José Gonçalez- Improvável é não ser um dos melhores discos de 2017

José Gonçalez - capa disco

 

José Gonçalez marca hoje o regresso aos discos com a edição de “Improvável”. Neste novo trabalho, com o selo da Sony Music Portugal, Gonçalez reuniu um naipe de alguns dos nomes maiores da música portuguesa para interpretarem temas escritos por si.

 

 

 

Um disco de duetos, com os temas a serem totalmente escritos por José Gonçalez era com toda a certeza um disco “Improvável” de ser pensado. Mas num desafio de Paula Homem ao fadista alentejano, surgiu este disco que é para mim um dos discos do ano (sim, sei que estamos em Março e ainda muita água correrá por debaixo da ponte no que a discos de música portuguesa diz respeito).

 

 

José Gonçalez é um nome associado ao fado, mas o primeiro tema leva-nos para ritmos flamencos, como se tivéssemos em plena Andaluzia, num bar de tapas e copas. A voz de André Amaro assume protagonismo nesta canção que junta os Sangre Ibérico a José Gonçalez, “É sempre assim…Entre vinho tinto e gin”. José Gonçalez mostra-se confortável num tema em que somos arrebatados pela guitarra flamenca de Paulo Maia. Excelente aposta para primeiro tema deste disco.

 

 

“Alentejo, Um Ar de Festa” é dos temas mais introspectivos e emocionantes. José Gonçalez descreve de forma perfeita o Alentejo numa letra bonita, bem suportada numa melodia de cadência tipicamente alentejana. Um dueto com Vitorino e que conta com arranjos de Jorge Fernando. Um tema para ouvir em repeat.

 

“Ponta de Ilusão” faz-nos aos primeiros acordes viajar algures ao Brasil. Conta com a participação de Cuca Roseta, Edu Miranda, Ângelo Freire e Máximo Ciuro. Um tema alegre, descontraído, mas que é dos menos conseguidos, em que é transmitida a ideia de pouca segurança de Cuca Roseta relativamente à mensagem que a letra tenta transmitir.

 

 

Gonçalo Salgueiro e Ângelo Freire são os convidados em “Caminho”, um dos melhores momentos que nos é proporcionado ao ouvir este disco. Gonçalo Salgueiro mostra porque é dos melhores intérpretes na música portuguesa, o dedilhar da guitarra portuguesa é imediatamente associado a Ângelo Freire (chama-se personalidade artística) e José Gonçalez volta a mostrar o imensurável talento na escrita de canções. Destaque ainda para a parte instrumental e de arranjos musicais, que é sublime!

 

“Culpas Par’As Desculpas!” traz-nos ritmos mais dançantes e o dueto com Filipa Cardoso funciona correctamente, embora a fadista não atinja todo o seu potencial, pois é por mérito próprio das melhores vozes femininas do fado. Este tema não é fado mas sabe a fado, porque a alma dos interpretes é fadista e é colocada por inteiro no tema. Participam ainda neste tema, Ângelo Freire e David Jerónimo.

 

 

Jorge Fernando é o convidado em “Meu Amigo”. Um hino à amizade, com interpretação arrebatadora de Gonçalez e Jorge Fernando. Mais uma vez os arranjos musicais voltam a destacar-se, tal como a guitarra portuguesa de Ângelo Freire.

 

 

A sétima faixa é das menos fortes deste disco. José Cid & Big Band são na minha opinião mal escolhidos para este tema. Não há emoção na interpretação, ao contrário da letra. Um dos poucos pontos negativos deste disco.

 

“Por Magia, ou por Encanto!” traz-nos Maria da Fé e José Manuel Neto (na guitarra portuguesa) que se juntam à voz de José Gonçalez. Numa altura em que se fala constantemente na nova geração fadista, Maria da Fé mostra que é intemporal, uma voz antiga que acompanha sem esforço a contemporaneidade. José Manuel Neto traz-nos um dedilhar diferente à guitarra portuguesa, mas com uma qualidade altíssima e inquestionável.

 

 

“Cantar é celebrar a poesia!” junta FF e José Gonçalez, acompanhados por Ângelo Freire na guitarra portuguesa. Das letras que menos me cativou inicialmente, mas potenciada pela interpretação que lhe é dada.

 

O último tema é com toda a certeza o mais pessoal para José Gonçalez. “Eu tenho tanta pena…Pai” é um tema dedicado a uma das pessoas mais importantes da vida do fadista e que conta com Júlio Resende ao piano. Arrebatador e que fecha em grande a audição deste disco.

 

 

Este disco tem como fio condutor as emoções e relações entre pessoas. O Amor, a Amizade, a Mágoa, a Desilusão, a Esperança, coabitam em harmonia num trabalho surpreendente e que mostra na sua plenitude o talento de Gonçalez para a escrita de canções, sendo que atinge momentos brilhantes quando escreve sobre o amor. A produção a cargo de Jorge Fernando é detectada logo nos primeiros temas, mas a principal  mensagem a retirar deste disco é a capacidade criativa e de reinvenção de José Gonçalez. Não é um disco de fado, é um disco de emoções e sentimentos, algo que a boa música transmite de forma natural.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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