muito presente e o fado também esteve”.

Eu não nasci numa terra ligada ao fado, mas o meu pai quando eu era miúda cantava muito aos fins-de-semana de uma forma amadora com um amigo e o amigo dele tocava guitarra portuguesa e o meu pai, piano e viola. Eu lembro-me de ser pequenina e de ouvir o meu pai a cantar fado e eu ficava ao pé dele a ouvir e achava que cantava muito bem, mas não me identificava com aquilo”, acrescentou.

Aos 17 anos eu não sei explicar o que aconteceu, comecei a ter vontade de cantar e comecei a ir com os meus colegas para o karaoke, comecei a ir para o coro da igreja e ainda fiz parte de uma banda de metal, mas tudo amador”, disse, não evitando as gargalhadas.

Até que “uma vez fomos assim para um concurso de karaoke, típico da região, e na final do concurso era sorteado um tema para cantar e a mim calhou-me um fado da Amália, mas como não sou uma pessoa de desistir, cheguei a casa e disse ao meu pai que me tinha calhado ‘grima’ de Amália Rodrigues e ele disse-me para ir ouvir e na altura fui ouvir. De todo, não é um fado para a minha idade, mas apreciei muito o poema e tive alguma curiosidade em ver mais coisas de fado e aí comecei ganhar um respeito que, até então, não tinha pelo fado”.

Na conversa que teve connosco, explicou ainda que a Mesa de Frades tem um lugar de destaque em termos de importância no seu percurso, que participar no projecto Rua das Pretas a tem ajudado bastante a aprender várias coisas e a ouvir outras sonoridades.

Desafiada a dar um nome, se a sua vida fosse um fado, disse que “seria algo relacionado com aventura”.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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