Jorge Goes: “Adoro derrubar barreiras com a caneta, poder transmitir as palavras através da minha voz”

 

 

‘Fado Novo Fado Velho’ é o mais recente disco, o terceiro da discografia, de Jorge Goes, no qual faz uma homenagem ao seu pai, João Goes. Um trabalho gravado entre Maio e Setembro de 2017, contando com produção de Carlos Menezes. Um disco que conta com Bruno Chaveiro, Domingos Galésio e Carlos Meneses na vertente instrumental.

 

Dos treze temas que constam no disco, há dois inéditos, pretendendo Jorge Goes um regresso às raízes do Fado. Numa longa entrevista ao Infocul, redigida e protagonizada por Rui Lavrador, Jorge Goes respondeu a todas as questões. Uma oportunidade de o conhecer, como fadista e homem, de perceber como o Ribatejo, o Alentejo e até Espanha estão neste disco.

 

Quando começou a preparar este disco?

O disco começou a ganhar vida em Janeiro de 2018,já tinha uma ideia de repertório ,era só escolher os treze temas finais,juntamente com o produtor.

O nome é uma provocação, relativamente ao fado actual e de outrora?

Não,é apenas o titulo do single do disco, tento no conteúdo da letra dar a conhecer um pouco da história do fado, desde outrora ate aos dias de hoje,o Fado como qualquer outro estilo musical vai evoluindo normalmente,bem aceite por alguns, mal aceite por outros,cada um é cada qual,não critico as outras opiniões. Pode ver no meu canal youtube o videoclip gravado por vários bairros típicos de Lisboa e conhecer um pouco mais em www.jorgegoes.com

Elvas é Boémia, ou é mais do que boémia?

Este tema com letra original do ano 1991,escrito por João Ficalho no qual o refrão é adaptado por mim,fala um pouco das noites de boémia que se viviam nesses tempos em Elvas ,precisamente mais nas noites de Fado que eu promovia no meu espaço “Conquilha bar” um bar que me pertenceu desde 1988 a 1995, era habitual no meu bar existirem noites de fado e música ao vivo. Elvas desde então sofreu algumas alterações sendo a noite elvense algo mais calma,sintoma dos tempos actuais reflexos da crise ,notando-se mais nas pequenas cidades do interior com a saída de muitos jovens para as grandes cidades e estrangeiro,mas Elvas continua a ser uma linda cidade e é há alguns anos cidade património da humanidade pela UNESCO.

 

 

Neste disco assina a autoria de muitas letras. É um disco biográfico?

Não,se analisar bem os temas é um disco com um tema meu na integra,um com musica minha e outro com um refrão da minha autoria,o resto são temas bem conhecidos e dois temas cantados em espanhol adaptados ao Fado.

O ‘Fado Novo Fado Velho’ pode ser um hino da actualidade fadista?

Este tema “Fado novo Fado velho” tem na voz, opinião de muitos ouvintes uma obra muito boa,ao compor este tema nunca foi a minha intenção de fazer um hino, mas quem o ouvir e achar que pode ser ,porque não? eu gosto muito do tema,sou suspeito!…

Considera que o que muito se faz no Fado acaba por não ser Fado?

Pode ser um Fado mais comercial,pois hoje tudo se rege aos números,a venda de discos e espectáculos é muito importante para a industria discográfica ,acho que até há temas novos bem giros e animados.

 

 

 

Faz uma homenagem à família Bastinhas. Recentemente faleceu Joaquim Bastinhas. Qual a ligação que tem à família Bastinhas e qual a importância deles na cultura em Portugal?

A minha ligação à família Bastinhas é o quanto baste e muito boa,decidi dedicar este fado no timing quase certo,devia ter vindo uns anos antes ,mandei fazer a letra por encomenda a um grande amigo, poeta popular do concelho de Elvas(Francisco Rasquilha), ele entendeu na perfeição qual seria a mensagem que a letra tinha que conter,seria festa brava e a arte da família Bastinhas “O toureio a cavalo”. A família Bastinhas marca sem sombra de duvida um ponto alto, muito positivo no panorama tauromáquico em Portugal,têm o seu próprio estilo de estar em praça,responsáveis pela divulgação deste tipo de cultura por todo o mundo e um dos seus grandes atributos é a simpatia,estar muito junto do publico,tendo o seu publico fiel.

Que ‘Outro Alentejo’ é este que tem no seu disco?

É um Alentejo que muita gente não conhece nos grandes centros, através da letra tentamos dar a conhecer as nossas tradições, mostrar ao mundo quem somos ,não só a Portugal, o Alentejo é uma região onde se situa o maior lago artificial da Europa e foi em tempos o celeiro de Portugal,este Alqueva existe,foi criado com a finalidade de levar agua às nossas terras e gentes ,pois que tanto sofremos de secas extremas com um calor abrasivo no verão e com Invernos muito frios,resumindo nós os Alentejanos estamos preparados para resistir a quase tudo. Dizer por último que este “Outro Alentejo” é uma segunda parte de outro tema chamado ” Alentejo” que o mesmo poeta escreveu tempos atrás para outro fadista amigo.

Recupera ‘Maria La Portuguesa’. Terá alguma ligação com a forte proximidade do Alentejo a Espanha?

Sem duvida,é um tema que canto há bastante tempo na versão original “Passodoble”,derivado à proximidade das terras de Espanha e fazer bastantes concertos por lá. Achei por bem meter este tema no alinhamento por uma questão de respeito a muitos amigos, ouvintes espanhóis,fizemos esta versão mais soft como se de um bolero se tratasse,o resultado final foi fantástico,um dos temas de muito sucesso em todos os meus concertos ,principalmente juntos dos espanhóis ,a filha do autor Arantxa Cano deu autorização imediata para a sua edição desde o primeiro momento que ouviu o tema,fizemos um videoclip deste tema ,foi feito na Casa do Alentejo em Lisboa,vale a pena ver ,pois a bailarina de flamenco que me acompanha é fantástica.

 

 

O que o motiva a escrever?

As coisas boas e menos boas que se atravessam na vida,adoro derrubar barreiras com a caneta, poder transmitir as palavras através da minha voz, o conteúdo da mensagem,apesar de não me considerar um poeta ou fazedor de letras,dou-me melhor com a composição.

Quem foram os músicos que estiveram consigo neste disco?

Um luxo falar deles ,começo com o Carlos Meneses,baixista e produtor do álbum,mais jovem que eu,tivemos em tempos um projecto giro “Fado com swing”,músico com um grande curriculum por de trás,grande senhor,excelente músico e como produtor é muito exigente ,como deve ser,neste momento integra grandes projectos musicais ,falar mais do Carlos seria pouco. Bruno Chaveiro, guitarra portuguesa do álbum e também responsável por muitos arranjos dos temas do álbum,um dos maiores talentos emergentes da nova geração de guitarristas,hoje acompanha grandes nomes do Fado,já correu meio mundo,um jovem muito talentoso,dos melhores, vamos ouvir falar muito dele,pois não é uma promessa já é uma realidade. Domingos Galésio,viola do álbum,grande pessoa,um exímio executante ,tem uns dedos de oiro,poucos tocam a viola como ele,os seus dedos não servem só para tocar as cordas da viola, também é um construtor de instrumentos de corda,dos melhores que conheço, responsável também da maior parte dos arranjos dos temas,é um dos grandes violas de Fado deste pais com uma batida e noção de compasso fora de série.

 

 

O amor é uma força para a escrita ou uma dor de cabeça para a realidade?

Sem sombra de duvida é uma força, o amor move montanhas,sem amor seria impossível existir a humanidade.

‘Júlia Florista’ e ‘Oiça lá Ó Sr. Vinho’ são dois dos clássicos do Fado?

Claro que sim ,temas sobejamente conhecidos e cantados por muitos fadistas e não só,escritos por grandes compositores e poetas,qualquer destes temas faz parte integrante do repertório de muitos artistas,de dizer que ambos os temas são cantados por ambos os sexos.

Qual o critério que usou para a escolha de repertório deste disco?

Tentei fazer uma escolha equilibrada que fosse ao encontro do meu público, fados que se adaptam ao meu estilo de interpretar,alguns deles fazem parte do meu repertório desde sempre,outros entraram com a gravação do disco,como os temas ,Oiça lá ó Sr.Vinho,O Homem do Ribatejo,Amor de mel amor de fel,Piensa en mi, são exemplos.

Teve Carlos Menezes como produtor. Considero-o um dos músicos com maior sensibilidade em Portugal. Quais as grandes marcas dele neste disco?

A marca do Carlos Meneses nota-se logo, na escolha dos músicos para começar, o cuidado minucioso de toda a produção em estúdio, misturas finais e masterização, a maneira como pôs os músicos a tocar os temas, com arranjos muito próprios e diferentes das versões originais,nota-se em especial a sua qualidade e gosto refinado,como exemplo no tema Júlia Florista,arranca com um solo inicial que poucos o fariam,aliás todo o cuidado que o Carlos põe no que faz nota-se,ele deixa a sua marca bem patente no grande profissionalismo,dedicação e muito trabalho que dedica,só assim se consegue estar na linha da frente.

 

 

O ‘Homem do Ribatejo, acaba por ser uma imagem do típico português?

Podemos dizer que sim, os Ribatejanos e os Alentejanos somos muito parecidos,temos muito em comum,somos homens valentes,nobres,habituados ao trabalho duro do campo,na lide de animais bravos, o gosto pelo Fado e à festa brava. No Ribatejo a par do Alentejo canta-se muito bom Fado ,dando ao fado grandes nomes de interesse nacional,não só de Lisboa vive o Fado,claro que a capital é a catedral do Fado,mas não esquecer que o Fado é português, e diz o provérbio “Onde há um português há um fadista”.

Quem é Jorge Goes, além da música e quais os grandes prazeres da vida?

Jorge Goes é um ser humano normal como qualquer outro,tento ser sempre melhor amanhã que hoje,aprendendo com os erros do passado, ninguém é perfeito,nem Jesus o foi,tenho um grande defeito,tenho o coração na boca. Sou católico não praticante, tenho fé ,não temo a morte e acredito que existe algo para alem da morte,a morte é física o espírito é eterno. Aprendi com o tempo a ouvir os mais jovens e estou muito mas muito atento ao que dizem os sábios da velhice ,gosto de aprender, fazer coisas novas ,andar entretido ,sentir-me vivo,não gosto da rotina,se por vezes não faço mais e melhor é porque não sei nem consigo… Adoro estar na minha casa,durante a semana é o meu trono, a minha grande prioridade é a família,adoro organizar eventos,sou o director do festival de jazz de Elvas “ArtJaZzFestival”,vamos este ano para a 5ª edição,este ano será nos dias 26,27 e 28 de Março 2019. Passo a frisar alguns dos meus prazeres,fazer amizades, só das saudáveis pois o lixo tóxico elimino rapidamente,gosto de andar de mota, comer bem, “sou um grande carnívoro”, apreciador de enchidos de porco preto, bom queijo amanteigado de ovelha ou mistura de vaca, acompanhado de um bom tintol ,sou extremamente guloso,adoro chocolate e bolos,sou grande amante de filmes de acção ,ficção cientifica e aventura. Considero-me uma pessoa um pouco à frente do meu tempo ,gostaria de visitar a terra daqui a trezentos anos,a tecnologia fascina-me,em pequeno ambicionava ser cientista e inventar coisas que servissem as pessoas. Afinal de contas não sou do piores,acho que já ganhei o meu espaço na terra e no céu,para finalizar, em primeiro lugar está a minha família,depois a música e os amigos,o trabalho deixamos para o fim pois não conseguimos acabar com ele…

 

 

 

Como equilibrar o mel e o fel do amor?

Com a medida certa ,tudo na vida tem o seu espaço, tempo apropriado com uma balança antiga,equilíbrio.

O Alentejo continua a ser uma região esquecida pelo governo central?

Claro que sim,somos vitimas da descentralização,não duvidem, não sou um nome mais conhecido da música portuguesa porque decidi ficar em Elvas e não abandonar a minha família, aqui vive-se com muita qualidade, mas existe um “Mas” com letra grande,se voltasse atrás na minha vida talvez modificasse algumas coisas,mas essas ficam em segredo,ficarão para uma próxima encarnação,os erros profissionais pagam-se caros,o comboio passa, se não o apanhas à primeira…

Como analisa o actual momento da música em Portugal?

Mau muito mau ,quando se dá tempo de antena a certos pseudo-cantores,músicos,poetas,compositores etc, entretanto outros de grande talento tem que sair do pais para se governarem com dignidade, algo anda mal. Culpados? as editoras, rádios,empresários,promotores etc.. que dão relevância a esta poluição sonora,existem certas coisas que são inadmissíveis. Portugal, um país demasiado pequeno para tanto talento,continuamos com a mesma historia ,os euros sobressaem ao talento puro e cru.

Quais os maiores desafios que tem enfrentado?

Tentar sair com as minhas ideias para a frente,superando muitas barreiras,por vezes pensei desistir,mas desistir nunca, não é digno de um verdadeiro Português,tenho sangue de aventureiro,só peço saúde, pois com saúde não existem desafios para mim,ultrapassarei barreiras e alcançarei os meus objectivos, sozinho nunca ,sempre acompanhado.

 

 

Quem são as suas grandes referências?

A música,sinceridade,honestidade,humildade,seriedade,sorriso,amizade e o trabalho,referências em grandes personagens que fizeram grandes obras em prol dos outros,passo a frisar Madre Teresa de Calcutá,Dalai Lama,Papa João Paulo II,Papa Francisco,Charlie Chaplin,Walt Disney ,Camões,Fernando Pessoa,Champalimaud, Calouste Gulbenkian, Egas Moniz,Mozart, Picasso, Leonardo da Vinci,Frank ,Mohamed Ali,Martin Luther King Jr.,Nelson Mandela,Frank Sinatra,BonoVox,Freddie Mercury e para terminar a maior referencia que temos “Jesus de Nazaré”.

 

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Ufa, terminei uma das melhores e maiores entrevistas que dei desde 2001,ano em que me liguei à vida artística como profissional ,quase três horas a escrever,valeu a pena estar com o Infocul. Continuem a ler o que estes senhores escrevem ,talvez o mais importante órgão de informação cultural que existe em Portugal,sigam o Infocul,obrigado pela entrevista e oportunidade de me dar a conhecer um pouco mais como artista e pessoa. Sigam com o vosso excelente desempenho na divulgação da cultura.

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