Manuel João Vieira destaca músicas “intelectuais e filosóficas entre Kant e Engels” dos Ena Pá 2000

A peculiar e corrosiva banda Ena Pá 2000 entra em 2020 com a reedição, em vinil, do seu primeiro álbum de estúdio.

O “Projecto Ena Pá 2000 Project!” foi editado em 1991, sendo que neste LP são acrescentados os temas “Marilú” e “Ana Maria”. Estes dois temas integram o segundo álbum da banda, intitulado ‘Enapália’.

Esta sexta-feira, 17 de Janeiro, a banda deu um showcase na FNAC dos Armazéns do Chiado, em plena capital.

Manuel João Vieira, fundador da banda, falou com o Infocul sobre este trabalho discográfico e as novidades previstas para 2020.

Manuel João Vieira revelou, ironicamente, que “este trabalho era para reeditado no ano 2000, mas demorou 20 anos a ser masterizado e por isso é que só agora está a ser editado”, acrescentando que “este disco quando foi feito, em 1893, foi feito já com o propósito de ser reeditado e masterizado digitalmente”, quando questionado sobre a ideia de reeditar, agora, o primeiro álbum o grupo.

Sobre o facto de os Ena Pá serem constantemente considerados como um projecto satírico e mordaz, explica que “eu não compreendo porque se riem quando nós estamos…, são letras no fundo intelectuais e filosóficas entre Kant e Engels e as pessoas depois riem-se e eu acho que é patético. Há quem pense que é um grupo de comédia, mas na realidade por debaixo de ditos (por vezes) espirituosos escondem-se filosofias incontáveis que toda a civilização ocidental, desde os pré-socráticos até agora”.

Mas assume também que “de facto, as músicas têm arranjos, e dinâmicas, algumas sim outras não, por exemplo a Foz do Arelho não será das músicas mais intelectuais que temos, mas temos canções que evocam grandes nomes da musica clássica, como ‘A bonita troglodita’ que evoca o Romeu e Julieta, de Prokofiev, por exemplo”.

E aposta no vinil, em plena época digital, tem também uma justificação. “Isto foi uma proposta da nossa editora e sem dúvida que existe alguma nostalgia do vinil. Uma das grandes razões é a seguinte, o objecto discográfico é muito mais interessante quando é apresentado nestas dimensões em forma de vinis do que em forma de CD. Por outro lado, aquilo que se passa hoje em dia, em termos de venda de música, o próprio CD está a desaparecer. Isto é: está tudo a ser preterido em favor das novas formas digitais e por isso mais vale ter um objecto bonito”.

Mas nem tudo tem sido um mar de rosas, até porque “raramente vamos a um festival, raramente tocamos em sítios muito grandes. Basicamente as pessoas não apreciam, sobretudo câmaras, não apreciam o nosso tipo de poesia e não apreciam realmente estas coisas mais directas das quais nós falamos”.

Confrontado se isso não seria confundir gosto com qualidade, Manuel João Vieira explicou que “há sempre esse risco, as decisões estéticas e aquilo que é considerar interessante em termos estéticos às vezes é confundido com aquilo que é importante em termos temáticos. A linguagem não faz o discurso e o discurso não faz a linguagem”.

 

Alinhamento:

Lado A

1. Menage À 3

2.Baum

3.Paris, What a City

4.Foz do Arelho

5.Bonita Troglodita

6.Ena pá

7.Para dentro para fora- és cruel

Lado B

1.Menina Azul (surf)

2.Baltazar

3.Emigrante

4.Mulheres Boas

5.Sexo na Banheira

6.Marilú

7.Ana Maria

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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