Miguel Ramos: “Gostaria de ser reconhecido pelo intérprete e pessoa que sou”

Miguel ramos

 

Miguel Ramos é fadista e acaba de lançar um disco novo, “Aqui na Alma”. Motivo mais que suficiente para uma conversa em Alfama, um dia antes a entrar no Museu do Fado onde apresentou o seu novo trabalho, no passado dia 12 de Abril.

 

 

Mas no dia 11 o Infocul falou com o fadista, numa tarde solarenga, para saber um pouco mais sobre este disco e também sobre o artista que começou por nos revelar que “da minha parte demorou muitos anos, tivemos um projecto que era com outros músicos mas que não aconteceu. Este surge quando o Diogo [Clemente] numa altura com mais tempo para a vida dele e para os amigos, num jantar falámos a sério e ele disse ‘vou fazer-te o disco’ e assim aconteceu. Depois fomo-nos reunindo, fomo-nos juntando e falando sobre o que se ia fazer, e chegou o “Aqui na Alma”, que é um trabalho que tu já tens e que já ouviste”, quando o questionámos de quanto tempo tinha demorado este trabalho.

 

 

Um trabalho que “dispo-me todinho”, no que à alma se refere e também ao seu lado mais humano, que se sente, ouve e respira neste disco.

 

 

Num disco de pormenores cuidados e de excelência num resultado final que nos oferece um dos melhores discos de fado desde ano, contou com letristas talentosos como Mário Raínho, Diogo Clemente, José Gonçalez ou Fábia Rebordão, entre outros.

 

 

A razão do meu cantar é só uma: as palavras têm para mim muito significado. Só para te dar um exemplo: quando me é dado um poema, eu gosto muito de escolher músicas dos fados tradicionais normalmente e quando o estou a ler automaticamente meto uma cantiga naquilo e porquê? Ao mesmo tempo vou encontrar a minha interpretação e depois é a força da palavra. As palavras mexem muito comigo” começa por nos dizer, antes de acrescentar que Mário Rainho “é o meu mestre”. Uma das grandes surpresas deste trabalho é o tema “É como o amor” com letra e música de Fábia Rebordão sobre quem diz que “sempre escreveu, isso eu sabia. Agora desconhecia é que também musicava. Para além do lado de amizade que nós temos há muitos anos, conheci-a no Porto”, antes de desvendar um pouco da história deste tema, “aconteceu…ela cantar-me coisas dela e eu perguntar quando é que surgia um tema para mim. Nessa madrugada, caiu no meu email um tema da Fábia com ela a tocar e a cantar “É como o amor” e eu desde logo fiquei apaixonadíssimo. Ela é de uma criatividade, de uma sensibilidade e de uma criação fenomenal. A Fábia é maravilhosa como cantora, como sabes, e surpreendeu-me o lado musical dela e vai ficar na minha vida para sempre”.

 

 

Mas neste trabalho também podemos dizer que Miguel Ramos acaba por ser um desafio para os poetas porque consegue interpretações únicas e uma transmissão de mensagem poderosa. O artista tem apenas um desejo para quem ouça este disco: “gostava acima de tudo que as pessoas reconhecessem o Miguel pela interpretação que ele dá em cada tema. Eu acho que sou um interprete, não me estou a julgar um interprete. Eu sou uma pessoa com o coração junto da boca e digo-te que sou um interprete porque meto ali mesmo qualquer coisa. E já tive experiências de pessoas que se chegam ao pé de mim, inclusive estrangeiros, nada melhor para tirares essa conclusão, que me dizem ‘não percebi nada do que tu disseste mas estou assim’ [exemplifica mostrando arrepio], e isso para mim são os melhores cachets. Para mim, além do cantar, a interpretação é tudo”.

 

 

Mas o brilho que atinge nas suas actuações e neste disco têm uma razão de ser, “eu trabalho muito o meu canto. Há muito trabalho de casa porque eu gosto. A mim quem me tira o cantar, mata-me. Isso que fique bem nítido e explicito”.

 

 

Revela que “Camané é o meu fadista de eleição. É o melhor interprete deste país e o melhor fadista também, de todas as gerações, excepto aquelas gerações do tio Fernando Maurício, do António Rocha, do Chico Madureira, porque foi com essa gente que nós crescemos”.

 

 

Ângelo Freire, Diogo Clemente e Marino de Freitas foram o trio de fado que o acompanhou neste disco, “fui um felizardo. O Marino veio completar o meu sonho, porque desde sempre que o vejo na televisão e a acompanhar grandes nomes do fado e tê-lo no meu disco foi mesmo um privilégio, não desfazendo dos outros, mas os outros cresceram comigo. Contudo é igualmente um prazer e privilégio contar com o Ângelo e o meu produtor Diogo Clemente, pois sem ele este disco nunca existiria”, diz-nos. Destaca ainda “um excelente musico” que participa no disco, Ashla Kinja.

 

 

Com um brilho nos olhos e com a tarde a caminhar a passos largos para o fim revela que “sou uma pessoas simples, e quando as coisas são feitas com amor e simplicidade, o resultado é bom”.

 

Sobre a escolha de repertório avança que “felizmente tive tanta coisa que me foi ofertada, posso revelar-te que tenho dois temas em que fiz musica e com poemas do Tiago Torres da Silva que não entraram no disco. Estão guardados para um próximo… tenho um do Fernando Girão também que me fez o fado Freitinhas, a que deu o nome do seu saudoso pai que foi dos primeiros guitarristas da Dona Amália, tive o José Luis Gordo…Não foi um trabalho pesado nem doloroso, não teve nada haver com isso, teve haver com o facto de ser o meu primeiro disco”, justifica.

 

 

A sua ligação ao fado é quase genética, porque “eu venho de uma família de músicos, para as pessoas entenderem que não é apenas por eu gostar ou porque sempre ouvi em casa. Tenho dois irmãos que tocam, antes disso tive o meu tio Zé Ramos, o meu pai que era o Vítor Ramos e o meu padrinho-tio que nunca teve filhos, eu era o único afilhado, que era o Miguel Ramos, que trabalharam com pessoas como o Tony de Matos, etc”, e neste disco as histórias que os poemas contam podem facilmente assemelhar-se a “amigos que passaram, de família…algumas passaram-se comigo mesmo”.

 

 

Vou perder um bocadinho a minha modéstia e responder-te da seguinte forma: Eu acho que se não tivesse a interpretação que tenho, com alguma qualidade, o Diogo nunca apostaria em mim. Estamos a falar de um produtor que já produziu nomes como Carminho, Mariza ou Carlos do Carmo. Quer dizer, isto é qualquer coisa, as pessoas não são surdas. E quando te digo modéstia à parte é porque eu sou a pior pessoa para falar de mim”, diz-nos quando questionado sobre a interpretação que aplica em tudo o que canta.

 

Sobre o produtor, diz ter uma sensibilidade “raríssima” e quando desafiado a descrever este disco, revela-nos que “acho o disco sublime no que diz respeito ao amor, à verdade das coisas, aos dias de hoje, à tristeza também, porque o fado não é apenas triste mas também não é só ‘love’. Eu diria sublime pela conjuntura e pela possibilidade de juntar amigos que me conhecem muito bem e escreveram para mim dessa forma”. O fadista acrescenta ainda que está “muito grato ao Museu do Fado, à EGEAC, à Rádio Amália e à Minha produtora Tejo Music Lab, não esquecendo que sou igualmente grato ao fado por me dar a cor e a matriz para ser o que sou“.

 

 

Em termos pessoais classifica-se como um “apaixonado, um chorão” e que fora dos palcos lhe dá prazer “estar com os meus filhos, estar com a minha mãe, com a família aos domingos quando se pode, estar com os amigos. Também gosto muito de compor e fazer músicas”. E se este disco tem muito amor, tal como a sua vida, acrescenta que “também sofri muito e também tenho os meus momentos de solidão”.

 

 

Penso muito no meu pai, apesar de ele já não estar entre nós, ele é o grande causador disto tudo. É por ele que faço isto tudo”, diz-nos sobre a “minha maior referência”.

 

 

Se não fosse fadista seria “jogador de futebol”. Mas é enquanto fadista que gosta do contacto com os fãs, “sou muito responsivo” às mensagens e comentários que lhe são enviados nas redes sociais como o Facebook, onde tem a sua página oficial, em que aproveita para dar as novidades a quem segue o seu trabalho.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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