João Caetano: “O que eu tento fazer é um casamento entre o oriente e o ocidente”

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O jovem percussionista João Caetano, da famosa banda de jazz britânica “Incognito”, acaba de estrear em Portugal o seu projecto a solo, em que alia a musica tradicional portuguesa a sonoridades orientais.

 

 

Em entrevista ao Infocul, João Caetano fala sobre este casamento entre o Oriente e o Ocidente. No EP que agora apresenta ao público é acompanhado em palco por Manuel Rocha, na guitarra; Pedro Pires, na guitarra; Pity, no baixo; André Silva, na bateria; André Dias, na guitarra portuguesa; Ricardo Anastácio, na viola e Maria Emília Reis, na voz. A João Caetano cabe a voz e percussão.

 

 

Este EP foi produzido pelo músico, foi gravado, misturado e masterizado pelo alemão Mo Hausler no Livingstone Studios, em Londres, e conta com participações especiais de músicos do actual panorama do Fado, como: o virtuoso da Guitarra Portuguesa ,Ângelo Freire; o conhecido Viola de Fado ,Pedro Soares e a jovem talentosa Voz do Fado, Maria Emília Reis. Conta ainda com participações de músicos chineses, que trazem, para os temas, novas sonoridades.

 

 

O EP conta com as faixas “O Poema à Minha Cidade”,”Eterno Farol” e “Vale do Rossio”, as duas primeiras, com letra de João Caetano, e a última, uma canção assinada pelo prestigiado Paulo Abreu Lima. João Caetano, assina todas as músicas, algumas das quais em parceria com os músicos Ângelo Mateus e Francisco Sales.

 

 

 

João, tens agora um novo EP a solo, começo por te questionar quando surgiu a música na tua vida?

 

A música está comigo desde muito cedo, eu desde os 3/4 anos que toco música. Depois de 3/4 anos nos Incognito, onde já estou há sete, comecei a pensar no que é que eu queria comunicar às pessoas e na mensagem que queria passar, e dentro desse enquadramento que estou a trabalhar há quatro anos, a música vem ter comigo todos os dias, porque eu escrevo muito, tenho várias ideia e depois sou o produtor dos temas, portanto depois os temas crescem e ganham dimensão no estúdio com os músicos que eu vou convidando não so para acabar de compor os temas ou mesmo para compor de raiz. Eu diria que é mesmo muito dinâmico, a música existe em mim de uma maneira muito dinâmica.

 

 

Quais são as tuas fontes de inspiração?

 

Eu sou um observador não só das pessoas que me rodeiam mas também das viagens que faço. Os temas surgem muito disso, como por exemplo o caso de “O poema à minha cidade”. Depois há temas que surgem de parcerias com letristas e sou da opinião que essas parcerias se devem fazer. Em termos de leitura, eu li muito Fernando Pessoa, eu tinha vários livros de Fernando Pessoa, inclusivamente algumas frases marcadas para tentar percebe-las, e obviamente também José Saramago. À parte disso eu gosto muito de ver cinema e videoclipes porque há videoclipes que têm histórias… Olha ainda ontem estava a ver um do David Bowie por exemplo… E tudo isto me inspira.

 

 

Neste EP além de cantares em português foste buscar a guitarra portuguesa. És fã da guitarra portuguesa ou foi para vincar ainda mais a portugalidade deste EP?

 

A guitarra portuguesa é para mim o símbolo maior em termos sonoros do que é Portugal fora de Portugal. Quando se ouve uma guitarra portuguesa, as memórias e lembranças do país, todas essas emoções vêm ao de cima. Em termos de simbologia é essa a minha opinião da guitarra portuguesa. Mas a guitarra portuguesa não está na música por causa disso. A guitarra portuguesa está na música porque tenho a sorte de ter amigos que são guitarristas incríveis de guitarra portuguesa e que entenderam o projecto e conseguiram enquadrar a guitarra portuguesa no projecto. Porque a guitarra portuguesa está integrada no projecto dessa forma.

 

Quem é que dá vida à guitarra portuguesa no teu projecto?

 

Ao vivo está a ser o André Dias que tem feito um trabalho absolutamente incrível, nas gravações tem sido o Ângelo Freire que é o guitarrista da Ana Moura e que aos 16 tocava com a Mariza.

 

 

 

E que é um excelente fadista também enquanto intérprete…

 

Sim e ele sabe disso. O Ângelo para mim é uma referência da música tradicional sem dúvida alguma.

 

 

 

Com este EP e estando preparado um disco para o próximo ano, o teu objectivo é não passar Incognito?

 

(risos) Sim sem dúvida que sim. Eu acho que tenho muito a ganhar com este projecto, que no seu DNA foi criado com um conjunto de pessoas que eu respeito e tenho um grande carinho por elas e temos trabalhado muito para que este projecto consiga ter uma marca na música internacional.

 

 

Tu que tens já a experiência de muitos palcos internacionais, como vês actualmente a música portuguesa?

 

Olha sou um grande fã do trabalho da Ana Moura, acho que é um trabalho que está ao nível de um Grammy. Falando de Grammy, gosto de Marco Rodrigues, com um trabalho do Diogo Clemente também e que esteve agora nomeado para um Grammy, gosto de Mariza… O trabalho que ela fez com o Javier Limon e com o Jaques e o Mário Pacheco no Brasil. Depois temos também o trabalho do António Zambujo, da Luísa Sobral, que são alguns dos nomes que eu admiro e que fazem um óptimo trabalho ao nível internacional.

 

 

Quem é João Caetano fora dos palcos?

 

[Pensa] Olha nem sei que te diga. Eu trabalho muito e de uma maneira muito intensa, porque eu vou à procura do que é melhor para a visão que eu tenho da música. Em termos de imagem sou um grande fã de moda, sou um grande fã de cinema, sou um grande fã da vida partilhada em família embora  a minha viva longe, e depois sou um amante da viagem.  Adoro viajar, conhecer o mundo, conhecer pessoas dos quatro cantos do mundo, são pessoas que tyrazem mais cor à vida e que nos fazem entender a vida de uma outra maneira.

 

 

Pegando na palavra viagem, porque géneros musicais viaja quem ouve a tua música?

 

Olha só quem me ouve é que poderá responder. Pegando nessa pergunta e moldando-a de outra maneira, o que eu tento fazer é um casamento entre o oriente e o ocidente, porque no fundo é o que eu sou. Os meus pais foram de Portugal para o Oriente, e eu nasci lá. Portanto o meu objectivo é trazer sonoridades e tons musicais que me façam lembrar o oriente mas que tenham essa marca portuguesa.  A tradição portuguesa está assente nos bombos, na guitarra portuguesa, está assente nas guitarras e nos músicos.

 

 

Sendo tu um nome pouco conhecido em Portugal, sentes que é mais difícil conquistar o lugar ao sol?

 

Não. Eu acho que tudo precisa de trabalho. Não só a música precisa de ser trabalhada, a minha demorou quatro anos a ser trabalhada, como depois também toda a parte da divulgação. Como depois também a parte do espectáculo precisa de ser trabalhada. Embora não haja uma cultura de bares em Portugal como há por exemplo em Inglaterra ou Estados Unidos, mas é preciso trabalhar a música para chegarmos ao maior número possível de pessoas, para pelo ouvirem a musica, porque depois cabe a elas gostarem ou não.

 

 

Sentes que neste trabalho mostras não só o teu lado artístico como também o lado humano?

 

Eu não faço essa separação assim tão crua. Há um personagem em palco e que tira elementos do lado pessoal, mas não vou ter o meu eu pessoal completamente em palco porque a personagem em palco é aquela que é criada com elementos do pessoal.

 

 

Se te fosse dada a possibilidade de efectuares um dueto com alguém que admires quem escolherias?

 

Os duetos surgem dependendo da música… No caso da Maria Emilia Reis o tema pedia a voz da Maria Emilia Reis. Podes perguntar obviamente nomes que eu admiro na musica internacional, há obviamente músicos que eu admiro e teria todo o prazer em fazer duetos com essas pessoas. Posso dar como exemplo Peter Gabriel, Paul Simon, Sting, sou um grande fã dos Coldplay, sou um grande fã de Mumford & Sons, da estética deles, sou um grande fã dos Beattles, do Paul McCartney…

 

 

Para quem quer acompanhar o teu trabalho onde poderá fazê-lo?

 

Pode fazer no Instagram, sou muito activo lá, basta procurar por Caetano Music, e claro no Facebook embora seja menos activo. Têm ainda o meu site www.caetanomusic.com e o canal de youtube.

 

Fotografia: Alfredo Matos. (Efectuada no recente concerto no Museu do Oriente, em Lisboa)

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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