Miguel Gizzas: “Sou um homem muito emocional. Alimento-me de emoções. “

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“O dia em que o mar voltou” é o mais recente romance musical de Miguel Gizzas. Economista de formação académica e músico por paixão. Uma viagem bonita por entre a racionalidade dos números e a emoção das palavras que canta.

 

A história dramática do dia em que um colossal terremoto e tsunami assolam Lisboa é a base para doze novas músicas, que falam de dor, amor, esperança e superação.“O dia em que o mar voltou” inclui os QR codes que permitem ouvir as músicas sem sair do livro.

 

Em entrevista ao Infocul, Miguel Gizzas aborda a temática deste seu novo trabalho, não esquecendo o seu percurso na música, a formação como economista e até o homem por detrás do artista.

 

Miguel Gizzas é músico profissional desde 2001, mas antes, em 1994 licenciou-se em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, tendo completado o MBA e tese de mestrado em 2004 na Universidade Católica Portuguesa.

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Neste romance musical aborda uma temática sensível e muitas vezes esquecida da fragilidade de Lisboa perante um sismo de grande magnitude ou um maremoto. Quando surgiu e começou a ser construído este romance musical?

 

Não me recordo do momento específico. Talvez tenha estado latente no meu subconsciente e algum facto o tenha despoletado. Na verdade, esta é uma possibilidade que nos vai sendo recordada de tempos a tempos. Ao procurar o tema para o novo romance, devo ter-me cruzado com nova notícia. E achei que estava ali um manancial de histórias para explorar.

 

 

Além da fragilidade de Lisboa para estas ameaças, o Miguel mostra também o quão frágil é o homem… É um homem muito sentimental?

 

Sou um homem muito emocional. Alimento-me de emoções. São elas que nos alargam a perspetiva e nos fazem crescer, bem mais do que factos.

 

 

Acha que num mundo cada vez mais digital, os humanos esquecem-se de amar e valorizar as pequenas coisas da vida?

 

Não creio que seja a “digitalização” do mundo a criar esse problema. É, talvez, a desresponsabilização que temos assistido. A forma como educamos, hoje em dia, permitindo o sentimento de impunidade às crianças, transformando-as, mais tarde, em adultos egoístas, incapazes de entender o sentimento de partilha.

 

 

Com o avanço tecnológico acha que a comunicação entre as pessoas melhorou ou pelo contrario piorou, tornando-se mais mecânica e impessoal?

 

Acho que o ser humano vive de ciclos e modas. Apesar de uma silenciosa minoria (onde me incluo) não apreciar tais modas, elas fazem parte de um caminho. Ao vivê-las as pessoas experimentam-se. Perdem, talvez, a possibilidade de trilharem um caminho próprio. Nem todos foram talhados para tal, pelo que acabo por dar um certo crédito à moda. Julgo que voltaremos eventualmente ao dia em que a moda seja voltarmos a relacionarmo-nos da forma antiga. E saberemos apreciá-lo.

 

 

Quais os maiores desafios na construção deste trabalho?

 

O principal foi fazer 300 páginas acontecerem num tão curto espaço de tempo. Os pormenores de continuidade, o que está a acontecer e em que momento, são muito difíceis de controlar.

Outro enorme desafio: estou neste momento a traduzir as músicas para inglês, para poder internacionalizar o romance. Isto é algo que tem que ser feito por mim, dado que para garantir a métrica e a rima, tenho que alterar as frases, mas manter-lhes um sentido global. E isso é difícil de entregar a alguém para fazer, dado que ninguém sente tanto o significado das músicas como quem as criou.

 

 

Consegue juntar a contemporaneidade de um QR Code que permite ouvir musica ao mesmo tempo que se lê o livro. Acha que o público ainda tem hábitos de leitura? Ou esta foi uma forma de voltar a fomentar o hábito de leitura?

 

Apesar de hoje em dia se assistir a algum “aligeiramento” de conteúdos nos principais best sellers, como artista literário e musical devo dizer que se assiste a este fenómeno – que muitos consideram uma deterioração qualitativa – de forma bastante mais notória na área musical. O livro continua a ser uma arte primordialmente solitária, um momento da alma, mais difícil de interferir e adulterar.

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Como é que um economista veio parar à música?

 

Com muito amor. A vontade de aprender a tocar, as festas, ainda adolescente, com os amigos, onde a guitarra era o entretém e a forma de união de tantos… A vontade de encarar um palco, para perder a timidez que denotava nas apresentações de gestão, nas multinacionais onde trabalhava… Tudo foi um processo de crescimento, neste caso muito fácil, dado ser feito através de algo que me apaixona.

 

 

O que mudou no artista Miguel Gizzas desde “Tempo Ganho” até este “O Dia em que o Mar Voltou”?

 

Apesar de ter sido músico de bares durante 10 anos, ao chegar ao mundo da música com um trabalho próprio percebi que tinha tudo por aprender. Tudo. Durante estes 5 anos, 3 CDs e 2 romances depois, não me arrependo de nada do que fiz, apesar dos imensos erros que cometi e que me atrasaram o caminho. Porque tudo é um processo, porque para ser o músico e escritor que sou hoje tive que ser o músico e escritor que iniciou um caminho com menos qualidade.

O Miguel Gizzas de hoje é um artista mais completo, com mais crença na capacidade de fazer algo único, mas deve-o ao Miguel Gizzas do “Tempo Ganho”, um artista cheio de medos mas que, apesar disso, nunca desistiu.

 

 

Quem são as suas grandes referências musicais?

 

Variam muito, consoante o meu estado de espírito e consoante o meu momento de criação. Ultimamente, ouço muito Halley Tuck, Jaimee Paul, Norah Jones, Katie Melua, Melissa Etheridge, entre muitos outros. Mas serão essas as minhas grandes referências musicais? Penso que as grandes ficaram lá para trás, mas sempre agarradas à minha alma: Roger Waters, Mark Knopfler, Bob Seger, entre muitos outros. 

 

 

Qual a principal mensagem que pretende que este romance musical transmita?

 

Apesar de ser um livro que pretende relatar o efeito devastador de um sismo e tsunami idênticos ao de 1755 nos nossos dias, possibilidade real e para a qual sou apenas mais um a alertar, dadas as fragilidades do nosso tecido urbano atual, esta continua a ser acima de tudo uma história de amor. Do amor verdadeiro, duro, acima das dificuldades, não aquele que se mostra apenas quando tudo está bem. O amor como o vejo.

 

 

Este é o segundo romance musical. É uma prática que pretende manter ao invés do habitual disco?

 

O romance musical é a minha característica distintiva. Um livro com música é algo muito diferente, que faz as pessoas sentirem algo novo. Ter sido o primeiro a fazê-lo orgulha-me e não o escondo. Ter cada vez mais adeptos deste novo tipo de leitura também. Se puder continuar a fazê-lo, é por aí o meu caminho. O que não farei nunca é escrever apenas para cumprir prazos. Se o tema aparecer e for forte, escrevo novo livro. Senão, espero.

 

 

O que está a ser preparado em termos de espectáculos que possa ser revelado para 2017?

 

Para já, está fechado o dia 11 de Fevereiro, no Olga Cadaval. A Glam está a estruturar os concertos a partir daí, dado que este vai ser um conceito novo, onde o livro será uma peça presente em palco. Quero dar algo novo às pessoas também em palco, e estou a preparar algo que o consiga.

 

 

Onde podem os seus seguidores interagir consigo e informarem-se sobre as novidades da sua carreira?

 

Hoje em dia, nos locais mais óbvios: o Facebook, em primeiro lugar. Não sou o único a gerir a página, mas faço questão de ser eu a responder a quem me interpela. O crescimento artístico vive também da troca de opiniões, e faço questão de ouvir as críticas. Mais as construtivas do que apenas os elogios, devo confessar.

 

 

Dedica muito tempo às redes sociais?

 

O necessário. As redes sociais são a melhor base de comunicação do nosso trabalho.

 

 

Quem é Miguel Gizzas fora do palco?

 

Um tipo sempre feliz. Que assume que tudo o que lhe acontece o ajuda a crescer, mesmo que pareça ser algo muito negativo. E que, ao pensar dessa forma, nunca será infeliz.

Um homem que gosta de procurar sempre novos desafios, que gosta de desafiar novas zonas de desconforto, acreditando que, se por lá ficar o tempo suficiente, esta acabará por se tornar uma nova zona de conforto.

Um economista que era olhado com desconfiança ao entrar no mundo da música. E que hoje é elogiado pelos seus pares do passado, por ter prosseguido um sonho. Aparentemente, as pessoas têm medo de demasiadas coisas, para se darem ao trabalho de perseguir sonhos.

Se posso deixar um conselho: Não tenham. Não fiquem presos aos medos, porque o que interessa é o dia em que olham para trás e veem o que fizeram ou o que deixaram de fazer.

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Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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One thought on “Miguel Gizzas: “Sou um homem muito emocional. Alimento-me de emoções. “

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    Gostei do que descreve e a simplicidade como fez…já ouvi diversas vezes mas nunca tinha lido nada!!!Olhar profundo e firme do jovem que é sabe o que e para onde quer seguir.
    Fixei vou estar atenta…?

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