José da Câmara: “Há valores que não têm preço”

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Depois de ontem termos apresentado a primeira parte da entrevista com José da Câmara, que celebra 50 anos de vida e 30 de carreira, hoje apresentamos um lado mais pessoal e pouco conhecido do artista. A vida familiar, os gostos pessoais, os prazeres da vida e a importância do pai na sua vida.

 

 

Ao longo do seu percurso viajou por vários países, por todos os continentes e obviamente pelos quatro cantos do mundo. Mas é no seio familiar que encontra a sua paz, a sua felicidade suprema. E dos amigos, os que se tornam irmãos. É um homem de afectos, e é isso que demonstra na segunda parte da entrevista onde aborda a Rádio SIM, a tauromaquia e ainda a componente familiar e o quanto o faz feliz a prática de desporto.

 

 

 

Quem é José da Câmara fora dos palcos?

Uma pessoa completamente normal, com os amigos de sempre. Nunca me deslumbrei com esta coisa…nos momentos de mais actividade de televisão…é natural que uma pessoa comece tão novo…nunca me deslumbrei com isto da fama. Graças a Deus, tive sempre um pai em casa que me ensinou isso. Como sempre tive muito respeito, pela música, etc. Sou uma pessoa perfeitamente normal com as alegrias e as tristezas de um comum mortal. Muito embevecido com três filhos que tenho e agora com o meu quarto filho que é o meu cão, que eu também gosto muito. Sou uma pessoa de família. Somos seis irmãos, portanto eu gosto muito dos meus sobrinhos, gosto muito de viver em família. Acho que a família, para mim, continua a ser o pilar da sociedade e hoje em dia há varias formas de família. Não a família convencional como eu vivo mas há outras formas de família, todas respeitáveis, mas acho que é fundamental viver em família, entre amigos. À medida que o tempo vai passando não são muitos mas são bons. São os verdadeiros.

 

 

 

E esses passam a ser família também?

Sim. Há amigos meus que são da minha família. Não sendo de sangue são autenticamente irmãos. isso são para mim as coisas mais importantes da vida. E a saúde, obviamente.

 

 

 

Além de cantar, o que lhe dá muito prazer fora dos palcos quando está longe dos holofotes, longe do público. O que lhe dá muito prazer fazer?

Dá-me muito prazer…

 

 

 

Ir ao futebol, vai?

Não. Não vou há muito tempo porque o futebol desiludiu-me um bocado. Hoje em dia é um negócio e eu joguei râguebi e os meus filhos são jogadores de râguebi, são jogadores já de selecção e, portanto, eu vivo muito o râguebi. Isso realmente é uma das coisas que me distrai, ver um jogo dos meus filhos. Vou vivendo e vou reencontrando grandes amigos meus com quem eu joguei e têm os filhos a jogar lá e o que também me dá muito prazer e que no fundo liberta uma hormona da felicidade que é fazer desporto. Jogar uma coisa que eu gosto, neste momento estou a jogar paddle. E depois de duas horas a jogar paddlle estou feliz, estou bem e é importante tanto fisicamente psicologicamente e isso realmente deixa-me feliz depois de fazer duas horas de um desporto que eu gosto estou encantado pela vida e por tudo o que me rodeia.

 

 

 

Há um tema que é polémico na sociedade mas ao qual já se associou várias vezes em determinados eventos que é a tauromaquia. Continua a ser aficionado?

Não sou muito hoje em dia. Não sou muito mas não…e não sou muito, neste momento porque…eu fui muito aficionado. Parti a clavícula direita ao serviço do grupo de Montemor, ainda bem que parti logo ao princípio com uma vaquinha, perdi logo aquela vontade a ser realmente forcado a sério mas depois acompanhei sempre o grupo de Montemor, de lá saíram grandes amigos. É um ambiente muito são, muita amizade, muita entrega, muito companheirismo. Agora é um sistema fracturante da sociedade. Eu sou das pessoas que respeita perfeitamente quem não goste. Eu hoje em dia é só uma questão de não ir muito ver. O tema principal, que é o tema que me pergunta, se estou de acordo ou se não estou, estou. Eu conheço muitos ganaderos, já passei dias e dias a ver os  touros e posso confirmar  que o touro é certamente o animal mais bem tratado ao longo da sua vida. O toiro bravo tem um dia em que acontece a corrida de touros, é para isso que ele é criado. Hoje em dia já vejo a coisa…acho exagerado tantos ferros. Poderia ser bastante menos mas aquele dia acontece e é isso que move a sociedade…enfim…e fractura a sociedade mas da forma como eles são criados, se desaparecerem as corridas de touros há uma  coisa que é certa, os toiros bravos desaparecem. Não há forma de alguém aguentar uma ganadaria sem que os possa vender depois de quatro ou cinco anos.

 

 

 

Mas permita-me uma pergunta. Estamos a falar que não só esta raça deixa de existir como há muitas pessoas que vão passar por extremas dificuldades na vida.

 

Não. E todos os empregos que estão a volta das corridas de touros…esqueça! Desaparecem. São milhares de postos de trabalho. Milhares. Portanto, eu não acho nada mas, lá está, eu respeito imenso quem não goste e quem não esteja de acordo. Respeito, naturalmente. Eu penso que não há mal nenhum pedir também respeito por quem goste e as pessoas que pensam que quem gosta, gosta de ver sofrer touros, não é verdade. Ninguém é masoquista. Eu não gosto nada. O que é melhor? É viver num galinheiro uns em cima dos outros durante…e depois electrocutados e depois…ou viver num canil, coitado, uma data de cães que eu vejo aqui a passar à frente da minha casa que estão num canil a vida inteira fechados ou um pintainho que está numa gaiola a vida inteira. Isso não é…

 

 

O touro bravo vive em plena liberdade.

Sim. Ao ritmo da natureza. É tratado como um rei e depois há aquele dia mas é a única forma de manter esta raça. Agora, também sei que os ganaderos são os melhores amigos dos touros. Toda esta controvérsia também é um bocadinho também por protagonismo televisivo, por querer alguns tachos no parlamento. Eu acho que é. Porque…obviamente que poder-se-ia aprimorar ali umas coisas relativamente…eu acho que às vezes é um bocado exagerado ali nos ferros, uns ferros a mais e tal. Acho que se deveria…agora se um touro bravo não é um bocadinho espicaçado também não reage. Portanto isto…mas eu não sou perito na matéria e neste momento também não estou muito por dentro. Não estou a ir às corridas ultimamente, também não me quero alargar muito mais neste tema.

 

 

 

Relativamente a um outro tema que é indissociável do seu percurso é a rádio.

Exactamente.

 

 

 

Quando é que surge a rádio em José da Câmara? Ou o gosto de José da Câmara pela rádio?

Isso é desde pequenino porque o meu avô, João da Câmara, pai do meu pai, por quem eu tinha uma adoração. O meu avô foi dos grandes locutores da emissora nacional. Ali ao fundo está uma fotografia dele com o Fernando Pessa, ali abraçados [aponta para uma parede repleta de molduras na sua sala de estar]. Era o Fernando Pessa, o meu avô, a Maria Leonor. Eram os grandes da emissora nacional. O meu avô tinha o curso de conservatório e fazia as locuções em directo do São Carlos. É uma voz respeitadíssima. Todos os grandes que eu conheci: o Artur Agostinho, o Júlio Isidro, todos esses grandes homens da rádio e televisão falam do meu avô de uma forma extraordinária e portanto fiquei sempre com aquele bichinho, gostaria de um dia ir à rádio, de estar na rádio. E isso aconteceu em 2011. Eu tinha proposto à Rádio Sim, ao Zé La Féria e à minha actual directora, Dina Isabel, fazer uma espécie de um concurso de fado, que já fizemos dois. Mas era só, eu era outsider. Entretanto, infelizmente, o Zé La Féria morre e eu vou ter com a Dina Isabel e ‘pronto, enfim, isto fica em águas de bacalhau ou não fica? Como é que é como é que não é?’ e ela ‘enfim, olhe, isto está aqui um bocadinho complicado para além da tristeza da morte do Zé, agora tenho mais um programa para apresentar que é a ‘Casa de fados’ e eu enchi-me de coragem, normalmente não tinha lata para essas coisas mas desta vez tive e disse ‘e se fosse eu a apresentar o programa?!’ e ela olha para mim ‘este é maluco!’. Autenticamente assim. Disse-me depois. Não disse logo é maluco, mas pronto. ‘Bom, vou pensar’, gaguejou um bocado e eu cheio de lata ‘Veja lá que eu acho que consigo’. Fui para casa nervosíssimo, fiquei à espera que me telefonassem. Dois dias depois fui fazer uns testes, depois fiquei uma semana e meia à espera de resposta e depois disse-me que ficava. Fiquei contentíssimo e lá estou há cinco anos e tal e posso dizer que é das coisas que me preenche a minha vida e gosto. Adoro. Amo fazer rádio. Sou realmente uma pessoa que tem a noção que não é um profissional de rádio, porque não sou, não estudei para isso mas dou o meu melhor e acho que não tem corrido mal. Estou lá há cinco anos e tal e tenho uma equipa adorável com quem…às vezes olhe, às vezes estou um bocadinho assim para baixo…O que é que eu faço?…Vou para a rádio e fico logo mais bem disposto, a sério, é impressionante.

 

 

 

Durante essa semana e meia que esteve à espera da resposta os níveis de ansiedade aumentaram muito ou conseguiu manter a paz…

Não. Ansioso sou à bruta. Sou muito ansioso. Sou sou! Aliás, eu tive um desastre ao ir para o casamento de uma irmã minha ali para o Vimieiro. Ia para Borba e tivemos um desastre. Eu ia atrás de um carro. Um desastre ao meio-dia de sábado e só acordei ao meio-dia de domingo. Levei uma pancada na cabeça muito grande. Fiquei 24 horas a dormir. Depois disseram-me que tinha ficado politraumatizado. Eu fiquei assim um bocado amalucado e comecei com crises de pânico e ansiedade. A sério! E começou a dar-me, a guiar primeiro e depois no palco. Tive a sentir-me a morrer em palco mais do que uma vez. Depois lá fui a um psiquiatra e disse-lhe ‘trate-me lá desta cabeça que isto não está bom’. Tive uns cinco anos a tomar una remédios e não sei o quê. Agora estou melhor mas uma pancada na cabeça às vezes não é bom mas a ansiedade de vez em quando eu tenho que controlar com uns ‘químicozinhos’ para…e depois, também vamos lá ver, o entrar em palco. As pessoas pensam ‘vais só ali cantar’. ‘Então vai tu!’. Vai tu! As pessoas pensam que entrar em palco…às vezes entrar em palco, preferia ter 20 toiros em pontas a olhar para mim. Estou a falar a sério. Depende do nosso estado de espírito, depende de muita coisa. O entrar em palco às vezes é…então aqueles primeiros dois temas não…e vá lá a gente perceber o que é que…Porquê?!…É assim. Quanto mais anos andamos aqui, andamos nisto, mais responsabilidade temos, portanto menos hipóteses temos de falhar. Ok?! Portanto ‘ai meu Deus e eu não posso falhar’, entra aqui uma ansiedade e depois a partir do segundo tema a coisa fica.

 

 

 

Aos 50 anos está mais ansioso ou menos ansioso que o miúdo de 19 anos que foi fazer aquele casting?

Mais. Muito mais. O miúdo de 19 anos não tinha cabeça. O miúdo de 19 anos não tinha nada que perder nem que ganhar. É um miúdo. Eu nunca mais me esqueço, foi com 19 anos que fui pela primeira vez à televisão, convidado pelo Paulo de Carvalho, estava ele a festejar os 25 anos de carreira. Já era uma pessoa com bastantes créditos e que simpaticamente me convidou. Foi a primeira vez que eu fui à televisão. Eu estava um bocado nervoso e comentei com o Paulo de Carvalho antes de entrarmos em cena ‘Eu estou um bocado nervoso mas o Paulo já não deve estar nada’. ‘Espera pela pancada. Quando fizeres 25 anos disto depois vais ver. Estou aqui que nem posso’. E é verdade. Ou seja, quanto mais responsabilidade mais nervos mas também mas maturidade para controlar os mesmos.

 

 

 

Se a vida fosse um fado, que nome é que lhe daria?

Às vezes Fado Corrido. Às vezes Fado Menor.

 

 

O que mudaria nestes 30 anos?

O que é que mudava nestes 30 anos? Todas as ‘estupidezes’ que eu fiz, que foram muitas, obviamente.

 

 

É um homem de arrependimentos?

Sou. Sou muito autocritico e portanto quando uma pessoa é autocritica vê perfeitamente quando fez bem e quando fez mal e quando fez mal arrepende-se. Essa é uma coisa que eu acho que é boa. É bom ter.

 

 

Estamos numa era digital e de redes sociais. Da muita importância as redes sociais ou não liga nada?

É moda dizer que ano se liga mas toda a gente vai la. É um facto.

 

 

É uma espécie de Big Brother? Toda a gente dizia que não via mas era líder de audiências.

Atenção, aí não. Aí não. Big Brother foi sempre para mim proibido cá em casa. Eu sou um democrata completamente ditador. Ou seja, há certas coisas que eu quero educar os meus filhos convenientemente, há coisas…há certas idades que não se pode conversar. É dizer ‘Não pode!’. Não pode. Não vou explicar porque o meu filho não se pode mandar da janela. É não! Se tentar, é chegar lá leva uma palmada e pronto , e a coisa resolve-se.  Mandar-se da janela ou ver o Big Brother será mais ou menos a mesma coisa. Só que uma dá cabo da cabeça e outra da cabo dos braços, pronto, das pernas. Eu fui convidado para um programa desses, nem quis saber quanto é que me queriam pagar.  Eu acho que há coisas que são realmente de tão baixa qualidade e os protagonistas são de tão baixa qualidade. A televisão para mim era uma coisa…Antigamente era uma coisa que tinha pessoas que falavam bem português, bons filmes, boas séries, bons programas de televisão e bons programas de variedades. Hoje em dia eu não ligo a televisão, é raro ligar.

 

 

Teatro em directo, por exemplo, chegou a haver.

Sim. Hoje em dia praticamente não…só ligo à televisão para ver um programa especifico. Agora, de resto…

 

 

Há valores que não têm preço?

Há. Então não há?!…

 

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Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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