José Diogo Madeira pretende “de uma forma mais modesta e plausível, obrigá-los a pensar um bocadinho sobre si próprios e o que andam aqui a fazer”

 

 

‘Volta a Ti’ é o mais recente livro de José Diogo Madeira e que pretende levar o leitor a uma procura pelo seu auto-conhecimento. Em entrevista ao Infocul aborda este livro e sobre o que pretende transmitir aos leitores.

José Diogo é licenciado em Economia, foi director, administrador e co-fundador do Jornal de Negócios, sendo jornalista económico ao longo de uma década.

Depois do jornalismo, em 2004, fundou uma agência de comunicação, uma start-up e ainda uma editora. Integrou ainda outros projectos empresariais até que deixou tudo e dedicou-se à meditação.

Em 2017 co-fundou a Reflower, uma comunidade de praticantes de meditação, que tem promovido dezenas de sessões meditativas por todo o país e no estrangeiro.

Este livro, “Volta a Ti”, publicado agora pela editora Planeta, é o seu quinto livro, sucedendo a “Economia Portuguesa”, “Crónicas”, “Trinta e Três Textos” e “Meditação para Todos”, este em co-autoria.

 

 

Quando é que se sentiu capaz de escrever este livro?

O livro foi surgindo a partir do verão de 2018, depois do convite da editora, mas a maioria das reflexões que nele estão contidas já estavam comigo desde há algum tempo. Desde o início de 2017, quando co-fundei a Reflower (uma comunidade de praticantes de meditação que regularmente organiza encontros por todo o país), que o meu interesse por estes assuntos se intensificou. E claro que a própria prática meditativa me ajudou a olhar para dentro e, aos poucos, mais e mais coisas saíram daí. Julgo que o livro se foi fazendo aos poucos, tanto do ponto de vista conceptual, como até material, a sua escrita, mas só agora depois destes anos a percorrer o país em encontros meditativos é que se reuniram as condições e a energia pessoal para o apresentar ao público. Não é um livro fácil de escrever e ainda menos simples de explicar publicamente, porque aborda temas que as pessoas desconhecem ou querem evitar. Quem ou o quê somos verdadeiramente?

O que é mais difícil no conhecimento de nós próprios?

Querer saber, a curiosidade de olhar interiormente e começar a perguntar, disto que aqui se apresenta como uma pessoa, o que é real e o que é uma construção mais ou menos voluntária? O que acontece se começar a fazer perguntas a mim mesmo, a recordar o meu passado, a desfazer o que as convenções sociais e algum comodismo sugeriram, retirando todas as camadas de maquilhagem que há sobre a minha personalidade, o que sobra disso tudo? E sobra muito pouco, ou mesmo nada. Quem eu sou é muito pouca coisa, apenas a percepção de estar vivo neste momento, tudo o resto são histórias e estórias que guardo em mim. Mas o “eu” é pouco mais do que o “agora”.

Há pessoas que podem optar por não se conhecer a si próprias por ser um desafio difícil?

Ou porque estão completamente alheadas do tema, vivem as suas “personagens” no quotidiano, porque nunca tiveram a necessidade de fazerem esse exercício de auto-questionamento. Muito vezes, este tema só surge com um “choque”, um momento doloroso, em que tudo abana e em que mais ou menos depressivamente temos de sair dessa dor e recomeçar de novo. E aí buscamos novos caminhos, soluções novas para evitar velhos problemas. É quando surge o interesse pela espiritualidade e com isso pela auto-descoberta. Até porque um conhecimento mais profundo de nós próprios é uma forma de mitigar um dos problemas mais antigos da humanidade, o sofrimento.

 

 

 

Quais os momentos mais importantes da sua descoberta pessoal?

Perceber que não sou mais que consciência, a capacidade de presenciar a vida a cada momento. E que isso só dura um segundo e é verdadeiramente um presente, que recebi por um motivo desconhecido de um dador anónimo. E que tudo o que tenho como passado ou imagino como futuro, são construções mentais, verdadeiramente nada disso existe comigo agora. E sendo apenas um momento fortuito de vida, a partir desta perspectiva, tudo é infinitamente belo e especial. E essa percepção liberta-nos definitivamente de todas as preocupações, problemas, sofrimentos. É como se pudéssemos sentir, de uma forma íntima, tudo como uma bondade infinita.

Quais os mais difíceis?

Perceber que as pessoas que imaginava como pai, mãe, filho, amigos, aqueles que me estão mais próximos, são também pedaços infinitamente pequenos dessa mesma consciência e que ninguém existe no sentido real e perpétuo a que estamos habituados. O que hoje é, amanhã já não é. E isso é simultaneamente libertador, mas também desolador, se ficarmos agarrados à percepção da perda, de que há coisas que já não voltaremos a ver ou a viver. De uma forma mais terrena, deixar de me importar com as expectativas que tinha anteriormente para mim mesmo. Libertar-me dos apegos que, como todos, fui construindo.

O que é a espiritualidade? É talvez das temáticas mais abordadas nas redes sociais mas poucos sabem o que é…

A espiritualidade é o reconhecimento que há um mundo imaterial e que não vivemos apenas na realidade que os sentidos físicos nos trazem, mas também na realidade que é desenvolvida mentalmente. Claro que a espiritualidade tem muitas cambiantes e matizes, pode significar acreditar nos milagres dos santos católicos, nos chakras dos hindus, na devoção ao buda, mas é claro que muito do que acreditamos e vivemos existe apenas ao nível mental, das percepções e das intuições que aí se manifestam. O mundo espiritual é o mundo das crenças não físicas, do mundo imaterial, mas uma coisa não tem de ser necessariamente expressa no mundo físico para existir. A bondade é uma virtude que não se pode ver, cheirar, tocar no mundo dos cinco sentidos, mas que é percepcionada mentalmente. Nós sabemos ver, reconhecer uma pessoa ou uma atitude bondosa, isso é uma manifestação espiritual.

É mais difícil liderar o Jornal de Negócios ou descobrir-se a si?

Liderar o Jornal de Negócios, tinha mais variáveis que era preciso controlar e isso dava imenso trabalho, era extenuante. A auto-descoberta é um caminho de eliminação de complicações, apegos, preocupações. Quem vive como “personagem” tem de se preocupar todos os dias com o trabalho, a família, a manutenção do status e a satisfação das expectativas que criou para essa própria personagem. Quem vive como consciência, entrega tudo ao universo. Se a vida quiser que eu amanhã não esteja aqui, ela criará as condições necessárias e naturais para que eu seja transportado para outro lado. Não me preciso de preocupar com nada. Tudo está bem, mesmo que num primeiro momento eu não entenda isso.

 

 

 

O que pretende com este livro?

Talvez ajudar à felicidade dos leitores, se isso for possível. De uma forma mais modesta e plausível, obrigá-los a pensar um bocadinho sobre si próprios e o que andam aqui a fazer. A aproveitarem as suas vidas da melhor forma. Relaxarem, que Deus (no sentido do fluir universal das coisas), tem um plano generoso e fantástico para todos, basta que se deixem arrastar pela vida para onde ela nos quer levar.

Qual tem sido a reacção das pessoas?

Muitas pessoas dizem que se reconhecem no que aqui lêem, algumas dizem-me que já tinham pensado escrever coisas parecidas e que o que eu lhes digo é semelhante ao que sentem. Mas também me dizem que é um livro denso e que exige duas ou três leituras para terem uma visão mais profunda do que aí encontram. Eu acho que é um livro que traz muitos temas, talvez um dia possa partilhar mais coisas de uma forma mais lenta. Este livro é de leitura rápida, mas que de facto exige duas ou três passagens para ser bem absorvido.

O que espera que este livro mude na vida de quem o leia?

Perceber que estar vivo, aquela consciência plena de “hey, espera aí, malgrado todos estes problemas, todas estas chatices, esta noite posso sair à rua e olhar para as estrelas no céu, ou amanhã posso ir ver o mar à praia, a beleza contida em todos estes cenários”, esta oportunidade única de presenciar, ser testemunha de tudo isso, é uma dádiva fantástica. viver cada minuto desta vida num estado mais próximo do êxtase do que naquele semblante triste de quem se arrasta pela cidade, como um zombe à espera de descer à terra… A vida tem tudo para ser vivida em pura alegria, mesmo quando nos parece que estamos condenados a uma vida aborrecida, cheia de preocupações e problemas. Sentir a luz e o calor do sol, sorrir e pensar, “bolas, sentir isto é fantástico, eu sou um sortudo porque estou aqui e estou a viver isto!”.

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