Luís Rouxinol Jr.: “Sou bastante exigente comigo, gosto de trabalhar para ser o mais perfeito possível”

Luís Rouxinol Jr. cumpriu em 2019 o seu segundo ano, enquanto cavaleiro de alternativa. Depois de a receber em 2017, das mãos do seu pai no Campo Pequeno, foi em 2019 que subiu alguns degraus na qualidade apresentada.

Ser jogador de futebol era ideia inicial, enquanto miúdo, mas o seu destino haveria de ser outro…e com código genético: Cavaleiro tauromáquico.

Nasceu a 15 de Outubro de 1996, sendo o mais velho de dois irmãos (Simão tem 11). Se o seu maior ídolo é o pai, não esquece o incentivo e os ensinamentos do seu avô, Alfredo Vicente.

O cavaleiro recebeu-nos em sua casa e concedeu uma entrevista, na qual dá a conhecer o cavaleiro e o cidadão, abordando os sacrifícios que são necessários fazer, para triunfar nesta área e ainda o peso de ser filho de quem é.

Sobre a temporada transacta, começou por fazer “um balanço bastante positivo, numa temporada bastante boa, completa, com corridas com competição, em cartéis e com ganadarias exigentes. São desafios que me fazem sentir toureiro, que me ajudam bastante a crescer. Fiquei muito satisfeito com os resultados”.

Explicou-nos que “a diferença do primeiro para o segundo, ano de alternativa, foi a exigência. Entrei em cartéis de maior responsabilidade e com mais competição. Isso é algo que me ajuda e me cativa bastante”.

Sobre as críticas que a imprensa redige, afirma que “gosto sempre de ver todas as críticas, as positivas e as negativas. Vou sempre buscar todos os aspectos em que possa melhorar”.

Sou bastante exigente comigo, gosto de trabalhar para ser o mais perfeito possível. Portanto fui lidando bem com as opiniões. À medida que vamos crescendo, encontramos o nosso caminho, sentindo o nosso toureio e como queremos ser. Acho que encontrei o meu caminho. Tenho no meu pai o melhor exemplo, mas quero ser reconhecido como Luís Rouxinol Jr. e não como o filho do Luís Rouxinol”, acrescentou.

Na temporada passada, usou a hashtag #UmaTemporadaComCategoria em homenagem ao seu antigo apoderado, Francisco Penedo.

Rouxinol Jr. assume que Penedo fará sempre parte da sua vida, porque “foi uma pessoa muito importante na minha vida, foi um grande amigo meu. Comecei com ele, ajudou-me a crescer muito, aconselhava-me. Era um amigo intimo. Depois aconteceu essa fatídica notícia, o Francisco faleceu e deixou-nos. Ele falava sempre que gostava das coisas feitas com categoria, dentro e fora da praça. E essa hashtag que utilizei [#UmaTemporadaComCategoria] foi uma singela homenagem. Mas penso que a maior homenagem que lhe pude prestar foi triunfar em praça, e esteja ele onde estiver, penso que estará bastante orgulhoso”.

De Francisco Penedo, o conselho mais importante que recebeu foi “trabalhar. Esforçar-me ao máximo, com dedicação e empenho. Porque conseguimos alcançar tudo a que nos propusermos”.

Para chegar a cavaleiro profissional, explica que “tive de abdicar de algumas coisas para seguir o meu sonho. Mas faço quase tudo o que um jovem da minha idade faz. Mas por exemplo, no verão quando todos estão de férias, eu estou a trabalhar e nas corridas. Mas não me arrependo de nada, de nenhum esforço ou sacrifício que fiz. Porque ser toureiro é o que me completa e me faz feliz!

No seu primeiro ano, relembrámos-lhe que citava o touro com as mesmas palavras e expressões do seu pai. Assume que “o que digo é o que sinto, não sei se são os genes ou não, mas vem dentro de mim [risos]. Quando estamos em frente ao touro, dizemos o que nos vai na alma e sentimos. Não é uma coisa pensada, nem nada disso. Até mesmo nas lides, é uma coisa do momento. Não levo nada preparado de casa”.

Questionámos Luís André da Silva Vicente, nome de baptismo e ao qual adicionou o Rouxinol Jr. em termos artísticos, se a presença o seu pai na trincheira, numa lide sua, lhe dá mais confiança ou responsabilidade. Para Rouxinol Jr. “um bocadinho das duas. Quando o meu pai não está presente, sinto-me um bocadinho mais liberto, sinto-me mais eu. Quando o pai está presente e saem aqueles touros mais complicados, basta um simples gesto, olhar ou indicação…É bastante importante ter o pai presente, porque um simples gesto dele pode ser um pormenor muito importante na lide de um touro”, explicando que os conselhos do pai já o ajudaram em “várias situações. Por exemplo, há momentos em que temos de mudar o touro para o lado oposto ao da crença; a distância a que citamos o touro; a distância a que o atacamos; o momento em que abrimos quarteio; se atacamos mais ou menos. Por vezes, um conselho dele, faz toda a diferença. É uma grande ajuda, alguém com muita experiência”.

Sobre o seu pai, disse-nos ainda que “admiro tudo no meu pai. Foi uma pessoa que do 0 conseguiu alcançar o topo. Contra tudo, venceu! Tenho muito orgulho no pai que tenho, como toureiro e pessoa”.

 

O seu pai conta com 32 anos de alternativa e um percurso feito a pulso, com vários obstáculos. Por esse mesmo motivo, questionámos se Rouxinol Jr. sentia que tinha a vida mais facilitada, comparativamente ao seu pai, tendo-nos dito que “sinto que tenho a vida mais facilitada, mas por outro lado tenho complicações porque as pessoas exigem mais por ser filho de quem sou. Mas tenho facilidade em ter os seus ensinamentos, os seus conselhos, alguns dos seus cavalos. Tem as suas vantagens e desvantagens, mas que me motiva a esforçar para o conseguir superar”.

Sobre as diferenças entre ambos, disse que “que cada qual tem o seu toureio. As bases são as mesmas, não pode fugir muito. Mas há pormenores que fazem a diferença” e até deu como exemplo, “uma das imagens de marca do meu pai é bandarilhar a duas mãos, eu já comecei a fazer essa sorte mas não é algo que faça constantemente”. Sobre o que os liga, afirma que “tanto o meu toureio como o dele é feito de raça, entrega, querer. Nunca nos damos por vencidos, seja o touro mais fácil ou difícil. Nunca queremos defraudar o público, porque é aquele que temos de respeitar mais”.

Ser toureiro nem sempre foi o seu sonho, “vou ser sincero, até aos meus 10/12 anos sonhava, como todos os jovens, em ser jogador de futebol. Ainda joguei no Vitória de Setúbal, joguei durante bastante tempo futebol”, até que “depois com o tempo , fui montando, crescendo neste mundo, vendo as corridas do meu pai e até que um dia fui tourear uma vaca e a partir daí fiquei “desgraçado” [risos]. Desde aí nunca mais parei, fiz a minha estreia em 2011 e não tenho parado”.

E sobre o dia da sua alternativa, diz que “lembro-me como se fosse ontem. Foi o concretizar de um sonho. Foi o dia do concretizar de todos os esforços, cumprir o sonho de criança. Lembro-me que uma semana antes já andava com noites mal dormidas, a imaginar como seria o touro, se as coisas correriam bem ou não. O dia da alternativa foi mais tranquilo, estava ansioso mas não com os nervos do dias anteriores. As coisas correram bem, com um cartel inteiramente ao meu gosto”.

Uma das questões muitas vezes levantada é a dificuldade dos jovens cavaleiros, principalmente os de dinastia, atingirem o nível dos mais antigos. Para Luís Rouxinol Jr., “os cavaleiros mais antigos e consagrados têm muitos anos disto e um nível muito elevado. É bastante difícil para os jovens conseguir atingir o nível dos consagrados”.

Acrescentou ainda que “o mais difícil nem é conseguir uma actuação boa aqui ou ali. É conseguir manter a regularidade. Tenho aqui o exemplo do meu pai, em 100 lides lembro-me de uma negativa [risos], é uma coisa impressionante. Como temos os casos do António Telles, do João Moura, do Rui Salvador e muitos outros que têm um nível bastante elevado. E nós, os jovens, temos de dar o dobro para conseguir chegar ao nível dos consagrados”.

A tauromaquia tem sofrido constantes ataques e o ruído dos grupos animalistas tem aumentado. Mas Luís Rouxinol Jr. mostra-se confiante de que “esta arte nunca vai acabar. Sempre existiram ataques e divergências”.

O que acho que deve existir é respeito. Eu respeito quem não gosta, mas quem não gosta deve também respeitar uma tradição de há muitos anos. Além de ser uma tradição, o emprego que envolve, o contributo para a economia do país, é uma coisa bastante complexa. Não basta chegar aqui, querer proibir isto e já está. Não pode ser assim. Eu também não gosto de boxe e não critico quem gosta. As pessoas devem respeitar, a liberdade de um termina onde começa a do outro. Existirão sempre pessoas que não gostam, mas penso que esta festa, que é das mais bonitas do nosso país, nunca vai acabar”, acrescentou.

Sobre as críticas e que os toureiros são selvagens e não gostam dos animais, responde que “as pessoas nem têm noção do quanto gostamos dos animais. O quanto nos dedicamos ao bem-estar dos nossos cavalos, que são os nossos companheiros e amigos. Sem eles não conseguimos fazer nada. Tratamos dos cavalos como se fossem da nossa família. Eu gosto de todos os animais, desde cães, cavalos, vacas… Tenho vários animais e trato-os da melhor maneira, desde a escolha da melhor alimentação, a melhor higiene, segurança, tudo! Trato-os como se fossem membros da minha família”.

O IVA nas Touradas aumentou de 6 para 23%. Para Rouxinol Jr. “este governo está a ter uma atitude que é uma ditadura de gosto. Querem arranjar maneira de prejudicar a tauromaquia. No ano passado baixam o IVA de 13 para 6%, mas este ano aumentam para 23%. Estamos a falar do mesmo governo, não faz sentido. A esquerda tem pressionado bastante o governo e penso que o governo não tem tido uma palavra séria com os aficionados”.

Os que consideram que os cavaleiros tauromáquicos ganham muito, têm da parte de Rouxinol Jr., a seguinte resposta: “Não concordo muito. Não me considero mal pago mas poderia ser melhor pago. Isso é relativo, consoante o nível de cada um. Cada qual tem o seu valor, mas a nossa profissão tem muitos gastos desde os treinos, deslocações, alimentação dos cavalos. Por exemplo, toda a logística que envolve a ida a uma corrida é bastante dispendiosa”.

E quando confrontado com a possibilidade de baixar cachet, devido ao aumento do IVA, disse que “para ajudar a festa, estou disponível para tudo”.

Fora da tauromaquia, considera-se “uma pessoa normal, igual aos jovens da minha idade. Vivo o toureio 24 horas por dia. Gosto de ir aos jogos do Benfica, gosto de ir à caça gosto de jogar futebol com os meus amigos na época do defeso, gosto de ir jantar com os meus amigos. Não sou uma pessoa de noitadas, sou um jovem normal”, acrescentando que “discotecas nunca fez muito parte da minha vida”.

Um dos hobbys de Luís Rouxinol Jr. é a caça, que recorda “serve também para manter o equilíbrio na vertente de biodiversidade”. Este gosto pela caça surgiu “desde os meus 5 anos, sempre acompanhei o meu pai à caça, é uma actividade fantástica. As pessoas por vezes quando falam em caça pensam que é o matar. Às vezes nem é o matar, muitas das vezes vou com os meus cães para a caça e nem mato nada. Mas só o sair e ver os meus cães a caçar e divertirem-se… Gosto também de um modelo de caça que é a espera ao javali, que é algo que gosto bastante”. E para os que criticam a caça, deixa o desafio: “Experimentem e depois mudam de opinião, certamente”.

 

Um dos grandes impulsionadores e motivadores do gosto pela tauromaquia foi o seu avô, Alfredo Vicente. “O meu avô provavelmente foi a primeira pessoa a colocar-me o bichinho [da tauromaquia] cá dentro. Lembro-me que quando vinha da escola, com 7 ou 8 anos, ia passear a cavalo com ele para o campo. Foi uma pessoa que me foi acompanhando, deu tudo pela carreira do meu pai e sente-se orgulhoso, agora, ao ver o seu neto também a subir degraus. É, sem dúvida, um grande ser humano”, explicou.

O seu irmão, Simão, com 11 anos é que ainda não demonstra vontade em ser toureiro, mas Luís Rouxinol Jr. deixa isso em aberto “vamos ver, vamos ver...[risos]”.

Recorda que “ele pratica futebol, eu na idade dele era igual”, acrescentando que “ele gosta de montar, de ir às corridas e quem sabe se não teremos aqui um terceiro toureiro, na dinastia Rouxinol”.

Quando questionado sobre qual seria o seu cartel ideal, falou em alguns nomes mas não fechando cartel. “Eu gostava muito, porque nunca tive oportunidade, de actuar ao lado do Pablo Hermoso de Mendoza. Penso que este ano irá concretizar-se. Com o Ventura… gosto de competir com os melhores. E podia também ser um cartel com o Ginja [João Ribeiro Telles], com o Moura Jr. ou com o Palha…Gosto de cartéis de competição”.

Dentro da tauromaquia, diz que “dou-me bem com toda a gente, sou uma pessoa que não tem inimigos. Dou-me bem com todos os meus colegas, mas depois dentro da praça é amigos-amigos negócios à parte”.

O que mais o irrita na tauromaquia são “os ataques. Se os anti soubessem todos os esforços que fazemos por esta arte, mudavam de opinião. Podiam não gostar, mas passariam a respeitar”.

Mais divertido foi quando desafiado, por nós a fazer um paralelismo entre o futebol e a tauromaquia, duas das suas paixões. “O Maradona da tauromaquia? O meu pai! E o Cristiano Ronaldo da Tauromaquia? O meu pai! [risos] O Messi da Tauromaquia? O meu pai! [risos]”, respondeu-nos, não evitando várias gargalhadas.

Desafiado a dizer os cavaleiros com quem lamenta não ter podido tourear, junto deles, revelou que “se calhar o Mestre David Ribeiro Telles. Foi uma pessoa que nunca tive o prazer de conhecer. Ouvi muitas histórias através dos seus filhos, os seus netos, os seus primos, o meu pai que esteve lá. E além de um grande toureiro, julgo que foi um grande ser humano. Portanto era algo que gostava. O José João Zoio também ouvi dizer que era um grande toureiro, o Mestre Baptista”.

Assumiu ainda ser um homem de fé. “Antes de começar a temporada, vou sempre ao santuário de Fátima pedir protecção e depois no final da temporada regresso para agradecer, por ter corrido tudo bem. Tenho um santuário aqui em casa, ao qual venho antes de ir para cada corrida”.

E quanto a superstições, desvendou que “tenho uma casaca que era do meu pai e, não sei porquê, acho que me dá sorte. Por exemplo, vesti essa casaca em 12 vezes, que havia prémio para melhor lide, e ganhei 10. Portanto essa casaca tem algo de especial, não sei se por ser do pai ou não. Em termos de superstições, entro sempre com o pé direito na arena, não coloco o tricórnio em cima da cama e penso que sejam apenas essas. Não sou assim muito supersticioso”.

Para 2020, assume que “deve continuar-se a criar cartéis atractivos, com artistas que compitam uns com os outros, dando importância ao touro que é o rei da festa e quem leva público às praças. Não se devem inventar datas, mas sim fortalecer as datas tradicionais e seguir o exemplo do ano 2019 que foi um ano com muito público nas praças e isso foi muito positivo para a tauromaquia”.

Em praça, e rematando a lide (ou neste caso a entrevista), gosta de enfrentar “um touro que se mova, que transmita, que ande pelo seu caminho. Gosto de touros encastados que reajam após os ferros, que me exijam. Gosto de ganadarias como Veiga Teixeira, Murteira Grave, Palha…ganadarias exigentes!

Abordou ainda a importância que dá às redes sociais, até porque “as pessoas gostam de ver fotos do nosso dia-a-dia”.

 

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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