Katia Guerreiro: “Falta sempre tudo! Ainda é muito cedo para achar que já fiz tudo… “

Katia Guerreiro 83

 

Katia Guerreiro é das vozes mais aclamadas no fado. Um reconhecimento que tem maior projecção internacional do que em Portugal. A sua ligação à música surge muito cedo, em São Miguel, Açores, quando toca viola da terra no Rancho Folclórico de Santa Cecilia.

 

 

Veio estudar medicina para Lisboa e integra a banda de rock “Os Charruas”, até o fado a encontrar (ou vice-versa) numa gala de homenagem a Amália Rodrigues. Dai para cá, o percurso é conhecido do grande público e as salas esgotadas por esse mundo fora sucedem-se.

 

 

Em entrevista ao Infocul aborda o seu percurso, anuncia novo disco e revela um pouco de si fora dos palcos.

 

 

Nasceu na África do Sul mas cedo foi para os Açores. É frequente demonstrar publicamente o seu amor pelos Açores. Qual a importância deste arquipélago e das suas gentes para si?  

 

Os Açores são um lugar muito especial, inspirador, e único no mundo. Crescer lá foi uma verdadeira aprendizagem de contemplação à beleza. Sem beleza não há vida. Para mim, foi um processo de construção de personalidade que acaba por se revelar nos tempos da faculdade, mas sobretudo quando, começo a cantar fado. As gentes dos Açores são acolhedoras, gente a quem o isolamento faz tanto bem quanto mal. Viver numa ilha não é o mesmo que viver num continente. E admiro a tendência artística que o ilhéu tem. Sobretudo para a escrita e para a música. Serei sempre orgulhosa de ser dos Açores e demonstrá-lo-ei sempre. 

 

 

Para quem não conhece o que é a Viola da Terra? 

 

É um instrumento tradicional dos Açores, com 12 cordas e com um som muito particular. É da família da viola braguesa e da viola campaniça, se quiser. O aspecto é muito semelhante, mas a sonoridade não é a mesma. É um som muito doce, e é um instrumento com muito potencial. 

 

 

Como foi a experiência de estudar medicina e ser vocalista da banda de rock, Os Charruas? 

 

Bastante desafiante. Levava os tratados de Medicina para os ensaios que aconteciam todos os fins-de-semana no Cartaxo e ficava a estudar até precisarem de mim. Mas estudava no meio dos amplificadores. Chegávamos a dizer que os microfones já sabiam anatomia. Foi um tempo muito divertido, e sobretudo, ganhei uma família que é inseparável. 

   

 

Quando surge o fado na sua vida e de que forma? 

 

Tudo começou aos 15 anos nos Açores, a tocar “Viola da Terra” no Rancho Folclórico de Santa Cecília. Foi lá que cantei o primeiro fado. Depois e já em Lisboa integrei a banda rock “Os Charruas”, da qual fui vocalista durante os anos em que estive na faculdade. Foi também durante esta fase, que me aproximei mais do fado e ía fazendo pequenas actuações de vez em quando…até ao dia em que fui cantar na Gala do 1º aniversário da morte da Amália, no Coliseu. 

   

 

Qual foi até agora o disco que mais a satisfez? 

 

Cada um deles faz parte de uma época e duma fase da minha vida. Todos fizeram muito sentido quando e como foram gravados. São todos especiais, contam a minha história nestes 16 anos de carreira. 

Escolher um é difícil e talvez não seja muito justo, até para comigo. Mas gosto muito do meu último disco “Até ao Fim”, fiquei muito satisfeita com o resultado final e com a forma como foi recebido pelo público.  

 

 

É frequente sabermos de salas internacionais esgotadas para a ouvir. Sente que tem uma maior projecção internacional do que nacional? 

 

É verdade. Em Portugal consome-se mais o imediato, o óbvio e o fácil. Se for estrangeiro, tanto melhor. O que canto vai para além do que se ouve. Os poemas que canto obrigam a sentir e a pensar no mais íntimo de nós. E hoje em dia, a vida passa a correr, sem se dar tempo nem espaço ao que se sente ou o que se deveria sentir.  Mas há sempre um momento em que tem de acontecer, e se eu tenho a sorte de me cruzar com esses “alguéns” que precisam, ficam colados a mim. 

 

Ao longo da sua carreira França foi dos países que mais a aclamou. Qual a relação que tem com o público francês? 

 

Faz hoje precisamente 3 anos que fui condecorada pelo Governo Francês pela minha carreira em França. Foi um momento muito importante na minha carreira e receber esse reconhecimento de um país que não é o meu, foi muito de uma alegria imensa. É o país onde mais canto e onde, invariavelmente, as salas esgotam com muitos dias de antecedência. Ter sido a primeira portuguesa a ser convidada a actuar na Sala Principal da Ópera de Lyon (2016) é mais uma das provas desse carinho que tento retribuir em cada concerto, em cada fado. Sou-lhes eternamente grata.   

 

Durante este percurso já fez alguns duetos com artistas tão distintos como Martinho da Vila, Rogério Charraz, Monda, Ney Matogrosso entre outros. Houve algum que a tivesse marcado mais? 

 

Todos me marcaram à sua maneira. Gravar e poder cantar com artistas que ouvi desde sempre e que admiro muito,  como  é o caso dos artistas brasileiros com quem fiz duetos, é uma honra e um privilégio que esta vida me trouxe.  

Cantar com amigos, como o Rogério Charraz ou os MONDA, e poder levar a amizade para um estúdio e para cima de um palco é um prazer indescritível.   

 

 

Caso tivesse possibilidade de escolher alguém para um dueto quem seria? 

 

Com Celeste Rodrigues. 

 

 

Qual o concerto que mais a marcou em todo este percurso e com o privilégio de ter pisado os maiores palcos? 

 

Foram inúmeros, por diversas razões. Mas destaco o Olympia em 2012. Era um sonho antigo, meu e do meu agente francês. Passava tantas vezes à porta do Olympia e pensava o quanto gostava de um dia pisar aquele palco.  

Foi um concerto inesquecível! tudo certo! Deu origem ao primeiro CD e DVD ao vivo. Aquele momento tinha que ficar para sempre!  

 

Houve algum momento mais complicado na carreira? Algum momento em que tenha ponderado desistir da música? 

 

Isto é um bichinho complicado, este do Fado. Tive, até há 4 anos atrás sempre a possibilidade de voltar à Medicina em exclusivo. Se não o fiz foi porque senti sempre que valia a pena. E vale! 

 

Como tem assistido a este fenómeno em redor do Fado? 

 

Sem surpresa. Quando comecei, há 16 anos, éramos muito poucas, e o mundo pedia fado de forma muito interessada. O Fado tornou-se um dos nossos mais importantes cartões de visita. A procura crescente fez com que se percebesse o potencial renovado do fado e, para os produtores, uma grande oportunidade de angariar novos artistas que podiam promover no estrangeiro. Só mais tarde é que Portugal volta a reconhecer o Fado como seu e a acarinhá-lo.  Fico muito feliz com este renascimento e por ser uma das suas propulsoras. 

   

 

Quem é Katia Guerreiro fora dos palcos? Quais os seus gostos e hobbys? 

 

Uma criatura normal! Os meus gostos são muito variados. Mas a pintura, antiguidades, a poesia, a música e a gastronomia são pratos fortes na minha vida. 

 

 

Para 2017 o que está a ser preparado? Há novo disco a caminho? Se sim, o que nos pode já revelar? 

 

Estou a preparar um novo disco, sim. Mas é ainda muito cedo para fazer revelações. 

 

 

O que ainda lhe falta fazer em termos artísticos? 

 

Falta sempre tudo! Ainda é muito cedo para achar que já fiz tudo… Já fiz muito, mas quero sempre fazer mais. 

 

 

Gostava que os seus filhos seguissem as suas pegadas enquanto artista? 

 

Os meus filhos escolherão o seu próprio caminho. Eu cá estarei para os ajudar no que precisarem. 

 

 

Onde pode o público interagir consigo e estar a par das suas novidades? 

 

A minha página oficial no facebook é talvez o local “mais à mão” para essa interacção com o público. Estou atenta e respondo às mensagens sempre que posso. Lá, e no meu site: www.katiaguerreiro.com , podem ficar a par das novidades, agenda, etc.  

 

 

Qual a mensagem que pretende transmitir aos seus fãs? 

 

Agradeço profundamente a forma verdadeiramente calorosa com que me levam ao palco, como me abordam com histórias de vida que foram marcadas por canções ou fados meus. Desejo-lhes um tempo de Amor, felicidade e ternura. Assim tornamo-nos doces e a vida sabe melhor, a poesia ganha mais sentido e as palavras ditas são mastigadas ao dizer: E isso é fado, o nosso Fado! 

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