José António Falcão: “O Terras Sem Sombra começa a conseguir fazer valer a sua identidade”

TSSconcertoBeja-2569

 

O Festival Terras sem Sombra encerrou a sua 13ª edição em Beja, mas já está a planear a 14ª edição e também a 15ª. Numa entrevista de balanço mas também de previsão para as edições futuras, José António Falcão é um director-geral feliz com o percurso do festival.

 

 

José António, a décima terceira edição do Terras Sem Sombra chegou ao fim. Quer dizer, ainda vai haver a entrega dos prémios mas em termos de espectáculo, biodiversidade e visita ao património terminou. Qual é o balanço final desta edição?

 

Penso que há um salto qualitativo tanto do ponto de vista artístico como do ponto de vista cultural e ambiental. E sobretudo e creio que o Terras Sem Sombra começa a conseguir fazer valer a sua identidade. Ele é um festival que está claramente vocacionado para a música sacra, para a música religiosa que talvez ainda é mais ampla que a música sacra mas não enjeita uma interacção com, no fundo, os grandes reptos artísticos no mundo de hoje e um deles é claramente o cante. O cante esteve presente já na edição anterior, reforçou a sua presença agora e eu penso que tem sido um bom embaixador do espirito do Terras e ao mesmo tempo o Terras tem sido um bom parceiro para, se quisermos, uma redescoberta do Cante. Além disso, a aposta na qualidade mantém-se e se quisermos também a procura de uma escala própria. Ou seja, o Terras não é um grande festival, não é um festival de multidões. É um festival que tem características muito próprias, que também tem que ser repensadas e acauteladas.

 

 

Relativamente ao Cante. O Cante teve presente nas duas apresentações, tanto em Serpa como em Espanha. Teve agora este término aqui presente. Contudo, na programação, ou seja, nos concertos, o Cante não marcou presença. A questão que eu lhe faço, novamente e posso parecer repetitivo, é…há possibilidade de o Cante vir a integrar um dos Concertos do Terras Sem Sombra?

 

Creio que sim. Sem dúvida e sobretudo agora que o Cante está a conseguir encontrar também de alguma maneira a sua etapa clássica, justifica-se já apresenta-lo à luz desta perspectiva precisamente de uma reflexão alargada sobre o papel da música religiosa na sociedade. O Cante, para mim, tem claramente uma origem litúrgica e soube manter-se fiel também a esta vocação. Há evidentemente muitas variantes, muitas designações que os peritos tem escrito e até debatido muito esta questão mas não há duvida que o Cante reflecte muito bem a matriz do património religioso do Alentejo.

 TSSBio-2670

 

Relativamente a este festival e falámos disso de uma forma informal mas pergunto já de uma forma mais formal, o Terras Sem Sombra é um festival e tem lançado dentro da música clássica/erudita/ religiosa alguns nomes para a ribalta. Aconteceu disso ao longo de 13 edições. Relativamente ao Cante, não acha que poderia também ter esse papel, como por exemplo a criação de uma primeira parte de um Grupo Coral de cada localidade que o terras passa?

 

Nós temos que ter aqui um grande respeito pela dinâmica própria do Cante. O Cante tem as suas especificidades, tem já todo um trabalho realizado ao longo de décadas e que tem polos e núcleos de excelência e ficar-nos-ia muito mal agora querer de alguma maneira impor conceitos diferentes neste domínio. Acho que aqui há um grande respeito e temos sentido também da parte de, digamos, dos principais agentes do Cante esse respeito mútuo. Portanto, para nós há aqui uma…como é que eu lhe diria?!…Há aqui uma colaboração que deve respeitar uma determinada lógica. Agora não há dúvida que mais cedo ou mais tarde o Cante vai ter que ter uma dimensão profissional. Ou seja, vamos ter que ter alguns intérpretes e como acontece com outro qualquer género musical ou mesmo com qualquer outra tradição artística de raiz mais vernácula, de raiz mais tradicional, nós temos que ter a prática, digamos colectiva, voluntária, comunitária mas depois sobretudo quando pensamos numa dimensão de internacionalização tem que haver também aqui, isto é um assunto muito debatido e certamente polémico, tem que haver depois alguns intérpretes que tenham aquela disponibilidade e tenham aquela…eu assumiria mesmo isto…aquela performance já que lhe permita de alguma maneira uma itinerância programada com tempo.

 

 

Relativamente a parte musical e para terminarmos a parte musical do Terras, porque o Terras está dividido em três. Há uma analise que eu faço…posso estar errado e se for caso disso corrija-me. Eu acho que o Terras foi evoluindo nesta edição ao longo dos concertos. Ontem, por exemplo, estava um calor muito grande na Catedral de Beja. Havia muitos focos de luz sob os artistas e percebia-se que eles estavam cheios de calor mas também era necessário para eles terem as partituras e eles conseguiram-se adaptar muito bem. Para si, na sua opinião, qual é que foi o melhor concerto, o melhor espectáculo, desta edição?

 

É assim… Eu só lhe posso dizer isto a partir da minha própria sensibilidade. Portanto. Eu não tenho uma formação artística que me permita ter uma opinião mas tecnicamente fundamentada porque no fundo sou mais um expectador no meio dos espectadores. Eu tocou-me de uma maneira muito, muito próxima o quarteto Brentano. Porque, digamos, as obras escolhidas, a forma como elas foram interpretadas e depois uma coisa que eu achei verdadeiramente notável que foi a articulação como grupo. Nós não tínhamos quatro músicos em palco, nos tínhamos um organismo vivo em palco constituído por 4 músicos e isso para mim foi uma experiência muito marcante. Agora eu tenho que dizer que como cristão este concerto dedicado a Bach tocou-me muito particularmente. O ano de 2017 foi um ano particularmente difícil em várias circunstâncias. Para o Terras sem Sombra, para o património do Alentejo e para mim também pessoalmente. Perdi uma pessoa de família muito próxima a qual eu tinha uma ligação muito forte e foi também um grande entusiasta de todo este trabalho feito durante décadas.

 

E que aconteceu quase agora no término…

 

E aconteceu quase agora no término da edição. E portanto aquele concerto deu-me…acho que a musica também tem esse poder, tem um poder de catarse, tem um poder de nos transportar um bocadinho para fora de as vezes o quotidiano que nos oprime, nos magoa. Para mim foi um concerto muito marcante. Além disso eu sou um grande apreciador do trabalho de Michel Corboz e eu acho que o mestre Corboz está aos seus 83 anos verdadeiramente no apogeu porque junta a perfeição técnica absoluta, junta depois uma interpretação sentimental atá ás vezes muito pessoal que realmente mostra um Bach diferente da aquele que nós estamos habituados. Estamos habituados a um Bach muito formal, muito perfeito, ontem tivemos essa perfeição e tivemos mais do que isso.

 TSSBio-2672

 

Houve uma grande novidade nesta edição que foram as visitas ao património histórico e essas visitas ao património histórico acabam por ser uma inovação no Terras Sem Sombra. O Terras vai-se renovando. Qual é o balanço que faz dessas visitas ao património e pergunto-lhe se também houve alguma adaptação sua. Isto porque no início havia visitas que eram muito longas, e portanto cansativas tendo em conta que tínhamos um público muito idoso. Houve alguma adaptação sua? Não houve? E que balanço faz de todas as visitas ao património?

 

Eu creio que uma grande surpresa para nós na edição deste ano, foi realmente a enorme adesão. Foi uma adesão insuspeitada em relação às visitas realizadas ao património histórico-cultural dos centros das nossas cidades e vilas. Realmente não esperávamos que houvesse tanta gente e que realmente as pessoas considerassem isto como um acto natural do festival porque sabíamos que havia nichos que naturalmente se interessariam mas nunca pensamos que todos os espectadores praticamente, ou todos os participantes da biodiversidade também aderissem à vertente cultural ou patrimonial do festival. Claro que nos tivemos que adaptar. No inicio começámos por ser muito formais, quisemos dar uma perspectiva muito genérica. Depois percebemos que o que era verdadeiramente interessante era mostrar o que habitualmente não se visita. Isto tinha um grande poder também de interesse ou de atractividade junto das populações locais porque entramos em sítios que habitualmente não era possível entra-se. Dou-lhe só dois exemplos: casas senhoriais ou por exemplo um quartel operacional, neste caso um comando operacional, da Guarda Nacional Republicana.

 TSSBio-2693

 

Há uma situação que se mantém que é as visitas de biodiversidade. As visitas de biodiversidade que na minha opinião permitem a visita ao Alentejo profundo, ao Alentejo não conhecido. Experiências complementarmente arrebatadoras, desde a paisagem natural a histórias que nunca ou muitas pessoas não saberiam. A Biodiversidade é claramente um ponto ganho desta edição do Terras Sem Sombra?

 

É, perdão um?…

 

Um ponto ganho deste Terras Sem Sombra.

 

Um ponto?…

 

Um ponto ganho por tudo aquilo que ensina.

 

Sim. A nossa ligação à conservação da natureza surgiu sobretudo de um espirito de missão e também de uma convicção profunda que tínhamos que talvez Mário Ruivo tenha expressado da melhor maneira numa frase, eu podia dar-lhe aqui uma teoria muito elaborada do que foi aquela frase que é ‘A cultura é a natureza e a natureza é a cultura’. Não são coisas distintas, são duas faces de uma mesma realidade e todos nós acabamos por viver muito separados da natureza e a natureza neste momento na nossa região precisa de alguns nichos de biodiversidade claramente de maior investimento e sobretudo de uma maior sensibilidade da sociedade, que a sociedade tradicional tinha, ela tinha práticas, no fundo havia uma interacção natural do homem e da biodiversidade que se perdeu. Perdeu-se nas últimas décadas. Não foi só a agro-indústria. Foi também a nossa maneira de encarar a natureza como uma coisa um pouco distante de nós. Nós somos natureza, mais do que qualquer outra coisa. Somos mais natureza do que Cultura. Esse sentido de missão, nós achamos que íamos dar de alguma maneira o nosso contributo para um mundo melhor, acabou por se virar contra nós porque o que aconteceu foi que a natureza nos ajudou a tornarmos o festival mais profundo e interessante . Portanto houve aqui um ganho evidente. Sentimos que se pode ir mais longe. Neste momento o grande desafio é das novas gerações assistir a um envelhecimento de públicos. O publico de ópera, o público da musica sinfónica tradicional… O risco que se corre aqui e que que próximas gerações, pelo menos no nosso pais, fiquem um pouco amputadas dessas experiências que eu penso que fazem parte de um crescimento global de qualquer um individuo numa sociedade de primeiro mundo, não é, portanto tentamos agora fazer um esforço este ano para que os próximos anos dediquem uma atenção maior aos novos públicos. Somos bem-sucedidos porque o público do Terras sem Sombra é um publico heterogéneo. Ele não é muito…etariamente não é muito situado, há gente de basicamente todas as idades. Portanto com uma distribuição geográfica interessante. Agora notamos que  faz falta aqui uma maior aposta na pedagogia musical e nós sabemos bem, enfim, somos de gerações diferentes mas sabemos bem a diferença que faz no desenvolvimento do individuo ter ou não ter acesso, por exemplo, a informação musical alargada.

 TSSVHBeja-2404

 

Fala dos novos públicos. Eu  vou fazer aqui uma ponte para a imprensa. Falamos também recentemente e de forma informal que o Terras sem Sombra está cada vez a dar mais destaque aos órgãos, às novas formas de comunicação, principalmente à imprensa online. Acaba também por ser uma forma de vocês chegarem mais rapidamente as gerações mais novas? Não esquecendo os órgãos tradicionais.

 

Eu penso que é sobretudo uma forma de trazemos ate nós pessoas que tem uma visão mais completa e mais interessante da realidade musical. Eu penso que se quebrou muito aquela ideia de uma crítica muito formal, muito atenta a determinados aspectos. Hoje, a crítica também tem a ver com a empatia com os projectos e com uma certa capacidade de vestir a pele daquilo que está a acontecer. Este não é um festival muito neutro. Este festival tem alguns objectivos. Objectivos que aliás são perfeitamente assumidos. Um deles e desde logo ser o rosto de uma região. Nós sentimos muito que esta mensagem se adapta muito ao tipo de nova comunicação, por várias circunstâncias. Porque é mais descomprometida, porque tem mais espaço, porque é mais informada. Ou seja, não está atenta só digamos à dimensão puramente artística ou estética da música mas olha para o enquadramento, valoriza o enquadramento. E finalmente porque na minha opinião é muito mais, como eu hei-de dizer…elegante. Tem uma elegância diferente. Se calhar é mais moderna, não sei. Eu ai tenho dificuldade. Não sou um perito em media para dizer isso.

 TSSVHBeja-2406

 

Relativamente ao Terras Sem Sombra, este ano há a extinção do departamento cultural da Diocese de Beja. A diocese de Beja tem estado desde sempre ligada ao Terras Sem Sombra. Em algum momento essa extinção colocou em risco a permanência do festival? E com isto faço lhe já uma segunda pergunta que é, vamos ter edição de 2018 do Terras sem Sombra?

 

A extinção do departamento do património, de alguma maneira. não beliscou o Terras Sem Sombra porque foi logo assumido por quem tomou a decisão de extinguir, foi o Bispo de Beja, queo Terras Sem Sombra não estava em causa e devia ser continuado mas na realidade há aqui um problema e o problema é isto: É que o Terras Sem Sombra surgiu para trazer mais atenção para salvaguardar e valorizar o património religioso e portanto, no fundo, há aqui uma dificuldade se quisermos ontológica. O que acontece é o seguinte… Quem é que vai cuidar desse património religioso? É essa a dúvida. Em relação ao Terras de 2018 ele claramente vai existir. Já está desenhado. Portanto, o programa está traçado. Neste momento estamos a fazer pequenos ajustes já e mais, estamos a trabalhar no de 2019 até porque um festival com estas características prepara-se sempre com muita antecedência porque os artistas tem compromissos e agenda. Se me pergunta a minha opinião pessoal, eu estou muito angustiado com o futuro do património religioso no Alentejo.

 TSSVHBeja-2423

 

Relativamente ao Terras, já há definição do pais convidado de 2018?

 

Já existe essa definição, eu não a posso anunciar agora porque estamos a ultimar acordos. Já está definido, já existe uma planificação, uma calendarização. Neste momento houve outros municípios que manifestaram abertura. E mais. O Terras tem vindo a abrir-se a territórios. Territórios que no fundo tem a ver com outras regiões do Alentejo e manifestaram o interesse também em participar. Portanto estamos a avaliar tudo isso e a desenhar no fundo o plano mas as grandes decisões já estão tomadas em relação ao que vamos apresentar no próximo ano, qual é a linha temática porque,  enfim, o Terras tem sempre um conteúdo, não é?…

 

TSSVHBeja-2424

 

A Directora executiva do Terras Sem Sombra na apresentação desta edição falava-me num sonho chamado Terras Sem Sombra Kids. No próximo ano já vamos ter esse Terras Sem Sombra Kids?

 

Estamos a trabalhar nisso precisamente. Ou seja, é uma das coisas que queremos consolidar para o próximo ano pensando na consolidação dos novos públicos.

 

 

Como director geral, o que acha que ainda pode ser melhorado num festival que vai para a décima quarta edição?

 

Há certamente muitas coisas que temos que repensar e melhorar. Um festival é um ser vivo que está em constante evolução e portanto se adapta à etologia do meio. Há uma coisa que eu pessoalmente não tenho dúvidas. Temos uma identidade e nos devemos manter fieis a ela, temos uma escala e também nos devemos manter fieis a essa escala.

 

 TSSVHBeja-2467

 

Para terminar e é mesmo a última pergunta, o director artístico marca claramente a diferença na minha opinião neste festival Terras Sem Sombra. Sente que o carisma, a importância, o percurso, a história deste artístico é claramente uma grande vantagem para o Festival Terras Sem Sombra?

 

Eu creio que sim. Ou seja, sem dúvida que estamos muito gratos e relembramos sempre também com gratidão os dois anteriores directores que em circunstâncias diferentes fizeram também um trabalho notável. Sendo de assinalar, creio eu, nesta perspectiva que o Terras pelo menos tem sido muito reconhecido pela critica nacional e internacional nesse aspecto. Está situado entre os festivais que apontam novas tendências. Portanto, costuma-se dizer que no campo dos festivais existem 3 segmentos: os que funcionam como um carro vassoura e recolhem os louros cozinhados por outros e portanto depois conseguem ter uma programação muito interessante mas quer dizer, apanharam o contributo de outras iniciativas; depois temos aqueles festivais que são festivais mais convencionais, basicamente tem um grande livro de cheques, são os mais convencionais, jogam no seguro, jogam com valores seguros e depois existem outros festivais que arriscam, que procuram sobretudo aquilo que são as novas tendências. Portanto, estão atentos a essas novas tendências. Por várias circunstâncias a direcção artística dos dois últimos directores apontou nesse sentido.

 TSSVHBeja-2503

 

Para terminar, falou-me no livro de cheques. O orçamento deste ano rondou aproximadamente, mais coisa menos coisa, 200 mil euros. No próximo ano espera ter um orçamento maior ou acha que vai manter-se nos 200 mil?

 

É assim, isso é algo que o conselho de curadores e a directora executiva têm que assinalar. Eu penso que o orçamento de um festival destas características tem que se aproximar dos 250 mil euros porque por muita economia que se gere é muito difícil fazê-lo de outro modo.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

Rui Lavrador has 6226 posts and counting. See all posts by Rui Lavrador

Rui Lavrador

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.