“Lisboa tornou-se a capital da música cantada em língua portuguesa e nós estamos na génese desse novo sotaque”

 

Será já a dia 6 de Julho que Pierre Aderne levará ‘Rua das Pretas’ ao palco do Coliseu dos Recreios. E será nesse mesmo palco em que também estará…o público.

Em conversa, com Rui Lavrador, Pierre Aderne desvendou um pouco do que levará ao Coliseu dos Recreios e também o início de todo este conceito a que se dá o nome de ‘Rua das Pretas’ e que tem levado a estas tertúlias musicais alguns dos nomes maiores da cena musical internacional.

 

“Lisboa tornou-se a capital da música cantada em língua portuguesa e nós estamos na génese desse novo sotaque”

Quando surge este conceito da ‘Rua das Pretas’?

Na minha vida passada… (sorri).
Quando era criança, a minha mãe recebia em casam em Olhos d’Água – Goiás, o pouso de folia do divino Espírito Santo . Os cavaleiros do divino pousavam em nossa casa de campo . Havia um senso de comunidade, todos em multidão preparavam a casa para receber a festa e os foliões. Mais tarde, há 15 anos na Nascimento Silva, minha casa, que ficava em frente a casa de Tom Jobim, em Ipanema, resolvi fazer esses saraus, refúgios musicais para lembrar os pousos de folia e os encontros da bossa nova, na casa do pai de Nada Leão, na Avenida de Atlântica, em Copacabana e também na casa de Tom. Acabou por torna-se um ponto de encontro de João, os contemporâneos lusófonos por lá . E não só, artistas que amam a música cantada em português começaram a vir : No meu sofá passou a dona flor desta geração : Maria Gadu (uma menina de Sampa que ninguém conhecia) , Madeleine Peyroux, Jesse Harris, Teresa Cristina, Edu Krieger, Vinicius Cantuaria e até portugueses como um menino de Beja chamado António Zambujo, que chegou numa noite de outono carioca quando ninguém sabia quem era o gajo. Depois mudei para Lisboa, para a Rua Poços dos Negros, trouxe o sarau, chegaram bambas portugueses como Jorge Palma, Tito Paris, Gisela João, Mário Laginha e tantos outros … Mudei-me para a Rua das Pretas, lá estava o sarau e também os amigos do vinho… Há dois anos resolvemos cobrar o que dávamos “de grátis” (sorri) e a Rua das Pretas tornou-se um show, uma festa, um Pouso de folia. Em um Palacete privado no príncipe real onde nos últimos dois anos recebemos mais de 180 artistas da música lusófona e um público superior a 3.000 pessoas… continua íntimo. Esse é o caminho. O músico fazer música para agradar a si próprio. Lisboa tornou-se a capital da música cantada em língua portuguesa e nós estamos na génese desse novo sotaque .

 

Depois de teres recebido dezenas de convidados em várias tertúlias musicais, ‘Rua das Pretas’, levas este espectáculo ao Coliseu de Lisboa. Quando surgiu esta possibilidade e de quem partiu a iniciativa?

Surgiu de Ricardo Covões, gestor do Coliseu dos Recreios, que foi à Rua das Pretas e teve a ideia de levar o conceito ao mítico Palco lisboeta… Deixando o público no palco connosco a beber os tintos da Niepoort, Vale Dona Maria, Quinta do Espinho e os verdes minhotos da Soalheiro . Só alegria!

A Rua das Pretas tem sido também um ‘laboratório’ de vozes que andavam desconhecidas do público?

O público gosta do que sabe, mas que também quer saber do que ainda não sabe . A surpresa é o grande estandarte destes encontros onde tudo pode acontecer . É importante estar atento ao acaso e a imensa minoria que frequenta a Rua das Pretas já sabe disso .

Este espectáculo decorrerá no palco do Coliseu e é lá que também estará o público, tendo como pano de fundo a plateia desta emblemática sala. Em termos cénicos e de imagem estás a preparar algo?

As bandeiras do pintor Gonçalo Ivo, criadas para a Rua das Pretas que tornaram-se a imagem de marca da Rua das Pretas . As luzes a iluminar a beleza dessa sala que está no inconsciente colectivo de qualquer artista da música lusófona .

 

 

O alinhamento para este espectáculo já está pensado ou há sempre margem para o improviso?

Surpresa! (sorri) Mas posso adiantar que teremos muitas canções que escrevi para artistas portugueses e os duetos que gravei na terrinha. Tudo pode acontecer, por isso não adianto quem são os artistas … mas depois não digam que não avisei. (sorri)

Quem for a este espectáculo poderá também provar duas marcas de vinhos que se associam a este evento. Como e quando surge esta parceria?

São quatro, mencionadas acima… com a ressalva que Dirk Niepoort frequenta a Rua das Pretas desde 2011 . Juntos fizemos o Wine Álbum.

 

“Minha crença é a partilha , a comunidade , a troca de segredos em geral .. o resto é apenas uma ciranda de egos.”

Sentes que com este conceito aplicas na prática a ideia de que ‘música é partilha’?

Com certeza . Minha crença é a partilha , a comunidade , a troca de segredos em geral .. o resto é apenas uma ciranda de egos .

Quais os músicos que irão acompanhar-te?

Não conto! (sorri) … Ok, adianto os móveis da casa : Camila Masiso, Augusto Baschera, Joana Amendoeira, Walter Areia, Humberto Araújo, Nilson Dourado e mais 10 participações especiais …

Há mais salas onde vás levar este conceito? O que já podes revelar?

A ideia é passar pelos grandes palcos europeus com o mesmo conceito… Fazer música do palco para dentro.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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