João Farinha revela: Sim “é um sonho antigo!”

 

 

 

“Sim” é editado a 25 de Maio, amanhã. É o disco de João Farinha & Fado ao Centro que tem em si e na sua génese o Fado de Coimbra. João Farinha concede uma entrevista ao Infocul em que aborda o processo criativo e de produção do disco, explica o projecto Fado ao Centro, fala do seu percurso, da actualidade do Fado e do Fado de Coimbra, e ainda os espectáculos que se aproximam.

 

 

Quando é que começou a pensar neste disco?

Este disco é um sonho antigo! Quando o projecto Fado Ao Centro começou em 2011, absorveu por completo a minha atenção e dedicação, o que acabou por relegar para segundo plano a intenção de gravar novos temas. Quando o Fado ao Centro se sedimentou enquanto projecto, a minha disponibilidade ressurgiu e assim também a vontade de gravar um disco em nome próprio. O objectivo era juntar alguns dos temas que ao longo da minha carreira artística, a completar 20 anos, tinha vindo a compor e juntar-lhes novas composições.

 

Porquê “Sim” como nome para um disco? É uma intenção de afirmação?

“Sim” acima de tudo é uma afirmação incondicional da nobreza e da maioridade de um fado, o de Coimbra. “Sim” é também a assunção da minha responsabilidade enquanto cantor e criador de temas. “Sim” é o culminar de uma luta para a divulgação de um género musical que durante anos a fio tem sido relegado para segundo plano. “Sim” é o sétimo tema do disco, onde está musicada a contradição de Pessoa nas palavras de Ricardo Reis “Sim, sei bem que nunca serei alguém. Sei de sobra que nunca terei uma obra. Sei, enfim, que nunca saberei de mim.” “Sim” sintetiza a minha mensagem artística e abre as portas para a conhecer e partilhar.

 

Podemos afirmar que neste disco tenta criar uma ponte dando novas sonoridades e instrumentos ao tradicional Fado de Coimbra?

O objectivo foi simplesmente fazer música com a qual me identificasse e que me preenchesse. A experiência do Luís Pedro Madeira na produção trouxe, de facto, outra abertura musical e a introdução de novos instrumentos e sonoridades foram resultado disso mesmo. Os arranjos do Luís Pedro e dos meus companheiros do Fado Ao Centro tornaram o disco mais abrangente e a navegar por caminhos nunca antes navegados pelo Fado de Coimbra. O futuro dirá se essas pontes foram criadas, mas não foi esse o objectivo do trabalho.

 

 

David Mourão Ferreira, Florbela Espanca, Antero de Quental, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Mário Cesariny, Ary dos Santos, entre outros. Como foi a escolha dos poemas? Acaba por juntar aqui a ‘nata da nata’…

A escolha foi feita ao longo dos anos em que fui compondo e obedecendo apenas a dois critérios: gostar e identificar-me com o poema.

 

Há ainda público que acha que o Fado é todo a mesma coisa. Quais são as características mais vincadas do Fado de Coimbra?

Do ponto de vista meramente musical o Fado de Coimbra tem alguns traços que o distinguem, nomeadamente do Fado de Lisboa, como o facto de se utilizar a guitarra portuguesa de Coimbra, afinada um tom abaixo da afinação natural e o facto de se utilizar, fundamentalmente, o ritmo quaternário em que a guitarra portuguesa para além de ser instrumento solista, tem um papel de acompanhamento. Quanto aos aspectos não musicais, naturalmente que a utilização da capa e o cenário de serenata associado ao Fado de Coimbra, lhe dão um encanto muito próprio.

 

Quem o acompanhou em termos instrumentais neste disco?

Naturalmente os meus companheiros e sócios do Fado Ao Centro, Luís Barroso e Luís Carlos Santos, respectivamente na guitarra portuguesa e na viola, mas também o Hugo Gamboias na guitarra portuguesa, o Luís Pedro Madeira no piano e baixo acústico e o quarteto Opus Quatro nas cordas. A produção esteve também a cargo do Luís Pedro Madeira.

 

Quais foram os maiores desafios na produção e gravação deste disco?

O primeiro grande desafio foi encontrar alguém para produzir o disco, que entendesse a nossa linguagem, o que foi conseguido quando o Luís Pedro Madeira aceitou o nosso repto. O segundo grande desafio foi, sem dúvida, conciliar todas as agendas para programar ensaios e gravações. Entre o início dos ensaios, as gravações e o lançamento do disco, decorreram praticamente 3 anos.

 

Quais o espectáculos já agendados e que pode revelar?

Temos diversos espectáculos agendados que começam com o concerto de lançamento do disco no dia 15 de Junho às 21:30 na Antiga Igreja do Convento de São Francisco em Coimbra. Mas iremos igualmente percorrer diversas FNACs no país durante os meses de Junho e Julho (Coimbra, Oeiras, Matosinhos, Guimarães, Braga). Outros dos concertos agendados são em Paços de Ferreira no dia 14 de Julho, no dia 9 de Agosto em Oliveira de Azeméis, 26 de Outubro em Ourique e no final do ano estamos a preparar uma nova digressão nacional que nos levará até ao Porto na Casa da Música no dia 28 de Novembro e a Lisboa ao CCB no 15 de Dezembro. No estrangeiro, temos igualmente programados alguns concertos, nomeadamente em Setembro, dia 15, na Bélgica em Ghent, no dia 28, na Dinamarca, em Copenhaga e, na Suécia, nos dias 29 e 30 em Estocolmo e Gotemburgo, respectivamente. Para 2019 temos igualmente digressões marcadas, nomeadamente em Fevereiro na Holanda e em Março e Abril na Alemanha.

 

É muito difícil afirmar quem são os nomes que podem vir a ser destaque no Fado de Coimbra, em grande medida pelo facto de se manter um género musical maioritariamente amador

 

Onde pode o público interagir consigo nas redes sociais?

Pode fazê-lo diretamente através dos canais do Facebook do Fado ao Centro , no Instagram , no Twitter e no Youtube .

 

 

Para esclarecer o público, quem é João Farinha e o Fado ao Centro?

João Farinha & Fado Ao Centro é o nome escolhido para personalizar este trabalho musical no seio do Fado Ao Centro. O Fado ao Centro é um projecto cultural em Coimbra que engloba várias valências como: casa de fados, escola de fado, oficina de construção de instrumentos, edição de discos e livros, promoção e produção de espectáculos; naturalmente que a especificidade deste trabalho exigia um nome singular. Pelo facto de ser um trabalho que reúne alguns dos temas a que dei vida durante a minha carreira artística, é justificada esta designação.

 

Como analisa o actual momento do fado a nível nacional, com várias vozes a aparecer?

A meu ver o Fado vive uma época de ouro, com novas e excelentes vozes e instrumentistas a surgir, quer em quantidade quer em qualidade. O alargamento do ensino da música no nosso país, o crescente interesse no estrangeiro pelo Fado (fruto da elevação a património da humanidade) contribuiu, a meu ver, para esta vaga. Apesar de ser um fenómeno mais relacionado com o Fado de Lisboa, o ramo de Coimbra também beneficiou desta conjuntura, embora sem o mesmo mediatismo e força.

 

No Fado de Coimbra quem são os nomes que podem vir a ser destaque, na sua opinião?

É muito difícil afirmar quem são os nomes que podem vir a ser destaque no Fado de Coimbra, em grande medida pelo facto de se manter um género musical maioritariamente amador. Quero com isto dizer que, a maioria dos seus intervenientes acabam por, ao fim de pouco tempo, abandonar a música e abraçar outras carreiras. Há novas vozes e instrumentistas a surgir todos os anos e os primeiros projetos profissionais começam agora a dar cartas, mas reafirmo que é complicado dizer se são passagens fogazes pelo Fado de Coimbra ou se estão para criar raízes.

 

os concertos ao vivo e a presença forte nas redes sociais são agora, mais que nunca, determinantes para o sucesso neste meio

 

Quais os maiores desafios que o mercado musical, em Portugal, cria?

O mercado musical em Portugal, como no mundo, vive momentos de adaptação à realidade das novas tecnologias e da hegemonia das redes sociais. Com os CDs a perder força face à música em streaming on-line, os artistas têm que se adaptar para responder a estes novos desafios, sendo que, em meu entender, os concertos ao vivo e a presença forte nas redes sociais são agora, mais que nunca, determinantes para o sucesso neste meio. No Fado de Coimbra esse factor é ainda mais importante, pois como se trata de um género musical alternativo e de nicho, para alcançar novos públicos, a aposta nestes novos meios deve ser decisiva.

 

Qual a mensagem que pretende deixar aos leitores do Infocul?             

Espero que os leitores da Infocul não fiquem indiferentes e descubram em “SIM” uma mensagem positiva que acrescente algo nas suas vidas.   

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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