José Quaresma sobre concerto na Igreja de Santo Estêvão: “Leva-me a uma parte da história da minha vida porque fui seminarista dos 15 aos 20 anos”

Fotografia: José Quaresma / Facebook

 

 

Como aqui demos conta, em primeira mão, já é conhecido o cartaz completo do Santa Casa Alfama, que realizar-se-á a 27 e 28 de Setembro, no típico bairro alfacinha. José Quaresma actua no dia 28 na Igreja de Santo Estêvão e em entrevista ao Infocul falou sobre o espectáculo, o Fado, a Fé e o seu percurso na música.

José, qual a importância de actuar no Santa Casa Alfama?

Em primeiro lugar gostaria de deixar aqui o meu obrigado pelo convite feito pelo José Gonçalez para estar presente nesta edição do Santa Casa Alfama sendo que esta é a minha segunda vez neste festival.
É sempre importante poder levar aquilo que sou e faço no fado a um publico mais alargado pois nas casas de fado o publico é em menor numero, um ambiente mais intimista como o fado requer e como eu prefiro.
Claro que é importante sair do ambiente próprio do fado e levá-lo para outros locais mesmo que seja com um publico maior, correndo o risco de “a coisa não se dar”. E entenda-se que o fado estará la sempre e a dedicação será a mesma, no entanto uma casa de fado é sempre uma casa de fado. Quem vai a um concerto de fado e depois tem a experiência Casa de Fado, nunca sai defraudado em relação a segunda. Muito pelo contrário. Mas é de louvar esta iniciativa porque é um meio de divulgação da nossa musica da nossa arte bem portuguesa que é o Fado.
Com a elevação a Património Cultural Imaterial da Humanidade, faz todo o sentido ter um Festival onde a personagem principal é o próprio Fado.

 

 

Já pensou no espectáculo que irá apresentar? Actuando na Igreja de Santo Estevão, há limitação de repertório ao cariz religioso. Como encara?

Sendo o concerto na Igreja de Santo Estêvão, que é um sitio de devoção contemplação e adoração, é óbvio que o reportório deve ser escolhido com pinças. Não podia ser doutra forma. Não é uma experiência nova para mim. É um local onde me sinto à vontade e isso leva-me a uma parte da historia da minha vida porque fui seminarista dos 15 aos 20 anos, estive na comunidade fundada pelo Frei Hermano da Câmara, os Apóstolos de Santa Maria, depois no Seminário de Vila Viçosa e tive a oportunidade de vivenciar a vida monástica no Convento dos Monges Beneditinos de Singeverga em Santo Tirso durante 15 dias.
Em Évora, de onde sou natural, realizava uma missa fadista uma vez por ano na minha paroquia por ocasião do aniversario da ordenação sacerdotal do meu Pároco que apesar de na altura ser um pouco conservador abriu as portas da Igreja ao Fado e ficou contagiado. No entanto tinha sempre a preocupação de rever comigo os Fados que escolhia para cantar de forma a que fossem próprios para cada momento da Eucaristia o que nem sempre é fácil.
Para este concerto irei levar temas do reportório de Frei Hermano da Câmara, como não podia deixar de ser, mas optei por escolher fados de outros reportórios que eu entendo que não são fados de igreja nem concebidos para tal, mas que estão a altura do que se pretende que é um concerto de fado respeitando o local onde estamos. Requer um trabalho de pesquisa, de discernimento e alguma sensibilidade, e tudo isto porque é necessário entender que o espaço onde estamos continua a ser uma igreja aberta ao culto, e não o deixa de ser nos dois dias do Festival.

 

 

É um homem de fé?

Bem, com a resposta que anteriormente, dizer que não sou um homem de fé era só ridículo. Tive a minha fase de frequentar a Igreja, de a viver mais de perto, muito perto. Hoje não sou praticante e entenda-se com isso que não sou participante assíduo. Acredito em Deus. Mas a minha devoção maior recai sobre a figura de Maria. Sou um Mariano assumido e tem me valido por inúmeras vezes e é nela que me refugiu sempre que preciso. Mas não podia deixar de ser de outra forma porque sou um Católico Português e na nossa Historia Ela está presente e o Povo Português foi sempre de uma devoção Mariana enorme. Há uma frase que guardo do meu Pároco Padre Paulo Cordovil que dizia sempre que “a melhor fora de chegarmos ao Filho é através da Mãe!”

 

 

Além de cantar, também toca viola. Qual das duas artes o preenche mais?

Essa é uma pergunta pertinente e que quando me foi feito o convite para o Festival me fez parar para pensar. Serei um violista que canta fado ou alguém que canta o fado e toca viola?
É verdade que o meu maior fluxo de trabalho é como violista no entanto a viola na minha vida apareceu mais tarde e na altura eu já cantava o fado. Há inúmeros casos no fado que tocam e cantam ou cantam e tocam. Quando canto e me acompanho a mim mesmo, acredito que dou a minha verdade mais facilmente, porque sei para onde vou e a viola vai comigo, mas isto vem do habito. Esta é a parte boa de me acompanhar, no entanto também tem o seu lado negativo porque criei uma imensa dificuldade em dar ao fado a minha verdade, aquela intenção que é minha, quando tenho alguém a acompanhar-me. Tornei me esquisito em relação ao violistas mas talvez por minha insegurança. Há alguns com quem me sinto muito à vontade mas porque me conhecem, já me ouviram cantar, e por isso vão de encontro aquilo que eu gosto. Dão-me chão, que é essa a nossa função enquanto violistas de Fado.
No entanto o facto de tocar viola já me levou a muitos sítios que não esperava e deu-me a oportunidade de acompanhar e conhecer grandes nomes do Fado.
Depois a junção das duas abriu-me uma porta que eu nunca julguei abrir. Que foi a porta da Casa de Linhares onde trabalho com mais frequência na ausência daquele que é, sem saber, o maior culpado de eu hoje tocar: Jorge Fernando.

 

 

É mais fácil, para si, assumir a frente palco, como intérprete principal, ou acompanhar outros artistas?

Assumir a frente de palco é sem duvida a mais fácil. Porque sou eu a minha viola e um Guitarrista.
Mas tenho imenso prazer a acompanhar os meus colegas porque gosto de os ver na frente a comandar e a deixarem-se comandar sendo que é um trabalho de três e não de um só. E portanto estamos todos a dar a mesma intensidade ao momento para que aconteça Fado.

Quando nasceu este gosto pelo fado?

É uma herança familiar. O meu avô materno, que não conheci, cantava muito bem, com a voz colocada uma mistura de Max e Carlos Ramos. Se tivesse saído de Évora, e desculpem-me o atrevimento, poderia ter tido lugar no Fado ao lado de muitos do antigamente. Por sua vez, a minha mãe herdou esse dom e esse gosto e acabei por ser educado nesse ambiente e ia sempre com ela aos espectáculos que se faziam nas aldeias no Alentejo e que na altura eram muitos. Começava-se à quinta feira e terminava ao Domingo à tarde. E eu queria cantar. Mas quando chegava a altura fugia com vergonha. Até que um dia o guitarrista que acompanhava a minha mãe me pôs em cima do palco e disse para cantar e eu cantei. Claro que as pessoas acharam muita piada. Eu tinha cinco anos usava calções e suspensórios. Quem não acharia piada a isto?!

 

 

Nasceu em Évora. Trará algo do Alentejo, em termos de repertório, ao festival?

Eu não sou de modas.

A música pode ser encarada como oração?

Claro que sim. A famosa frase o diz ” cantar é rezar duas vezes “.
Quando vejo alguém a chorar ao ouvir uma musica, essa musica já fez a sua função. Chegar ao intimo e provocar reacção. E rezar é isso mesmo. Chegarmos ao nosso intimo e deixarmos que isso nos provoque reacções.

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Que conto convosco no dia 28 de Setembro na igreja de Santo Estêvão, para juntos criarmos reacções.
E obrigado Rui pela oportunidade de dar a conhecer um pouco de mim aos leitores da Infocul.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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