José Gonçalez revela que Mariza “era para fechar esta edição” do Santa Casa Alfama

 

 

 

 

O Festival Santa Casa Alfama 2018 terminou este sábado, realizando-se durante os dias 28 e 29 de Setembro. José Gonçalez, programador e director artístico do certame, concedeu uma entrevista ao Infocul na qual abordou várias questões relativas à programação.

 

 

 

O festival, que cumpriu a sua sexta edição, contou este ano com novo naming sponsor, patrocinador. Em termos de programação, questionámos se esta questão tinha influenciado a programação, tendo José Gonçalez esclarecido que “em termos directos não influenciou. Em termos indirectos talvez, porque era o sexto ano, é um ano de afirmação se assim quiseres, é ultrapassar aquela barreira dos cinco anos, que nós achámos que era importante também marcar pela diferença. Só que muitas vezes, e vou dar-te hoje em primeira mão, nós temos muitas dificuldades”.

 

 

Acrescentou que “posso dizer-te enquanto programador e director artístico do festival, visto que estamos no fim desta edição e que resultou lindamente, mas a verdade é que este ano era a Mariza que estava contratada para vir fechar, por exemplo. Mas este ano tivemos que mudar a data do festival, a pedido da Câmara Municipal de Lisboa, passou de 21 e 22 para 28 e 29. E a 28 e 29 a Mariza já tinha a tour em que está actualmente. Este é um exemplo que te dou e temos muitos outros” antes de completar ainda que “também há outros fadistas que participaram em outros festivais aqui muito perto e portanto  não quisemos isso nem para os outros festivais nem para o nosso. Portanto há aqui uma série de questões que as pessoas não sabem, e nem têm que saber, naturalmente. Estou a confidenciar-te isto aqui em público, digamos, assim. Só te queria dar aqui este furo e portanto espero para o ano ter a Mariza, porque tínhamos a Mariza assinada e contratada para este ano, para fechar o festival. A Raquel esteve sempre em cima da mesa e também te posso dar outra novidade, a Raquel até poderia estar mas não no principal. Até porque ela própria nos tinha dito que queria estar noutro palco ou noutro sitio de Alfama com a marcha e a cantar os fados, depois é que lhe pedimos aqui. E há muitas outras questões que têm a ver com o festival e que influenciam e nos obrigam a fazer reajustamentos”.

 

 

 

Em termos de balanço desta edição, o programador disse que “correu bem, os espaços estão mais bonitos, temos um palco novo absolutamente extraordinário. Este palco principal , no qual estou a falar contigo, tem muito mais espaço, muito mais condições. Acho que tudo isso resultou. Ontem já estávamos contentes mas hoje estamos mais. Foi um festival com algumas dificuldades, até pelo que disseste da mudança de sponsor, em que corríamos alguns riscos até pela mudança de nome e que poderia criar algum corte com as pessoas. Mas penso, nesta altura e com a calma possível, a coisa resultou. Há sempre pormenores a melhorar, coisas a dar a volta mas também muitas são fruto e obrigação das contingências que temos no festival”.

 

 

Uma das alterações de última hora foi a localização do palco Ermelinda de Freitas, do Largo das Alcaçarias para as Escadinhas de São Miguel, tendo José Gonçalez confirmado que essa alteração se deveu a questões de segurança. “Como sabes os palcos são todos vistoriados e quando foi a vistoria aquele espaço, não sei se sabes mas aquele espaço é um depósito de água, e o sitio onde realizamos aquele palco é o tecto desse depósito. E na vistoria veio a perceber-se que o tecto estava degradado, que são necessárias obras. E entre o arriscar que houvesse um acidente e depois casa arrombada trancas na porta, preferimos ser proactivos e fomos nó próprios, em conjunto com a Freguesia de Santa Maria Maior e a Câmara Municipal de Lisboa naturalmente, optámos por retirar o palco dali”.

 

 

Uma alteração que influenciou os horários de todo o festival, a apenas 15 dias do seu início, porque “nós temos uma série de músicos que fazem o festival todo e é a forma como conseguimos fazer o festival. Porque não há assim tantos músicos e se pensares que hoje Camané, Carminho, Ana Moura, têm concertos também, portanto há músicos que também cá não estão. Fazemos um jogo incrível para conseguir coordenar tudo desde horários de ensaios, porque chegamos a ter ensaios com guitarrista do palco A- viola do palco B- Baixista do palco C, depois tens que coordenar isso quer nos ensaios, quer na actuação. Tínhamos tudo já escalado para ali e ao deslocarmos para as Escadinhas de São Miguel tivemos que agilizar para que os concertos não chocassem com a música dentro da Igreja. Quer o de dentro ouvia-se cá fora e o de cá fora ouvia-se lá dentro. Depois, nesse espaço já tínhamos o Fado à Janela, portanto isto para veres que uma mudança que parece um bocadinho, implicou o reajustamento todo do festival, quinze dias antes”, explicou ao Infocul, deixando ainda um desabafo, “portanto às vezes um pormenor acaba por ter um grande impacto na montagem final disto”.

 

 

Uma das questões muitas vezes falada mas nem sempre assumida por quem o faz é a presença de José Gonçalez em todas as edições deste festival enquanto artista. Participou nas seis edições e nas últimas três partilhou palco com os Sangre Ibérico. Foi questionado sobre o motivo de ‘repetida’ presença, tendo esclarecido que “porque sim. Eu e o Marco Rodrigues, costumo dizer, somos os totalistas. E somos afirmativamente, sem qualquer tipo de problema em afirmar isso e com todo o gosto. Quanto à questão dos Sangre Ibérico, mais um exemplo. Este ano tínhamos um palco muito especial, e o som daquele palco entra aqui neste, onde estamos, e o daqui entra naquele. Ou seja, não poderia funcionar à mesma hora. A solução que tínhamos, e encontrámo-la assim, era fazer a tal ideia do “Fado ao Pôr do Sol”, que é lindíssimo, é das coisas mais bonitas, e então eu sentei-me com o Marco, e falei com o Luís Montez, era montar uma coisa muito especial para aquela hora, das 18:00 às 20:00. E então a melhor solução, que encontrámos, e também de acordo com a própria organização que também o quer, e digo aqui sem qualquer problema, é que eu e o Marco estejamos sempre no festival. Mexemos no repertório, montámos um concerto muito diferente do que já tínhamos feito nos anos anteriores”.

 

 

Fez ainda uma ponte entre os espectáculos dos últimos três anos com os Sangre Ibérico justificando que “no primeiro, no meu caso, foi um concerto todo em conjunto, o ano passado não foi assim. Eu dei até, se quiseres assim, o palco aos Sangre Ibérico, eu já cá tinha estado e era também a forma de afirmação deles. E a verdade é que foi o ano em que tivemos mais gente a abrir. Este ano fizemos diferente, uma série de arranjos nos esquemas deles e montámos esse espectáculo. O Marco fez o mesmo. Convidou o Diogo e montou um concerto próprio e só para aqui , de apenas uma hora. Portanto esta é uma resposta que te dou com toda a facilidade e com todo o gosto. Sou totalista, serei totalista e será o Marco e seremos todos”.

 

 

Sobre o novo palco, localizado no rooftop do terminal de cruzeiros, disse ainda que “vou dar-te mais uma primeira mão. Era um desafio que eu já queria há muito tempo, que era que convidássemos as casas de fado virem ao festival. Sabes porque é que nunca tinha conseguido uma casa de fados cá? Porque os horários são os mesmos e eles não vão fechar para vir ao festival. Então a solução encontrada é a melhor. Das 18:00 às 20:00, hoje é exemplo disso, o Sr Vinho esteve cá e depois foi para lá trabalhar, com todo o elenco, normalmente. E isto são soluções que temos que ter para por um lado o festival ter coisas novas e depois para que consigamos coordenar isto para que as coisas funcionem”.

 

 

Além de programador e artista, é também co-manager dos Sangre Ibérico. José Gonçalez foi por isso questionado se isto não provoca um conflito de interesses, tendo dito que “se existe conflito é para as pessoas. Não é para mim, não é para a organização, não é para o festival. Isso será sempre um problema de quem quer ver isso. Sabes que na vida somos sempre presos por ter cão e por não ter. Aqui, e eu nunca tive problema em assumir o que faço e de forma clara, não há nenhum conflito de interesses. É assumido e estou-me borrifando para o que dizem. Eu virei sempre que tiver que vir. Tenho uma pessoa acima de mim e no dia em que essa pessoa diga que não…mas essa pessoa é que me desafia sempre”, referindo-se a Luiz Montez.

 

 

José Gonçalez referiu-se ainda ao trabalho desenvolvido pelo jornalista Rui Lavrador, destacando que “já te o disse em privado, não sei se o vais escrever ou não mas deves fazê-lo, quero agradecer o teu trabalho, porque independentemente de concordarmos com as pessoas ou não, devemos sempre reconhecer-lhes o mérito. E reconhecer a entrega honesta que essas pessoas fazem. E tu tens feito sempre! Eu nem sempre concordei contigo, nem tu comigo, e não temos que concordar, mas isso não implica a gratidão que eu e o festival te temos. Ainda hoje, neste festival, fizeste um trabalho extraordinário. Foste o único, órgão de comunicação social, que praticamente colocou tudo o que se tinha passado ontem. E nós devemos-te isso porque isso nos ajuda a que o festival chegue às pessoas. E esse mérito deve-te ser dado independentemente das questões que me aproximem ou afastem de ti”.

 

 

As pessoas por vezes fazem uma avaliação sem perceberem porque é que isto é assim. Há uma série de coisas, que a pouco e pouco, temos colocado no festival. Esta da casa de fados é um bom exemplo. Termos aquele tecto e conseguirmos montar espectáculos especiais para ali é outro exemplo. Não penses que todos os artistas que participam neste festival, aceitariam às 18:00 montar um espectáculo especial para ali. Eu tive várias negas!”, esclarece sobre o que pode evoluir no festival, acrescentando que “temos uma filosofia que é nossa e que a assumimos. Mas apetece-me dizer que cada um organize o seu festival, meta lá quem entenda e faça o que quiser. Eu não tenho nenhum problema nisso, era problema se isto não resultasse. E porque digo isto? Temos a cada ano tentado reinventar-nos, por exemplo o João Pedro Pais e João Gil. São dois concertos na minha opinião que resultaram naquele contexto. Ou seja, enquanto estilo musical ou festival não nos podemos fechar em si próprio. Se o fado se for fechar, só estar a fechar a porta a ele próprio. Na altura quando a Mariza apareceu foi tão criticada e eu fui um dos que nunca a critiquei, além de ser amigo dela, e repara os públicos que ela veio trazer ao fado, hoje estão cá. Eu acho que é assim que temos de olhar para as coisas. Acho que temos de continuar a ter o Artur Batalha, a Maria da Nazaré, Filipa Cardoso, Maria da Fé, esses temos que os cá ter todos, os que cantam assumidamente Fado,  Carlos Leitão, que acabei de ver ali. Mas isso não impede que outros artistas que não sendo do fado, mas que olham para o fado de uma maneira muito especial, e lhe dão a sua cor. O João Pedro Pais, é um desafio meu, e o João Gil, o que lhe pedi foi que pegasse em alguns fados e interpretasse à maneira dele. Já pensaste o que é ter aqui o público do João Pedro Pais, que viu o que ele fez, ouviu uma guitarra portuguesa, viu o ambiente e se calhar até gostou disto? É essa é que é a reinvenção!

 

 

Fotografia: Cátia Sofia Luis

Partilhar
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Notícia publicada a 01/10/2018

Tagged with:     , ,

About the author /


Post your comments

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

_