Leitão de luxo e Moura encantada encerram com chave d’ouro o Montepio Fado Cascais

O Montepio Fado Cascais encerrou com chave d’Ouro. Ana Moura esteve perto da excelência e numa das melhores actuações que lhe assisti, não deixou créditos por mãos alheias. Carlos Leitão actuou na primeira parte e marcou a sua performance pela segurança, interpretação e uma interacção adequada e inteligente perante o público que teve por diante.

 

 

 

No último dia de Montepio Fado Cascais os horários foram ajustados devido à presença de Ana Moura no concerto de Benjamin Clementine no Super Bock Super Rock. Ou seja, começaram mais tarde, comparativamente aos dias anteriores. Perante um vento ‘chato’ e desagradável, coube a Carlos Leitão abrir as actuações no palco principal do festival.

 

 

O fadista lisboeta e de alma alentejana, começou este espectáculo com uma interpretação dedicada, sou suspeito, à região mais bonita de Portugal: o Alentejo! Carlos Leitão fez-se acompanhar em palco pelos seus habituais ‘Três Mosqueteiros’: Henrique Leitão na guitarra portuguesa, Luís Pontes na viola de fado e Carlos Menezes no contrabaixo.

 

Numa actuação em crescendo, manteve o alinhamento, na maioria, que tem levado a vários palcos, nesta digressão do disco “Sala de Estar”, marcando a sua performance em palco por uma afinação que compete com um relógio suíço, uma boa dose de equilíbrio entre a doçura e a raiva interpretativa, dando vida aos poemas e conseguindo, assim, passar as várias mensagens dos poemas ao público. Além de temas do mais recente disco, tempo ainda para recordar o primeiro disco, “Do Quarto”. Carlos Leitão está a crescer, se lhe derem palco…o resto é tudo dele! Seja qual for o público…

 

Ana Moura foi quem teve a responsabilidade de fechar o festival. E que encerramento! Uma actuação à antiga! Voltaram, assim espero, os tempos áureos de Ana Moura, um dos timbres mais bonitos da música em Portugal!

 

 

Os últimos concertos de Ana Moura a que assisti deixavam-me sempre com a nítida sensação que faltava algo: Voz Cansada, Pouca energia, má interacção com o público, enfim, havia sempre algo que, na minha opinião, manchava as actuações de Ana Moura. Ontem, tinha tudo para correr mal novamente: foi participar no concerto de Benjamin Clementine e veio ‘a abrir’, com a ajuda de batedores, até Cascais para encerrar o Montepio Fado Cascais. Mas não. Esteve a um nível superior. E isto, é das melhores noticias que a música portuguesa, o fado em particular, podia receber.

 

Ana Moura percorreu a sua discografia e trouxe a Cascais um alinhamento bem conseguido, mesclando temas mais conhecidos e dançáveis com Fados Tradicionais, sublimemente, bem interpretados. Afinada, com uma rouquidão aveludada natural, e uma alma capaz de acalmar as ondas agitadas do Guincho, Ana Moura proporcionou um espectáculo sem apontamento negativo a um público que a acarinhou muito.

 

 

Ana Moura sabe, até nos momentos previamente planeados, ser natural. Sabe ser dócil para com um público que nunca a deixa só e que facilmente se deixa encantar por uma Moura que tem, por mérito próprio e talento natural, lugar de destaque na música portuguesa. As suas interpretações ficam num limbo entre o antigo e o contemporâneo, entre os becos e vielas dos bairros alfacinhas e a multiculturalidade mundana. Ana Moura consegue levar a tradição a outros campos, fá-lo com a sua voz única. 

 

 

Um dos destaques do seu espectáculo foi a presença de Gaspar Varela, jovem guitarrista de 14 anos e bisneto de Celeste Rodrigues, que mostrou virtuosismo e talento ao lado do genial Ângelo Freire. Por falar em Ângelo Freire, que bom seria ver este talento a construir uma carreira a solo…

 

 

“Leva-me aos Fados”, “Tens os olhos de Deus”, “Fado Dançado”, “Dia de Folga”, “Desfado”, entre tantos outros, foram alguns dos temas interpretados em Cascais. Ana Moura esteve acompanhada por Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Pedro Soares na guitarra clássica, André Moreira no baixo, Alexandre Frazão na bateria e João Gomes nos teclados, uma equipa de luxo e que esteve, tal como Ana Moura, em grande plano.

 

 

Perante uma noite fria e desagradável, parecia estarmos num jogo da selecção holandesa tal a macha laranja das mantas distribuídas ao público, Carlos Leitão e Ana Moura conseguiram assim, cada qual a seu estilo, aquecer a alma e os corações de quem encheu o Parque Palmela. Antes, entre as 19:30 e as 21:00, na zona de restauração, actuaram Jorge Nunes, Beatriz Felício e Cláudia Picado.

 

Nota: Apresentaremos em breve entrevista com Carlos Leitão e Ricardo Tadeu (organização do festival). Ana Moura não esteve disponível para entrevista.

 

Fotografias: Câmara Municipal de Cascais/Jorge Martin

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Notícia publicada a 22/07/2018


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