Lenita Gentil: “Há verdades que não são fáceis de entender, de gerir e há pessoas que preferem viver na mentira, ouvir mentiras…E eu sou diferente!”

 

 

‘Lenita’ é o mais recente disco de Lenita Gentil, nome maior da música portuguesa e que celebra 47 anos de carreira. Um disco produzido por Jorge Fernando e demonstra as qualidades, já, reconhecidas de Lenita Gentil e ainda um cuidado na escolha de repertório.

 

 

Neste disco, que deve ser ouvido por todos, Lenita obriga o ouvinte a um mergulho por emoções e embora empiricamente seja algo de bonito, obriga a um auto-conhecimento próprio. Ou pelo menos a que se permita sentir tudo o que a música e o poema exigem. E nem todos sabem relacionar-se com emoções. Neste disco é uma obrigatoriedade.

Mas para descobrirmos um pouco mais deste disco, conversámos com Lenita Gentil. Uma conversa descontraída, franca e sem rodeios. Uma conversa que viajou ao passado e perspectivou o futuro. Tudo isto num presente chamado ‘Lenita’!

Este trabalho é um percurso, são 47 anos de carreira, que eu comecei muito pequenina e de há uns tempos a esta parte eu só canto aquilo que eu gosto. Quando eu comecei a cantar, e mais alguns anos depois, gravei coisas que não era coisas que eu gostasse, mas tinha que me limitar, gravei e cantei muita coisa que não gostava. Hoje em dia e de algum tempo para cá, dou-me ao luxo de cantar o que quero”, começa por nos dizer.

Relembrou que “por exemplo no último trabalho gravei um tema que andava para gravar há muito tempo, um tema sul-americano que é o “Hasta siempre Comandante” e portanto tem sido assim, como neste trabalho tenho outro tema sul-americano como é o “Gracias a la vida”, um tema chileno. Mas acho que está um trabalho equilibrado, fado a fado, tema a tema, e depois este meu bichinho pela canção, que me leva a para além do fado, meter um tema que não tem nada ver com fado, como é o caso”.

Orgulhosa, assim podemos definir o estado em que a fadista fica ao falar sobre o disco. O olhar carinhoso mistura-se com a certeza das palavras. E a reposta sai pronta quando questionada se foi difícil escolher repertório. “Não tive muita dificuldade. Há por exemplo um tema, ‘Gota Abandonada’, que gravei há 30 anos ou mais, um tema muito bonito, de dois autores em que um ainda é vivo e outro já faleceu: Professor Martinho da Assunção (que já faleceu) e Maria de Lourdes Carvalho (tia de Gonçalo Salgueiro). Eu canto alguns temas dela, tem poemas lindíssimos. Este foi um tema que se perdeu um bocado e que decidi regravar e ficou muito bonito” antes de acrescentar que “os outros temas, também, tinha mais ou menos pensados como o ‘Gracias a La Vida’, e outros que vieram de surpresa”, destacando um em concreto “há um muito interessante que é o Lágrima, eu conheço-o ‘Lágrima por Lágrima’ mas a Vanda [manager] diz que é ‘Lágrima’ e há muita gente que faz confusão com o fado da Amália que chama-se ‘Lágrima’. Eu vi o tema no Facebook como ‘Lágrima por Lágrima’ e tinham-me induzido em erro porque disseram que era da Sophia de Mello Breyner, mas não é. É de Roque Ferreira, um autor pouco conhecido, um tema que apaixona as pessoas. Houve um amigo meu que foi ao estúdio, quando eu estava a gravar, ficou meio espantado e disse que isto era uma coisa espantosa, fantástica. É um tema como há muito já não se ouve, não é um tema para qualquer público, nem pensar. É um tema para pessoas que entendem e sabem o que é música. E que entendem de músicas, poemas e essa coisa toda. Portanto é uma coisa muito envolvente, tanto da parte musical como o poema, é lindíssimo. É um tema que conheci porque foi cantado há 13 ou 14 anos pela Bethânia, mas ninguém conhece. Foi num espectáculo em que ela entrou no palco descalça acompanhada ao piano e começou a cantar este tema…mas ninguém conhece. Isto funciona quase como um original”. Mas em ‘Lenita’, a fadista tem ainda “um tema do Jorge Fernando, tenho fados tradicionais, tenho um fado que nunca pensei cantar na minha vida, que foi cantado pela Berta Cardoso (uma fadista do antigamente), que é ‘Tia Macheta’, que está muito identificado com ela. Para quem conhece de fado e conhece o percurso dela, o grande público não conhece…” portanto considera que “o disco não é maçudo, tive sempre esse cuidado, acho que está diversificado, temas distintos uns dos outros”.

Dona de portentosa voz, é também de emoções que vive, “aprendi a gerir as minhas emoções ao longo da vida, aliás a vida é uma escola. E nós, a não ser que sejamos muito estúpidos, vamos aprendendo. E é isso que eu tenho andado a fazer, eu tenho estado sempre a aprender”, dando como exemplo o disco que agora é editado, “aliás eu gravei o disco a algum tempo, mas se hoje fosse para estúdio já mudava qualquer coisa, porque aquilo que aprendemos hoje amanhã já fazemos de outra maneira”. Para Lenita Gentil, “um artista quando vai para estúdio ou palco, eu ontem estive num espectáculo e hoje vou estar noutro, não pode fazer igual. Depende do nosso estado de espírito. Se fizermos sempre da mesma forma é mecanizado, acaba por ser um produto”.

Um disco que contou com Jorge Fernando ao leme da produção e entre os desafios, Lenita fala de tempo, porque “difícil é gerir o tempo com Jorge Fernando. Ele não é um homem de tempo, nem de horas, nem de dias…É quando é! Pode ser amanhã, pode ser depois de amanhã ou daqui a uma semana, ou quiçá daqui a seis meses. Esse foi o aspecto mais difícil de trabalhar com ele, porque eu não sou assim. E é muito difícil alguém ser assim, mas ele é! Certamente não será o único. De resto, é um homem muito exigente, ele vê e ouve coisas onde nós não conseguimos (e olhe que eu tenho um ouvido muitíssimo apurado)”.

Numa conversa em que as memórias foram surgindo, lembrou, que ao longo da carreira, “gravei com grandes maestros como Ferrer Trindade. Mas este país tem um grave problema, o grande público não conhece os grandes nomes. Se falar ao grande público de Ferrer Trindade, ninguém sabe quem é… mas se falar na ‘Canção do Mar’…” e apontando o dedo aos artistas porque “aí os artistas têm alguma responsabilidade por não dizerem o nome dos autores e compositores. Eu tenho sempre, mas sempre, o cuidado de quando vou para palco ou na casa de fados, anunciar o compositor e letrista. Acho que é importantíssimo. No que diz respeito a mim, se não fossem eles eu não cantava. Não sei música, não sou poeta…sou cantora. Tenho que mencionar o nome das pessoas!

No alto do seu percurso e reconhecida qualidade, Lenita Gentil, foi desafiado a dizer-nos o que não pode faltar a quem quer fazer carreira na música: “Há duas coisas que são importantes, o compasso e afinação. Eu já ouvi pessoas cantar fado, e outras coisas, que não têm compasso. E isso é um desastre! A afinação é uma coisa que agora é muito rara e o compasso… Para se cantar fado ou outra coisa qualquer, o jazz não porque é outro género, é muito importante a dicção. Portanto fundamental: compasso, afinação e dicção. São três coisas importantes para se cantar seja o que for e que a maior parte das pessoas que andam aí não têm”.

Regressando ao seu disco, provocámos Lenita com o título de um dos temas, ‘Nasci para ser ignorante’, e se o dedicaria a alguém. Após valente gargalhada, disse-nos que “essa letra é curiosa, mas como hei de explicar, não é ofensiva. Essa letra vamos levá-la para a brincadeira. Ninguém pode levar aquilo a sério. Ninguém nasce para ser ignorante, há pessoas que são mas são porque a vida fê-los assim. Mas há pessoas assim, seja em que área for, andam cá uma vida e não aprendem nada. Se calhar dedicava a elas…”, soltando nova gargalhada.

Sobre a reacção que espera do público a este disco, diz que “isso depende de cada um, da maneira como as pessoas sentem e ouvem. Gostava muito que este CD chegasse à maior parte das pessoas. Não tenho a pretensão de dizer toda a gente, mas à maior parte das pessoas, sim! Porque há ali canções que têm grandes mensagens, assim elas sejam entendidas dessa maneira”.

Assume-se como “uma mulher de afectos”, mas a demonstrá-los, “lá está, depende do estado de espírito. Eu sou imprevisível (quer dizer, espera lá, quando digo isto as pessoas devem pensar que ‘esta não é certa’), depende do meu estado de alma. Depende de como acordo, de como corre o dia…”. Enquanto artista destaca um pormenor que faz toda a diferença, “as pessoas às vezes têm problemas na vida e depois transportam isso para o que estão a fazer: a tocar ou a cantar. E isso não pode acontecer! Porque o público não tem culpa! Eu consigo fazer a destrinça das coisas”.

Sobre o facto de a sua verticalidade lhe ter trazido mais benefícios ou dissabores assume que “as duas coisas. Coisas positivas porque acho que ninguém perde por dizer a verdade. Quem a ouve pode não aceitar logo, mas acho que um dia vai entender”, até porque “há verdades que não são fáceis de entender, de gerir e há pessoas que preferem viver na mentira, ouvir mentiras…E eu sou diferente! Mesmo que seja mau, muito mau, eu prefiro ouvir uma verdade. Mesmo que doa!

Sobre a dor que a mentira provoca, “depende da gravidade que pode ter uma mentira. A pessoa mentirosa compulsiva mente nas coisas que não têm importância nenhuma e mente nas coisas que são muito graves e importantes!”, acrescentando que “há pessoas que mentem mesmo, não sabem viver de outra maneira. Mentem até sobre elas próprias, são uma coisa e dizem outra. Mas isso só o tempo vai descobrir isso tudo”.

Sobre as suas grandes referências, começou por dizer que “vamos cair num lugar comum”, até porque “a cartilha é a mesma, todas elas falam da Amália”. Mas no seu caso, “ouvi Amália, fui habituada a ouvir Amália mas não só, o meu pai era músico profissional, saxofonista, e portanto como deve calcular ouvia-se muita música em minha casa. O meu pai ouvia música portuguesa, a Amália no fado, mas ouvia também as grandes orquestras”. Sobre a música portuguesa e o que era ouvido, destacou que “no fado era Amália, Marceneiro e Maria Teresa de Noronha. É uma mulher que aprendi a ouvir e a gostar. Tinha uma voz primorosa. Totalmente diferente da Amália, mas com uma voz primorosa”.

Sobre a actualidade fadista foi sucinta, não fugindo à questão: “Há boas vozes, há muito más. Há mais más do que boas”. Segredo apenas sobre os nomes que mais aprecia do fado actual: “Vou manter em segredo”.

Fora dos palcos considera-se “uma mulher simples, amiga do seu amigo, às vezes mais do que o amigo. Sou de casa, gosto de receber as pessoas, gosto de cozinhar. Sou uma boa doceira. Normalmente quem é boa cozinheira, não é tão boa doceira, mas eu consigo ser as duas coisas”.

 

Disco Lenita:

 

• Flor de verde pinho

De Afonso Lopes Vieira e Carlos Gonçalves
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa- Bruno Chaveiro
Baixo- Marino de Freitas

 

• Fado Ricardo

De Jorge Fernando
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Bruno Chaveiro
Baixo – Marino de Freitas

 

• Lágrima

De Roque Ferreira
Guitarra Clássica – Jorge Fernando

 

• Nasci para ser ignorante

De Sebasteão da Gama e Carlos Gonçalves
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Bruno Chaveiro
Baixo – Marino de Freitas

 

• Cuidei que tinha morrido

De Pedro Homem de Melo e Alain Oulman
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Bruno Chaveiro
Baixo – Marino de Freitas

 

• Tia Macheta

De Linhares Barbosa e Soares
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Bruno Chaveiro
Baixo – Marino de Freitas

 

• Gracias a la vida

De Violeta Parra
Guitarra Clássica Pedro Jóia

 

• Travessa da Palha

De Gabriel de Oliveira e Frederico de Brito
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Bruno Chaveiro
Baixo – Marino de Freitas

 

 

• Rosa caída

De Joaquim Borges e Joaquim Campos
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Custódio Castelo
Baixo – Marino de Freitas

 

• Gota abandonada

De Maria de Lurdes de Carvalho e Martinho da Assunção
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Bruno Chaveiro
Baixo – Marino de Freitas

 

• Rasga o passado

De Álvaro Duarte Simões e Alain Oulman
Guitarra Clássica – Jorge Fernando
Guitarra Portuguesa – Bruno Chaveiro
Baixo – Marino de Freitas
Violino – António Barbosa

 

O disco será editado a 1 de Março.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.